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‘O Papa é um revolucionário’

Quem afirma é o Capitão Monteagudo Arteaga, que lutou junto com Che Guevara, e hoje fala sobre seus anos na guerrilha e sobre seu respeito por Francisco

Darío Pignotti, enviado especial a Havana

Ismael Francisco / CUbadebate

“Combati ao lado do Che, há muitos anos atrás, e agora estou falando contigo aqui, onde você me está vendo, na missa deste papa revolucionário”.

Estamos na Praça da Revolução junto com o ex-combatente Luis Monteagudo Arteaga enquanto Francisco celebra sua primeira missa em Cuba, diante de milhares de fiéis, numa manhã piedosa, porque o sol agrediu menos que nos dias anteriores, quando a temperatura chegou aos 36 graus.

São 8h54 horas. Bergoglio começou a realizar seu ofício religioso, seis minutos antes do horário previsto no programa oficial, repetindo a pontualidade jesuíta do sábado, quando o avião que o trouxe de Roma aterrizou dez minutos antes do que foi estabelecido. E concluiu a missa antes das 11h, pedindo aos cubanos “rezem por mim”, também mais cedo do que o esperado.

Talvez o papa tenha agilizado a missa, para terminá-la a tempo de cumprir com uma agenda carregada de compromissos, entre eles o encontro que com o comandante Fidel Castro, o presidente Raúl Castro e a mandatária argentina Cristina Fernández de Kirchner.

“O Papa e o comandante Castro se entenderam bem, falando o mesmo idioma” disse o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, para um enxame de repórteres que o rodeavam. Lombardi é um padre jesuíta, a mesma ordem à qual pertence o sumo pontífice Jorge Mario Bergoglio.

Durante os 40 minutos do encontro com Fidel, o papa lhe presenteou com livros e CDs sobre o padre Armando Llorente, que foi professor de Fidel quando ele era aluno de uma escola jesuíta em Havana.

Por sua parte, Fidel entregou ao sacerdote argentino o livro “Fidel e a Religião”, de Frei Betto, uma obra de referência, pois aprofundou o diálogo entre a Revolução e os católicos da Teologia da Libertação.

O combatente internacionalista

Voltemos à Revolução. Ou melhor, à Praça da Revolução.

Retomemos a entrevista concedida hoje por Luis Monteagudo Arteaga, capitão retirado das Forças Armadas Revolucionárias, o exército regular de Cuba, que falou exclusivamente com Carta Maior.

Este homem de quase 80 anos, delgado e vital como um junco, é um dos últimos companheiros de Guevara que ainda está com vida.

“Depois de lutar com o Che na Sierra Maestra, em 1958, me chamaram para ir com ele numa missão secreta no Congo. Me escolheram porque eu era militar, era jovem e era negro, e podia entrar dissimuladamente na África”.

“Aceitei ir ao Congo como voluntário, a gente não sabia se ia voltar, ninguém da minha família soube que eu fui. Mantive isso em segredo durante vinte anos”.

O relato do capitão Monteaguro Arteaga é interrompido, vez ou outra, pelos cânticos dos fiéis que participam da missa.

“O Che nunca nos falou de religião. Eu não tenho religião e estou vendo este papa fazendo missa na frente da figura do Che. Me vem à cabeça que o Che está se identificando com este papa. Para mim, ele é um comunista, porque é como Cristo, e Cristo foi o primeiro comunista que existiu na terra”.

“Os anos passaram, já não sou um jovem atirador que lutava com o Che Guevara. Minha memória às vezes me trai. Não recordo tudo com claridade. O que tenho bem claro em minha memória é que o Che era um combatente que não se alterava diante do perigo, era muito arrojado, e isso transmitia uma força de espírito a todos nós”.

“E sempre levo comigo as palavras do Che nas Nações Unidas, quando disse ‘me sinto tão revolucionário como o primeiro revolucionário, tão latino-americano quanto o primeiro latino-americano, e estou disposto a dar minha vida por qualquer país do nosso continente´”.

Católicos e não católicos

A praça está lotada, havia cubanos de Havana e outros vindos do interior do país. Havia também fiéis que chegaram de outros países, a maioria hispanoparlantes e com sotaque centro-americano ou do Caribe. Vários cardeais estão presentes, dos Estados Unidos, da América Latina e da Espanha.

São 11h em Havana. A multidão começa a se desconcentrar ordenadamente. São milhares, mas é possível que não chegue ao meio milhão de pessoas que alguns meios internacionais noticiaram.

Uma parte do público seguia os rituais da missa de perto, outros observavam com respeito, provavelmente por pertencer a outras religiões, ou por não seguir nenhuma: menos de 30 % dos 11,5 milhões de cubanos são católicos.

A cerimônia de Francisco não se referiu a temas políticos, o bloqueio norte-americano, nem mesmo a recomposição das relações entre Cuba e os Estados Unidos, situação com a qual ele contribuiu, com seus bons ofícios diplomáticos.

“Nós gostamos de escutar o papa, porque as coisas que ele diz são universais” comentam duas senhoras que se apresentam como “não católicas”.

