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Cuba sintetiza o anseio de soberania da América Latina

A hostilidade econômica e as sabotagens armadas não fizeram os cubanos se curvarem, ou repensarem seu vigor latino-americanista.


Por: Darío Pignotti

Quando Francisco, um papa que toma mate e fala sobre o “Che”, visitou Fidel Castro há duas semanas, e conversou com o único líder que protagonizou vários dos momentos mais intensos da região durante a segunda metade do Século XX, a América Latina viveu um desses acontecimentos destinados a entrar para a História. O encontro de Fidel com o papa Jorge Bergoglio, no contexto da reaproximação entre Havana e Washington, foi um episódio comparável com a Cúpula das Américas de 2005, quando Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez e Néstor Kirchner acabaram com a utopia regressiva da ALCA, a proposta de George W. Bush e seus capangas, o mexicano Vicente Fox e o colombiano Álvaro Uribe.

Ambos os acontecimentos indicam o fracasso das políticas hemisféricas da Casa Branca e mostram, na prática, o potencial político de uma região com os anseios se soberania não alcançados. Épica e complexa, a Revolução Cubana pode ser vista por diferentes ângulos, como o da construção de um sistema político original, e imperfeito, baseado no poder popular. Ou desde a perspectiva das mudanças estruturais, como a nacionalização dos bens de produção ou as políticas que garantiram direitos educativos e sanitários para toda a população.

Mas o aspecto mais interessantes para a análise é o de compreender a Revolução a partir de sua identidade nacional e latino-americana.

América Latina

Desde os Anos 60, a soberania intransigente da ilha foi castigada pelos Estados Unidos, inclusive antes de o bloqueio ser formalizado, durante o governo de John Kennedy, em 1962.

Um memorando de 1960, desclassificado nos Anos 90, indica a estratégia de atacar a população para minar a adesão ao governo.

“A maioria dos cubanos apoia Castro, não existe oposição política efetiva, a única forma de reunir o apoio necessário é através do desencanto surgido das dificuldades econômicas da população, para conseguir esse objetivo, deve-se usar qualquer meio”, recomenda o texto apresentado por Dwigth Eisenhower.

Desde então, a estratégia de “contenção do comunismo” e a luta dentro das “fronteiras ideológicas”, ditada por Washington contra o hemisfério foi justificada pelo argumento de evitar que surgissem outras Cubas na América Latina. Esse fantasma foi invocado pelos generais que derrubaram João Goulart no Brasil em 1964, e Salvador Allende, em 1973, um ano depois que de Fidel se hospedar no país durante quase um mês.

Cuba, o modelo de socialismo tipicamente latino-americano, como definiu o herói Ramón Labañino Salazar em entrevista à Carta Maior, foi um tema onipresente no debate latino-americano dos Anos 60 e 70.

O pretexto da Guerra Fria e o combate ideológico caíram junto com o Muro de Berlim, em 1989. Mas, em vez disso atenuar o bloqueio, o tornou mais feroz, através das leis Torricelli, de 1992, no governo republicano de George Bush, e a lei Helms Burton, de 1996, promulgada pelo democrata Bill Clinton. A hostilidade norte-americana era uma política de Estado, independente do partido que governava.

Washington e (principalmente) a ultradireita de Miami estavam eufóricos, imaginando que o colapso da Revolução era iminente, assim como a restauração de um regime neocolonial, no mesmo estilo do que imperava durante a ditadura de Fulgêncio Batista, época em que os mafiosos ítalo-americanos controlavam hotéis e cabarés na capital cubana.

Posteriormente, nos Anos 90 os ataques terroristas e a guerra desinformativa, orquestradas na Flórida com o aparato de propaganda centrado no Miami Herald, se fizeram mais agressivas.

Um jornalista desse diário, Andres Hoppenheimer, chegou a publicar, com ar profético, um livro que se transformou em um grande “faz me rir”, devido ao título “A última hora de Castro”. Em setembro deste ano, o mesmo colunista do Herald e da CNN criticou Francisco por ter cumprimentado Fidel.

A hostilidade econômica e as sabotagens armadas não fizeram os cubanos se curvarem, ou repensarem seu vigor latino-americanista.

Em 1990, Fidel e Lula criaram o Foro de São Paulo para rebater os cantos da sereia sobre o fim das ideologias e da esquerda.

Visionário, Fidel Castro foi pessoalmente até o aeroporto da capital cubana, em dezembro de 1994, para receber o então ainda coronel Hugo Chávez, recém saído da prisão após liderar um levante contra o governo neoliberal de Carlos Andrés Pérez, o presidente venezuelano que protagonizou a ofensiva privatizadora em seu país, assim como Fernando Henrique Cardoso no Brasil, Carlos Menem na Argentina e Carlos Salinas no México.

CELAC

Na primeira década do Século XXI, a diplomacia subserviente acabou, graças à guinada dada pelo Mercosul reinventado por Lula e Kirchner, e também pela criação da Unasul. Para os governos progressistas, acabar com o isolamento cubano e revogar a expulsão do país – medida adotada nos Anos 60 – foi uma das prioridades.

Um passo decisivo para isso dado por Lula, em 2008, quando organizou um encontro de presidentes latino-americanos, com a presença de Raúl Castro, numa cúpula na qual foi criada a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (CELAC), uma espécie de OEA, mas sem a presença dos Estados Unidos e do Canadá.

A construção do Porto de Mariel, com financiamento do BNDES e inaugurado em 2014 pela presidenta Dilma, foi outro movimento brasileiro contra o isolamento de Cuba. Certamente, Washington não aprovou a aproximação concreta entre Brasília e Havana.

Um ano depois, Dilma e vários colegas latino-americanos anunciaram que não participariam novamente da Cúpula das Américas se os Estados Unidos deixassem de fora o líder cubano Raúl Castro – encontro que finalmente aconteceu na cúpula de abril deste ano, no Panamá.