As duas mulheres estão próximas à Ponchera los Paraguitas, uma borracharia, na Avenida Salvador Allende, a cinco quadras da Praça da Revolução e a poucos metros de um cartaz de mais de 10 metros, com o lema “Bloqueio, o genocídio mais longo da história”. Um lema que se repete em outros cartazes disseminados por vários pontos da cidade.

Tradução: Victor Farinelli

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Papa Francisco chega a Cuba para visita histórica de quatro dias

19 de setembro de 2015

O papa Francisco chegou na tarde deste sábado (19) a Cuba, primeira etapa de uma viagem que o levará também aos Estados Unidos, os dois países que contaram com seu apoio para restabelecerem relações diplomáticas.

Amauris Betancourt/AIN

O papa-móvel cubano está pronto para transportar FranciscoO papa-móvel cubano está pronto para transportar Francisco

O Airbus A330 da Alitalia transportando o papa aterrisou poucos minutos antes das 16 horas locais (17 horas, no horário de Brasília) no Aeroporto José Martí de La Habana, onde era aguardado pelo presidente cubano, Raúl Castro, e pelo cardeal Jaime Ortega, maior representante da Igreja Católica na ilha.

Além de reuniões protocolares, ele irá à Praça da Revolução, em Havana, ao Congresso dos Estados Unidos, em Washington, e à ONU, em Nova York.

O papa argentino, de 78 anos, terá uma agenda complexa: pronunciará 26 discursos, dos quais oito em Cuba e 18 nos Estados Unidos.

Até terça-feira (22), o papa estará em Cuba, com passagens por Havana, Holguin e Santiago, para encontros com jovens, famílias, bispos e, provavelmente, o líder histórico da Revolução, Fidel Castro.

Tripulação curte a presença do papa Francisco na cabine do Airbus A-330 que o levou a Havana, Cuba

Do Portal Vermelho, com informações da Agência Brasil

Bloqueio contra Cuba: guerra diária contra a população civil

18/09/2015 

Apesar dos progressos alcançados no plano diplomático com o restabelecimento das relações com os EUA, a hostilidade no campo do comércio ainda vigora.


LaughingRaven / Pixabay

O milagre cubano, sem a ajuda de deus: viver sob bloqueio econômico durante mais de meio século e manter a revolução de pé é uma façanha inquestionável. Faltando menos de 24 horas para a chegada do papa Francisco a Cuba, não pode haver outro assunto no país que não seja a visita do pontífice argentino, sua colaboração para o restabelecimento do diálogo com os Estados Unidos, a expectativa sobre o seu discurso e o que ele dirá sobre o bloqueio.

Os postes das principais avenidas e alguns edifícios públicos estão decorados com faixas amarelas e brancas, as cores da bandeira do Vaticano, que também se reproduzem nas lonas que cobrem o tablado montado na Praça da Revolução, onde Francisco celebrará a missa de domingo, abençoado pela famosa imagem de seu compatriota, Ernesto Che Guevara.

O chanceler Bruno Rodríguez declarou que seu governo aguarda com atenção esse discurso, no qual realmente se espera que o papa fale a respeito do bloqueio. “Escutaremos tudo o que ele tem que dizer, com profundo respeito, sabendo que o Santo Padre tem uma extraordinária autoridade, não só religiosa, mas também ética, e uma influência a escala mundial”.

Apesar dos progressos alcançados no plano diplomático, com o restabelecimento das relações com os Estados Unidos, a hostilidade no campo das relações comerciais continua de pé, afirmou Rodríguez, em entrevista para os correspondentes estrangeiros.

“Nos últimos anos, inclusive durante o período de diálogo e de conversas confidenciais com o governo dos Estados Unidos – ocorridas nos anos de 2014 e 2015 – o bloqueio continuou se fortalecendo, com um claro e crescente caráter extraterritorial, em particular no âmbito financeiro”.

O governo de Cuba, segundo o seu chanceler, valoriza e reconhece a atitude positiva do presidente Barack Obama, ao se abrir a uma recomposição das relações diplomáticas, mas agrega que isso não acabou com o acosso representado por uma “violação massiva, flagrante e sistemática dos direitos dos cubanos”.

Citou como exemplos as travas financeiras que impedem Cuba de comprar medicamentos oncológicos, o que afeta a um grande número de pacientes – inclusive empresas brasileiras, que exportam produtos com insumos norte-americanos, e que deixaram de vender para a ilha, explicou Rodríguez.

Traduzindo a valores atuais, pode-se dizer que o bloqueio causou um impacto estimado de 121 bilhões de dólares.

Cuba denunciará novamente o bloqueio no final deste mês, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, onde insistirá em que esta guerra econômica continua sendo o maior obstáculo para normalizar as relações de forma definitiva, apesar da reabertura das embaixadas em Washington e em Havana, que ocorreram em julho, com a presença do secretário de Estado John Kerry.

Ao comentar o informe “Cuba contra o bloqueio”, que será a base da proposta de resolução que Cuba levará às Nações Unidas, o chanceler confirmou que haverá uma menção sobre a nova conjuntura e o vínculo com a Casa Branca, e que Obama conta com atribuições constitucionais que lhe permitiriam atuar para mitigar a guerra comercial e financeira.