Tradução: Victor Farinelli

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Cuba y México: afecto fraternal e indestructuble

La visita a México del Presidente de los Consejos de Estado y de Ministros, General de Ejército Raúl Castro Ruz es un acontecimiento, además de histórico, lleno de profundo simbolismo.

Es la primera vez, desde 1960, que un mandatario cubano visita la patria de Hidalgo y Juárez; el lugar del encuentro de Raúl con el Presidente de México Enrique Peña Nieto, igualmente encierra un significado para la Revolución Cubana y los históricos vínculos de hermandad entre ambas naciones. Fue Mérida la primera ciudad mexicana visitada por Raúl en junio de 1955. “Mi emoción es especialmente grande por cuanto el lugar por el que aterricé aquí ese día fue Mérida y fue donde vi por primera vez la tierra mexicana”, afirmó Raúl.

Durante su visita, además del carácter oficial, nuestro Presidente exteriorizó los sentimientos de cariño hacia el hermano país, así como hacia Mérida, donde tuvosus primeros amigos mexicanos, los yucatecos. No lejos de Mérida, desde el vecino Veracruz, partieron Fidel, Raúl y los expedicionarios del Granma poniendo proa hacia el ideal de aquella generación gloriosa: conquistar la plena soberanía de Cuba.Por ello manifestó Raúl:“En 1955, Fidel Castro y otros jóvenes recibimos asilo y abrigo por parte de muchos mexicanos, y a bordo del yate Granma zarpamos de Tuxpan, Veracruz, el 25 de noviembre de 1956, para continuar la lucha por la independencia y libertad definitivas de nuestra patria.”

Yucatán ha sido culturalmente el principal punto de contacto de las culturas de Cuba y México; desde los primeros años del siglo XX, a sus costas llegaba el comercio procedente de Cuba y, con éste, manifestaciones culturales que arraigaron allí. Fue Yucatán la que dio bienvenida a las primeras manifestaciones de la cancionística cubana, encarnadas en los trovadores que con Pepe Sánchez al frente enamoraron a México de nuestra música. Así surgió la Trova Yucateca- con figuras como Guty Cárdenas, Ricardo Palmerín y Pepe Domínguez -, género que comparte identidad con la Trova Cubana;también llegó a través de Mérida el Danzón, Baile Nacional de Cuba, que se naturalizó en esas hermosas playas al sur del Golfo de México, y de la cual muchos compositores mexicanos, entre ellos Agustín Lara, hicieron verdaderas creaciones.

En lo político, México como nación ha estado siempre al lado de Cuba; desde la Guerra del 68 cuando Pedro Santacilia, cubano y yerno del Benemérito Benito Juárez, representó en tierra azteca al Gobierno de Cuba en Armas. Casi un siglo después, durante los momentos más difíciles, cuando los enemigos de la independencia de Cuba apretaron filas para destruir la Revolución, la mano franca y amiga de México siempre se mantuvo extendidaal lado de Cuba. Gestos así mantienen eterna vigencia. “Tampoco olvidaremos nunca que México fue el único país latinoamericano que no rompió relaciones con Cuba cuando todos los demás gobiernos lo hicieron, presionados por los Estados Unidos, en un momento especialmente crítico para nuestra Revolución y nuestro país.”

Resultó conmovedor cuando Raúl expresó: “Nuestro Héroe Nacional, José Martí, quien vivió y trabajó en México durante la preparación de la que llamó “la guerra necesaria” contra el colonialismo español, escribió en 1892: “México es tierra que todos los cubanos debemos amar como la nuestra”. Y acto seguido, al evocar esta relación familiar e histórica, añadió: “Como Martí, numerosos patriotas cubanos encontraron refugio y apoyo en México desde los albores de la lucha por nuestra independencia. El poeta José María Heredia en la primera mitad del siglo XIX vivió en Toluca y murió en la Ciudad de México. El líder estudiantil y dirigente comunista Julio Antonio Mella vivió asilado aquí, donde fue asesinado por sicarios enviados por la tiranía de turno en Cuba.”

Las relaciones históricas cubano-mexicanas se fortalecen y renuevan. El Presidente mexicano Enrique Peña Nieto ha manifestado en más de una ocasión la buena voluntad y disposición de México de acompañar a Cuba en su actual proceso de actualización económica. Correspondiendo a tal gesto, Raúl afirmó en su discurso en Mérida: “Nos complace, además, el interés de las empresas mexicanas en hacer negocios e invertir en Cuba, especialmente en la Zona Especial de Desarrollo del Mariel y en sectores como la agricultura y el turismo.”Igualmente se refirió a la labor política mancomunada en pro de la unidad latinoamericana, al expresar: “En la Comunidad de Estados Latinoamericanos y Caribeños (CELAC) y la Asociación de Estados del Caribe, México y Cuba continuaremos trabajando conjuntamente para fortalecer la unidad e impulsar el proceso de integración regional.”

El abrazo y el brindis de Raúl y Peña en la Quinta Montes Molina de Mérida,testimonia la saludable amistad que marcha hoy, como antes, a través de los caminos de la cooperación, el intercambio y afecto fraternos. Es por ello que la de Cuba y México es una hermandad indestructible.

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Lula e Mujica recebidos como heróis na Colômbia

Convidados pela CLACSO, Lula e Mujica chegam a Medellín para dizer que a América Latina apoia a paz, o que é muito importante para toda a região


Por Darío Pignotti, enviado especial a Medellín

Agência PT de notícias

“Luiz Inácio Lula da Silva e José Mujica são dois mitos na Colômbia, são dois heróis”, conta o secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO), Pablo Gentili, para explicar a importância de presença dos ex-mandatários no congresso do mais importante “tanque de pensamento” da região, que se inicia amanhã, em Medellín em momentos cruciais para o processo de paz entre a guerrilha e o governo.

“A popularidade de Lula entre os colombianos é muito alta, muitos estão a favor de Lula porque conhecem sua história de vida, desde que era um operário metalúrgico e dirigente sindical, além de fundador do PT. Nas campanhas eleitorais, os candidatos colombianos usam Lula com exemplo, para conseguir votos. Os colombianos também adoram Mujica, o respeitam por sua vida digna, sua história de luta, sua atitude coerente contra o consumismo. Mujica nos demonstra como um homem que esteve na luta armada – e ficou preso durante treze anos pela ditadura uruguaia – depois optou pela política partidária, se transformando num grande líder, algo que pode acontecer com os guerrilheiros colombianos das FARC quando se inicie a etapa posterior ao conflito”, conta Gentili em entrevista para a Carta Maior.

“Convidados pela CLACSO, Lula e Mujica chegam a Medellín para dizer que a América Latina apoia a paz, o que é muito importante para toda a região”.

Medellín, Pablo Escobar e James Rodríguez

Em Medellín, o clima passa rapidamente de uma chuva suave ao gostoso sol tropical, e depois volta a chuva suave, um revezamento que mantém no ar um ambiente muito “chévere”, como dizem as pessoas que vivem nos morros que rodeiam esta cidade.

Nesta cidade o líder narco Pablo Escobar Gaviria construiu sua fortaleza, e também o ex-presidente ultradireitista e atual senador Álvaro Uribe – um aliado político dos Estados Unidos, que durante seu mandato tentou e fracassou na tentativa de eliminar militarmente os guerrilheiros que lutam a mais de meio século no país.

“Esta cidade é conhecida em todo o mundo por ser o lugar onde viveu Pablo Escobar, mas Medellín também é a terra do clube Envigado, onde jogou James Rodríguez antes de ser comprado pelo Real Madrid”, diz o garçom de um bar na avenida Nutibara, por onde automobilistas e motociclistas circulam em alta velocidade, sintoma do trânsito violento do centro de uma cidade onde, nos setores periféricos, ainda há zonas controladas pelos paramilitares.

O diretor do CLASCO, Pablo Gentili, destaca o significado político de que Medellín, um histórico reduto da ultradireita, seja visitada por milhares de intelectuais, acadêmicos e dirigentes políticos como o vice-presidente boliviano Álvaro García Linera e o secretário-geral da Unasul, o colombiano Ernesto Samper, ex-presidente do país.

“A América Latina deve se comprometer com a paz na Colômbia, demonstrar que o país está atento às negociações realizadas em Havana”. Gentili confia que o acordo definitivo será assinado em março, como prometeram as duas partes depois da cúpula realizada em setembro, em Cuba, entre o chefe guerrilheiro Timochenko e o presidente Juan Manuel Santos. Aquela reunião foi patrocinada pelo presidente Raúl Castro e abençoada pelo papa Francisco.

“Vemos que houve avanços concretos na Colômbia, permitiram superar travas que pareciam insuperáveis, mas ainda há alguns temas difíceis de resolver. Ainda assim, acho que ano que vem teremos um acordo de paz, a não ser que ocorra uma tragédia inesperada, que pode estar sendo planejada pela ultradireita”, comenta Gentili. “Será preciso enfrentar os obstáculos que a direita colombiana, militarizada e paramilitarizada, colocará no caminho. Não falta vontade de intervir para que a paz fracasse. O uribismo (tendência política ligada a Álvaro Uribe) está trabalhando contra os acordos”.

Independente das ameaças políticas e armadas contra as negociações, o país “está vivendo um momento muito interessante, porque começa a se discutir o que virá na etapa do pós-acordo de paz. A Colômbia deverá enfrentar um longo processo para implementar a paz que está se negociando, necessitará uma arquitetura institucional muito complexa para construir essa paz, e também ideias, que serão discutidas neste congresso do CLACSO”.

Pensamento próprio

O congresso do CLACSO discutirá, a partir de amanhã e até a próxima sexta-feira, temas como a paz e a guerra na Colômbia, o processo de integração, o futuro dos governos progressistas e de esquerda na região, o modelo de desenvolvimento e inclusão social, as relações com os Estados Unidos e a ofensiva conservadora para desestabilizar as experiências pós-neoliberais, entre outros.

“Na América Latina, temos uma grande capacidade de produção acadêmica autônoma, criativa, séria, rigorosa. Temos um pensamento próprio para ver o mundo e impulsionar uma disputa com uma postura politicamente comprometida”, observa Gentili.

Este encontro estará marcado pela batalha das ideias que estão em curso, a que ganhou vigor no início da década passada, em paralelo ao desgaste da dominação unilateral norte-americana.

“Ainda hoje em dia, quem produz a visão do mundo são os países hegemônicos. Diante disso, é preciso valorizar nossa produção intelectual. Nos últimos anos, a América Latina começou a ter intelectuais e profissionais atuando com mais influência em organismos internacionais como a ONU, onde se discutem programas, projetos sobre a desigualdade, a pobreza e o desenvolvimento”, opina Gentili. “Foi durante os governos de Lula, de Néstor Kirchner e de Hugo Chávez que nós começamos a ganhar espaço nesses âmbitos. O CLACSO também cresceu nos últimos anos. Duplicamos o número de instituições associadas e vamos seguir trabalhando nessa estratégia, porque a articulação dos centros de investigação latino-americanos é necessária, como também a articulação dos centros de investigação da África e de outros continentes”.

Futuro

“Espero o futuro de América Latina com preocupação, mas com confiança” afirma Pablo Gentili, para quem o CLACSO é uma usina de pensamento crítico, por onde circulam intelectuais com compromisso político, dentro de um espaço de grande diversidade.

Pensando neste encontro de Medellín, ele diz não esperar por consensos unânimes sobre o futuro da América Latina, que prevê muitos debates e divergências, e que não se surpreenderá se as posturas, mesmo dentro do campo progressista, estiverem bastante distanciadas.

“Um tema que vai provocar debates duros é o do modelo desenvolvimento atual na região, o meio ambiente e a mineração. O problema não é ter um diagnóstico de consenso sobre os rumos da América Latina, mas sim ter claro que não podemos retroceder ao neoliberalismo dos Anos 90”.