O bloqueio no “meu carro cor-de-rosa”

David Hernández é um jovem taxista, tem menos de 40 anos e me espera na parada em frente ao Hotel Nacional, ao dado do mítico Malecón de Havana.

Começou a chover, Hernández fechou o teto conversível de lona branca, antes de iniciar a viagem em direção ao bairro da Havana Velha, em seu Ford Victoria 1953 – “V8, oito cilindros, meu compadre” – pintado de um furioso tom rosado. “A pintura é novinha, eu coloquei há dois anos, o carro é velho mas continua aguentando, o único problema desses carros é que consomem muito combustível, são carros norte-americanos, eles fazem os carros para consumir combustível porque lá eles têm de sobra, mas aqui nos falta”.

David, como bom cubano, esbanja senso de humor: “espero que este papa nos ajude a derrubar o bloqueio, meu carro é mais velho que o bloqueio, mas não sei quanto tempo mais vai aguentar, já está velhinho, e as ruas estão cheias de buracos”.

O mundo está com os olhos sobre Cuba: mil jornalistas estrangeiros solicitaram credenciamento aos dois ministérios de relações exteriores, para acompanhar a visita do Papa, segundo informou o chefe de imprensa do organismo cubano, Alejandro González.

“Nós gostamos de falar com a imprensa, porque queremos que as pessoas de fora de Cuba saibam que aqui nós estamos lutando, todos os dias, esperando que as coisas melhorem, que haja mais prosperidade, e temos fé em que este Papa nos trará uma boa mensagem. Veja, eu disse que tenho fé, mas não sou religioso, sou ateu, mas tenho meu próprio deus” conta David, que me deixa na esquina da estreita e bonita Rua Campanilla, um local que preserva a arquitetura colonial, onde ele se despede com um cordial “quando quiser, conta com a minha ajuda”.

Raúl, Fidel e Malcolm X em Nova York

O chanceler Rodríguez anunciou a viagem do presidente Raúl Castro à Assembleia Geral das Nações Unidas, no que será sua primeira visita aos Estados Unidos desde 1959, quando integrou a comitiva encabeçada por Fidel Castro, poucos meses depois do triunfo da Revolução.

Raúl fará seu discurso na sede da entidade, em um dia em que, provavelmente, Francisco e Barack Obama estarão presentes.

O fato do trio Raúl, Francisco e Obama comparecerem em um mesmo evento, no edifício sede da ONU, despertou uma série de especulações entre os jornalistas que já estão trabalhando na sala de imprensa do Hotel Nacional, decorado com imagens de Che e Fidel durante seus anos de combatentes em Sierra Maestra.

Alguns colegas comentaram, entre tantas dessas especulações, que poderia haver um encontro entre os três, o que seria, certamente “a foto do ano”. Por enquanto, a única certeza é que o chefe de Estado cubano viajará aos Estados Unidos avivado por um clima de aproximação que ontem foi celebrado pelo chanceler, quando conversou com os correspondentes estrangeiros.

Os acontecimentos que nos esperam em Nova York serão reflexo das movidas diplomáticas discretas que sucedem estes dias em Cuba, no Vaticano e nos Estados Unidos. Contatos que devem se intensificar a partir do sábado quando o Papa desembarca no aeroporto internacional José Martí. Sabe-se que o atual sumo pontífice é um “animal político”, habituado à negociação cara a cara, um estilo muito pessoal que ele consolidou no ano passado, durante seus encontros privados que manteve com Raúl e com Obama, separadamente, na Santa Sé.

Mas independente do novo encontro entre Raúl e Obama, reeditando o ocorrido em abril, na Cúpula das Américas do Panamá, a visita do mandatário cubano a Nova York traz à memória outras viagens legendárias.

Como aquela de Fidel Castro, há mais de meio século, quando se alojou em um modesto hotel do Harlem, logo após abandonar outro, onde o proprietário temia que sua imagem fosse contaminada pela reputação de “comunista”. Depois do incidente, Fidel e sua comitiva foram grandiosamente acolhidos pela comunidade do bairro negro da cidade, e foram os próprios vizinhos os que estabeleceram um cordão de segurança em torno do hotel, onde o líder da Revolução foi visitado pelo presidente soviético Nikita Kruschev, o mandatário egípcio Nasser e por Malcolm X, o líder dos “Panteras Negras”. Fidel literalmente revolucionou os novaiorquinos, fascinados com o guerrilheiro que havia derrubado a ditadura de Fulgêncio Batista, figura sobre a qual pairava mil perguntas na época. Uma delas era justamente se Fidel era mesmo comunista.

Quem respondeu a pergunta foi o próprio Kruschev, dizendo que conversou com Fidel e quis saber se ele era comunista, e que ele teria respondido: “o que sei é que sou fidelista”.

Tradução: Victor Farinelli

Carta Maior

Cuba + Papa Francisco

Cuba solidaria recibe al Papa Francisco 1

Cuba solidaria recibe al Papa Francisco 2

Por: Aucalatinoamericano

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