Gentili recorda o fato de que a reunião de Medellín se realiza exatos dez anos depois da histórica Cúpula das Américas, onde Lula, Kirchner e Chávez frearam o projeto da ALCA, a área de livre comércio que os Estados Unidos queria impor ao continente.

“O `Não à ALCA´ foi uma demonstração concreta da integração. Os presidentes disseram aos Estados Unidos `aqui estamos´, a partir dali, os países se uniram, avançaram, definiram uma agenda com vários temas, que incluiu até mesmo um programa educativo em comum. Se acompanhamos estes dez anos posteriores àquela cúpula, se vemos a evolução dos nossos debates, podemos entender a transformação ocorrida na realidade regional”.

“Em 2005, houve um golpe de esperança. Nessa época, os governos populares e de esquerda não tinham grandes conquistas para exibir, ainda não havia resultados sociais, mas havia a vontade de construir um futuro”.

Tradução: Victor Farinelli

Democratização das comunicações: fronteira tecnológica e soberania

A sociedade brasileira deve se engajar para que o Brasil siga com papel de destaque nas discussões sobre questões como governança na internet
por: Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais da Carta Capital
Internet

 

A área das comunicações, envolvendo desenvolvimento tecnológico, ampliação de infraestrutura, produção de conhecimento, política de meios e acesso à informação, é estratégica para todo país que se quer desenvolvido, democrático e capaz de ter política de inserção internacional soberana.

Os esforços para ir além de um forte mercado consumidor (o Brasil, por exemplo, é o 5º maior mercado em telefonia móvel), e de se consolidar também como país produtor tecnocientífico, são essenciais para garantir posição de destaque em fronteira tecnológica. Afinal, não se trata mais apenas de garantir que as pessoas se comuniquem. A nova era de salto tecnológico, sobretudo com a internet, tem revolucionado aspectos comportamentais do dia a dia e o modo de produção, com fenômenos como as “cidades digitais”, “comunicação máquina a máquina” e a chamada “internet das coisas”. País e população que não acompanham esses temas estarão fadados a décadas de atraso.

O Brasil tem buscado aprofundar a atuação em foros internacionais, como o sistema ONU, o sistema interamericano, abrir canais de cooperação e atuação na América do Sul e América Latina (Mercosul, Unasul e Celac), fortalecer cooperação com países da União Europeia e com os EUA, assim como estreitar relações com países do BRICS, com as nações da Ásia e África.

Mas chama a atenção o fato de não haver até recentemente, em alto nível de ministros, reuniões específicas periódicas sobre a temática das comunicações em tagrupamentos regionais (como Mercosul e Unasul) e extrarregionais, como no caso do BRICS. No Mercosul, há apenas um subgrupo técnico. A região não conta com um foro de mais alto nível político para tratar questões tão estratégicas e sensíveis como governança e infraestrutura da internet, trocar informações sobre marcos regulatórios e garantia de liberdade de expressão. Só recentemente foi possível estreitar canal de contato com a Unasul.

Novidade importante pela escala econômica e pelo grau de desenvolvimento técnico-científico de seus membros, foi há pouco constituída oficialmente Reunião de Ministros de Comunicações dos BRICS (primeiro encontro ocorreu nos últimos dias 22 e 23/10, em Moscou).

Como agendas principais, os BRICS buscarão cooperar e intensificar investimentos, inclusive por meio do novo Banco dos BRICS, em TICs, infraestrutura e ampliação do acesso à internet. Para além das vantagens que o novo foro traz, em termos de diversificação de parceiros, há também o desafio de se debaterem temas que envolvam a governança da e a liberdade na internet, por exemplo.

A diversificação da agenda bilateral com países estratégicos tem sido igualmente prioritária. Temos tido acordos e diálogo de alto nível com África do Sul, Alemanha, Federação Russa, França, Japão, República da Coreia e República Popular da China. O Brasil também tem reforçado agenda com os EUA, como no caso do Grupo de Trabalho sobre Internet e Informação, Comunicação e Tecnologia (Brasília, 27 e 28/10). Isso demonstra claramente que o engajamento do País com potências emergentes (como o caso dos BRICS) não se dá em detrimento de relações com os países desenvolvidos (EUA, UE e Japão), mas em quadro de atuação simultânea em diversos tabuleiros do cenário internacional, em quadro das chamadas geometrias variáveis.

Tem sido também retomada a agenda de cooperação em TV Digital (sistema Nipo-Brasileiro) na região sul-americana, na América Latina e África, e fortalecido o diálogo de alto nível com o Japão. Há especial interesse na repactuação do acordo de cooperação Brasil-Japão, com destaque para os temas de TICs, desenvolvimento de tecnologia 5G e em semicondutores, e o “middleware” brasileiro (Ginga C) em TVDigital, importante meio para garantir maior grau de interatividade.

O que está em jogo é sermos capazes de garantir sistema homogêneo em toda a região sul-americana, para propiciar produção de conteúdo local, o que poderá resultar em ganho de escala e democratização de produção cultural, respeitando especificidades locais.

Há especial interesse em manter fortalecida a agenda da Governança na Internet. Lembremos que o Brasil, em conjunto com outros países, organismos internacionais e sociedade civil, destacou-se na realização do NETMundial, evento multissetorial, em abril de 2014, para ampliar a discussão sobre o assunto. Governo e sociedade brasileiros têm interesse em fortalecer o pleito pela democratização da Internet, com pleno respeito aos direitos humanos, e mantendo sua natureza intergovernamental e intersetorial.

Há igualmente interesse em democratização de centros raiz, com as vantagens advindas de desenvolvimento tecnológico e de produção de conhecimento científico que resultam da ampliação desses centros. O País é referência mundial, também, pela sua política nacional de governança por meio do Comitê Gestor da Internet (CGIbr), congregando, de forma multissetorial, sociedade civil, meio acadêmico, setor privado e governo.

Merece destaque: o Brasil sedia, em João Pessoa, o X Fórum de Governança da Internet-IGF, entre os próximos dias 9 e 13 de novembro. Trata-se de importante caixa de ressonância do debate sobre internet na ONU, com plena participação multissetorial, cujo fortalecimento e manutenção o Brasil tem defendido.

É conhecida a posição de muitos países em desenvolvimento contrários a um foro da ONU capaz de debater e influir sobre a governança mundial da Internet. Ao mesmo tempo, há o desafio de imprimir transição do atual sistema “privado” gerido pela ICANN (“Internet Corporation for Assigned Names and Numbers” – empresa dos EUA que rege a internet no mundo, mas sujeita à jurisdição do Estado da Califórnia).

Novidade da ação internacional, foi introduzida a agenda do Papel Social das Comunicações e do Fortalecimento da Liberdade de Expressão, com interlocução com a ONU e o sistema interamericano, meio acadêmico e sociedade civil brasileiros e internacionais. O tema está incluído oficialmente na agenda da ONU, como Seminário Internacional no Dia Zero do IGF (09/11). A temática também está na pauta de cooperação com a União Europeia, como item dos diálogos setoriais, e integra projeto de análise comparativa sobre marcos legais em países do bloco, de forma a enriquecer debate amplo e democrático no Brasil.

Iniciativa conjunta entre o Ministério das Comunicações e o Ministério da Cultura, o Seminário sobre Liberdade de Expressão tem como proposta trazer ao debate interno no País o conhecimento e as experiências internacionais sobre o tema de marcos legais de comunicações e fortalecimento da liberdade de expressão.

Teremos presença de representação de alto nível do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, da Unesco, da Comissão Interamericana dos Direitos Humanos, de relatorias especiais sobre liberdade de expressão, direito à privacidade, direitos culturais, assim como representantes de países. O objetivo é enriquecer o debate interno sobre tema politicamente sensível, indo além de maniqueísmos e promover debate maduro sobre como avançar na garantia do direito à liberdade de expressão, com direito à informação e à comunicação.

O Brasil tem se engajado em negociações, cooperação e diálogo no cenário internacional sobre agenda das comunicações em áreas de fronteira tecnológica, comportamental e econômico-comercial. São temas centrais para o desenvolvimento, a soberania e a democracia no País. Para mantermos e reforçarmos nossas posições, são fundamentais a plena participação e o amplo debate na sociedade.

*Murilo Vieira Komniski é diplomata e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI. Serviu na Missão junto à ONU em Genebra e na Embaixada em La Paz, Bolívia. Atuou no Departamento da África do Itamaraty, na Secretaria dos Direitos Humanos e Secretaria Geral da Presidência e no Ministério da Defesa. Atualmente é chefe da assessoria internacional do Ministério das Comunicações. O texto reflete apenas a visão pessoal do autor.

Dez anos depois da Alca: os novos desafios da América Latina

Há dez anos a América Latina vencia uma de suas maiores batalhas contra a dominação imperialista no continente ao derrubar a Alca (Área de Livre Comércio das Américas). O processo se deu com grandes mobilizações dos movimentos sociais e partidos de esquerda e foi consolidado durante a 4ª Cúpula das Américas, realizada entre os dias 4 e 5 de novembro de 2005 em Mar del Plata, na Argentina, quando os presidentes Lula, Hugo Chávez e Néstor Kirchner decretaram o fim da Alca.

Por Mariana Serafini

Hugo Chávez, Néstor Kirchner e Lula quando decretaram o fim da Alca, durante a Cúpula das Américas

Na época a América Latina dava os primeiros passos rumo à soberania do continente. O então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, havia sido eleito quase dez anos antes, e inaugurou uma nova fase política que trouxe uma leva de governos progressistas, entre eles Lula e Néstor, além de Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador e Daniel Ortega na Nicarágua.

O fim da Alca representou um novo período para o povo latino-americano. Mecanismos de integração política e social foram fortalecidos e criados, entre eles o Mercosul, que mais tarde foi expandido com o ingresso da Venezuela; a Alba (Aliança Bolivariana Para os Povos da Nossa América), a Unasul (União das Nações Sul Americanas) e a Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos).

Enquanto a Alca representava a consolidação dos poderes econômico dos grandes grupos multinacionais e a transformação do continente em um mercado sem regulações; a Alba vai na contramão da proposta norte-americana e fomenta a liberdade dos povos, a redistribuição de renda, a ampliação do acesso dos mais pobres, a redução das desigualdades e a mudança do modelo econômico produtivo a fim de promover a inclusão social dos “invisíveis” citados por Hugo Chávez.

A Alba, criada em 2004 com o impulso de Cuba e da Venezuela, abriu caminho para uma nova forma de intercâmbio regional cujo foco é a liberdade dos povos, a soberania e a igualdade. Durante este novo período a América Latina logrou feitos importantes, como a retirada de 70 milhões de pessoas da extrema pobreza, destas, mais da metade é composta por brasileiros.


Néstor Kirchner, Evo Morales, Lula e Chávez durante a Cúpula das Américas em 2008 | Foto: AP

Os governos progressistas de Lula, Evo, Néstor, Chávez, Correa e Ortega foram fundamentais para tirar o continente do rumo neoliberal que afundou a economia de muitos países durante os anos 1990, entre eles o Brasil e a Argentina.

Se Fernando Henrique no Brasil e Carlos Menem na Argentina privatizaram estatais e quebraram a economia de seus países, recorrendo diversas vezes aos empréstimos do FMI, Lula e Néstor saíram deste eixo, fortaleceram a soberania nacional e pagaram as dívidas externas. No país vizinho o governo conseguiu ainda renacionalizar empresas importantes como a YPF, de petróleo, e as Aerolineas Argentinas, entre outras.

A criação do Banco da Alba, em 2008, foi mais um passo importante para consolidar a soberania e a independência financeira dos países membros. Ações como esta permitiram que mais de dois milhões de latino-americanos e caribenhos hoje tenham acesso à saúde e educação públicas.
Os programas de alfabetização desenvolvidos no continente fizeram com que a Unesco declarasse Cuba, Venezuela, Bolívia e Nicarágua territórios livres do analfabetismo. Ao passo que o projeto educacional desenvolvido na ilha comunista, Yo Sí Puedo, já alfabetizou mais de 10 milhões de pessoas, um terço destas nos países latinos e caribenhos.

Desafios para continuar no rumo do desenvolvimento social

Passados dez anos, a postura dos países latinos frente à geopolítica mundial é outra, hoje com mais peso e importância. As relações comerciais com a China e países do Oriente Médio foram fortalecidas, ao passo que se reduziu a dependência econômica dos Estados Unidos e da União Europeia. Não à toa a crise econômica que atingiu os países do Norte em 2008 e hoje já traz efeitos desastrosos, chegou com menos intensidade no continente latino-americano.

No entanto, a contraofensiva da direita é constante e cada vez mais intensa. A Venezuela resiste a duras penas às tentativas de desestabilização promovidas pela elite local com apoio norte-americano. O interesse do mercado estrangeiro no petróleo do país é nítido, o mesmo acontece na Argentina, que sofre ainda com a questão dos fundos abutres, bravamente enfrentada pela presidenta Cristina Kirchner.


Dilma, Maduro e Cristina representam a continuidade dos governos progressistas | Foto: AFP

No Equador a tentativa de golpe foi aos “moldes dos anos 60”, quando em 2010 o presidente Rafael Correa sofreu um atentado seguido de tentativa de assassinato e sequestro. Recentemente a onda desestabilizadora atingiu também o Brasil e vem tentando derrubar o governo da presidenta Dilma Rousseff, desde que o povo brasileiro conquistou a quarta vitória popular nas urnas, em outubro do ano passado.

O desafio destes países é garantir a constitucionalidade governamental sem sair do rumo do desenvolvimento e da inclusão social. A “Pátria Grande” sonhada por Simón Bolívar é o norte dos países do Sul e a alavanca que fomenta a luta por soberania e independência iniciada em meados dos anos 1990 por Hugo Chávez. As ameaças golpistas e fortalecimento dos partidos da direita representam o retorno do neoliberalismo que deixou marcas profundas de atraso e retrocesso no continente.

Argentina no projeto de integração latino-americano

Não só a Argentina, mas toda a América Latina luta com capacidade solidária e de reação para frear a onda das empresas multinacionais que pretendem derrubar os governos progressistas através de “golpes brandos”.

 

Hugo Chávez (Venezuela), Néstor Kirchner (Argentina) e Lula (Brasil), os presidentes que impulsionaram o processo de integração continentalHugo Chávez (Venezuela), Néstor Kirchner (Argentina) e Lula (Brasil), os presidentes que impulsionaram o processo de integração continental

A presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, tem destacado o legado político de Néstor Kirchner e Hugo Chávez na região, que inspiraram o poder de transformação em milhares de jovens não só da Argentina e da Venezuela.

“Foram exemplos de homens que ousaram fazer o que durante muito tempo nos disseram que não era possível, que não poderíamos transformar, governar para incluir, que não se podia crescer economicamente incluindo os setores vulneráveis e castigados pelo neoliberalismo”.

A mensagem de Cristina, proferida em 2014, antes de participar da Cúpula do Mercosul destaca o feito de que a Celac integra todos os países países latinos, inclusive Cuba. “Se me dissessem em 2003 que íamos estar todos juntos em organismos de integração regional, eu diria que era impossível, porém foi possível graças a Chávez e sua transformação”.

Um novo capítulo na história argentina

Em 25 de maio de 2003 a história argentina escreveu um novo capítulo, quando Néstor Kirchner assumiu a presidência. Ele recebeu o país com mais de 50% de pobreza. Medidas econômicas, obras públicas e políticas inclusivas deram início à “Década de ganhos”.

A Argentina assumiu o grande desafio de seguir construindo um modelo regional próprio com soberania alimentar, por exemplo. Enquanto na Europa a crise financeira se escondia sob uma lógica neoliberal que dá inúmeras mostras de fracasso com relação à qualidade de vida da população, na América Latina a soberania política e econômica não é algo que se possa ceder tão facilmente.

Existem mecanismos erroneamente chamados de “integração” decorrentes de blocos econômicos conformados por países com distintas realidades que terminam submetidos a uma única moeda. A Argentina, em contrapartida, trabalha desde 2003 em um modelo diferente, com redução da dívida e aumento da soberania política. “Se trata de novos instrumentos multilaterais regionais que substituam os atuais devido à sua provada ineficiência para resolver os conflitos internacionais”, afirmava a presidenta em 2012.

Qual é a importância da Argentina para o projeto de integração continental?

A Argentina é um dos centros de poder da América do Sul. Néstor Kirchner, em seu mandato, fortaleceu a integração latino-americana e caribenha. Em junho de 2003, o então presidente argentino, viajou ao Brasil em sua primeira visita oficial ao exterior e fortaleceu uma coalizão que começava a surgir com presidentes sul-americanos, que firmaram em Cuba as bases para a criação da Alba (Aliança Bolivariana dos Povos de Nossa América), para contrapor a Alca, em 2004.

A política exterior de Néstor apontou para a independência das nações latino-americanas e caribenhas, mediante a integração e união, frente ao domínio estrangeiro. Sua esposa, e atual presidenta, Cristina Kirchner, se encarregou de continuar esta política exterior e foi a primeira mulher que ousou denunciar na ONU e na Cúpula das Américas toda a ingerência estadunidense nos países da América Latina.

Cristina se somou à batalha política durante as eleições legislativas de outubro de 2005 com uma vantagem de 25 pontos, mediante uma jornada de participação eleitoral de aproximadamente 75% do total de eleitores. A Frente Popular para a Vitória se impôs em 17 das 24 províncias e consolidou sua força no Congresso Nacional. Desta forma, a esposa do ex-presidente assumiu o mais alto cargo da República Argentina.

Entre suas principais obras, se destacam a Asignacón Universal Por Hijo [equivalente ao Bolsa Família no Brasil], a reestatização a previdência social, o programa Conectar com Igualdade [de inclusão digital], aumento do investimento em ciência e tecnologia, a Lei de Serviços de Comunicação Audiovisual [democratização dos meios], Lei do Casamento Igualitário [LGBT], nacionalização da empresa de petróleo (YPF), reforma do Banco Central e criação do Código Civil e Comercial.

Cristina também seguiu o caminho do fortalecimento das relações diplomáticas com a América Latina; em novembro de 2010 a Cepal (Comissão Econômica para América Latina e Caribe) afirmou que a pobreza na Argentina havia reduzido 34.1%, ocupando a posição de segunda mais baixa do continente.

A nação de Evita Perón entrou em um seleto grupo de oito países que construíram ou têm em órbita seu próprio satélite. O Sul tem demonstrado seu potencial em matéria de ciência e tecnologia; em pleno século 21, Venezuela lançou os satélites Simón Bolíviar e Miranda; Bolívia o Tupac Katari e Argentina o Arsat-1.

Fonte: Telesur

Fim do bloqueio contra Cuba, reivindicação dos cinco continentes

O debate de alto nível da Assembleia Geral da ONU reiterou neste ano o rechaço mundial ao bloqueio estadunidense contra Cuba, a poucas semanas da nova votação nesse foro de uma resolução que reivindica sua suspensão.

 

 

Entre os dias 28 de setembro e 3 de outubro, 47 chefes de Estado, de Governo e outros altos funcionários dos cinco continentes defenderam no debate geral o fim do cerco econômico, comercial e financeiro vigente por mais de meio século.

Novamente o tema esteve entre os mais tratados pela comunidade internacional na Assembleia, em um planeta marcado por conflitos, crises e desafios como a mudança climática, a busca da paz e o desenvolvimento sustentável.

Na voz de muitos presidentes ouviram-se em relação ao bloqueio qualificações de anacronismo, injustiça, obstáculo ao desenvolvimento, medida coercitiva unilateral, ato sem sentido e asfixia para o povo cubano.

Os chamados a deter as sanções contra a ilha tiveram lugar a menos de um mês da apresentação ante a Assembleia Geral das Nações Unidas da iniciativa que pede a Washington pôr fim ao castigo, prevista para o dia 27 de outubro.

Trata-se de um texto similar ao que desde 1992 recebe o respaldo majoritário do mundo, com 188 das 193 nações membros da ONU lhe dando seu apoio nos últimos dois anos, com a isolada rejeição dos Estados Unidos e Israel.

Desde a primeira intervenção na plenária do principal órgão deliberativo da ONU, realizada pela presidenta brasileira Dilma Rousseff, até os discursos finais, no sábado, 3 de outubro de 2015, líderes dos cinco continentes pediram a suspensão do bloqueio imposto oficialmente em fevereiro de 1962 pelo então presidente norte-americano John F. Kennedy.

“Nossa região, onde reina a paz e a democracia se alegra da restauração das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos e com esta ação se põe fim a uma política que provém da guerra fria que deve culminar com o fim do bloqueio a Cuba”, afirmou Dilma Rousseff.

Por sua vez, o primeiro-ministro de San Vicente e Granadinas, Ralph Gonsalves, advertiu que “há bem mais por fazer para desencadear o povo cubano das correntes de um bloqueio injusto, ilegal e claramente antiquado”. Também os presidentes da Venezuela, Nicolás Maduro; Equador, Rafael Correa; Panamá, Juan Carlos Varela; Sérvia, Tomislav Nikolic; Moçambique, Jacinto Nyusi; México, Enrique Peña Nieto; Gabão, Ali Bongo Ondimba; Bolívia, Evo Morales; Uruguai, Tabaré Vázquez; e Namíbia, Hage Geingob, entre outros, reivindicaram o fim do cerco.

Por sua vez, no púlpito, a ministra de Estado de Níger, Aichatou Boulama Kané, pediu para aproveitar os 70 anos das Nações Unidas para suspender o bloqueio, enquanto o chefe de Estado sul-africano, Jacob Zuma, alertou que a medida estadunidense limita a liberdade econômica dos habitantes da maior das Antilhas.

Para o líder de Gana, John Dramani Mahama, o cerco que sofre Cuba constitui um “resquício da Guerra Fria” que deve ser eliminado.

Angola, Vietnã, Vanuatu, Laos, Trinidad e Tobago, Guiné Equatorial, Benin, Timor-Leste, Antigua e Barbuda, Lesoto, Camboja, Ilhas Salomão, Barbados, Burquina Faso, Síria, Belize, Jamaica, São Tomé e Príncipe, Congo, Granada, Tuvalu, Santa Luzia, Peru, Guiné-Bissau, Guatemala, Suriname, El Salvador e Dominica somaram-se na Assembleia ao reclame.

O próprio presidente estadunidense, Barack Obama, reconheceu que o bloqueio estabelecido pela Casa Branca não tem cabimento, e pediu novamente ao Congresso norte-americano a lhe pôr fim.

Com a entrada em vigor em 1996 da Lei Helms Burton, a malha de sanções contra a ilha converteu-se em lei, e corresponde ao Capitólio sua total suspensão.

Ao intervir no segmento de alto nível da Assembleia Geral, o chefe de Estado e de Governo de Cuba, Raúl Castro, denunciou a vigência do bloqueio e a necessidade do cessar das injustas e unilaterais sanções.

Além disso, ratificou que Havana continuará promovendo na ONU a votação da resolução que desde 1992 exige o fim do cerco.

“Enquanto persista, continuaremos apresentando o projeto de resolução intitulado Necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba”, sublinhou.

A nova votação gera particulares expectativas, sobretudo pela posição que adotará Washington, depois que Obama pediu várias vezes ao Congresso a eliminação do bloqueio.

Segundo o relatório de Cuba, a propósito do castigo de Washington, considerando a depreciação do dólar frente ao valor do ouro no mercado internacional, o impacto econômico do mesmo ascende a 833.755 bilhões de dólares.

Em relação aos danos humanos, a ilha considera que é impossível quantificar os impactos de uma política que impede o acesso a medicamentos, equipamentos, peças de reposição e tecnologias para salvar a vida de crianças, idosos, mulheres e homens.

O debate geral da Assembleia também ratificou a aprovação da comunidade internacional à aproximação entre Estados Unidos e Cuba.

Aproximadamente 65 governos celebraram a restauração de vínculos diplomáticos e a reabertura de embaixadas, materializadas por Havana e Washington no último dia 20 de julho.

Transbordaram as felicitações aos presidentes Obama e Raúl Castro pelos passos dados e os reconhecimentos ao novo cenário bilateral como um exemplo do valor do diálogo para resolver diferenças.

“Devemos dar as boas-vindas a alguns fatos diplomáticos recentes que proporcionam centelhas de esperança nas relações internacionais. A restauração das relações diplomáticas entre os Estados Unidos e Cuba é, sem dúvida, um grande avanço histórico”, afirmou o presidente haitiano, Michel Martelly.

A presidenta da Libéria, Ellen Johnson Sirleaf, também qualificou de importante acontecimento que ambos países decidissem resolver suas diferenças com a retomada de vínculos.

“Claro que há motivos para a esperança. O acordo nuclear com o Irã e a restauração de relações diplomáticas entre Estados Unidos e Cuba demonstram que situações estagnadas durante demasiado tempo são suscetíveis de solução dada a boa vontade das partes e Espanha os felicita por isso”, disse o chanceler espanhol, José Manuel García Margallo.

A propósito da aproximação, o líder cubano Raúl Castro sublinhou que ocorre depois de 56 anos de heroica e abnegada resistência do povo da ilha.

“Agora se inicia um longo e complexo processo para a normalização das relações, que será alcançado quando se pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro; devolverem a Cuba o território ocupado ilegalmente pela Base Naval de Guantánamo; cessarem as transmissões radiais e televisivas e os programas de subversão e desestabilização contra a ilha, e compensarem nosso povo pelos danos humanos e econômicos que ainda sofre”, sentenciou.

Fonte: Prensa Latina

Pepe Mujica disse que é preciso avançar na unidade e na integração sul-americana como forma de fazer frente ao capitalismo globalizado

“A única luta que se perde é a que se abandona”, diz líder uruguaio, em referência ao momento brasileiro. “Temos de lembrar às futuras gerações que somos responsáveis pelo mundo em que vivemos”

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RICARDO STUCKERT/ INSTITUTO LULA

Dilma cumprimenta Pepe Mujica, convidado especial da abertura do 12º Concut, em São Paulo

São Paulo – Destaque da abertura do congresso da CUT, ontem (13) à noite, em São Paulo, o ex-presidente do Uruguai José Mujica, atual senador, fez referência ao momento difícil vivido pelo Brasil, receitando persistência e unidade. “Eu sei que vocês, brasileiros, estão passando por um momento difícil. Mas durante a minha vida aprendi uma coisa fundamental: a única luta que se perde é a que se abandona.”

Exaltado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e chamado de “dom Pepe” pela presidenta Dilma Rousseff, Mujica disse que é  preciso avançar na unidade e na integração sul-americana como forma de fazer frente ao capitalismo globalizado. Defendeu, inclusive, a criação de universidades integradas como forma de potencializar a produção de inteligência no continente. “Já chegamos tarde à era industrial. Não podemos ficar para trás na era do conhecimento e da informação, que vai definir o futuro”, alertou. “Isso não significa hipotecar a pátria nem perder nossos sentimentos de nacionalidade. mas construir uma casa maior, que possa proteger a todos.”

Segundo ele, é preciso se preocupar com o salário, direitos e democracia, mas também pensar no amanhã. “Temos de lembrar às futuras gerações que somos responsáveis pelo mundo em que vivemos.” Da mesma forma, observou, os jovens de hoje precisam saber o que já aconteceu. “A liberdade é fruto da dor dos lutadores sociais que vieram antes de nós. O que se conquistou não caiu do céu. É fruto do heroísmo de gerações de lutadores sociais que nos precederam.” Por isso, é preciso pelear (lutar) pela democracia, “que está longe de ser perfeita”.

O líder uruguaio criticou a chamada cultura de mercado, que obriga as pessoas a correrem “como loucos”. E disse que os trabalhadores devem lutar por salários melhores, mas não podem se iludir. “A verdadeira pobreza é gastar a vida preocupado em viver acumulando, acumulando, acumulando. É preciso fazer as coisas que você gosta e ama. Se você não conseguir a felicidade com pouco, nunca a conseguirá.”

Mujica defendeu transparência na administração pública e nos balanços das empresas privadas. “O Estado tem de se encarregar de mitigar as desigualdades”, diz Mujica, acrescentando: “Desde sempre, quando você põe a mão no bolso de um poderoso para cobrar impostos, acaba por ganhar um inimigo de classe”.

Ao fazer menção às diferenças jornadas de trabalho em todo mundo, o ex-presidente observou que os analistas econômicos apontam a luta sindical por redução como um fator que afeta a competitividade. “Enquanto houver desigualdade nas jornadas e nos direitos, não há como competir, Então se impõe o desafio de lutar para que haja uma única jornada de trabalho em todo o mundo.”

O ex-presidente diz reconhecer as dificuldades diante de um mundo no qual impera o poder do capital financeiro, mas ressalta que enfrentar essa realidade pressupõe aumentar o potencial da América Latina. “Não estou olhando para o meu mundo, porque tenho 80 anos, estou olhando para os que estão por vir.”

por Redação RBA  

Com informações de Paulo Donizetti de Souza e Vitor Nuzzi

Encontro Latino-Americano Progressista debate os rumos da esquerda

 

Pelo segundo ano consecutivo, entre 28 e 30 de setembro, Quito sediou o Encontro Latino-Americano Progressista (Elap – 2015). Idealizado pelo partido Alianza País, do presidente do Equador, Rafael Correa, o encontro já consta da agenda anual das principais organizações de esquerda e progressistas da América Latina.

Por Ana Maria Prestes Rabelo*, especial para o Vermelho

 

O encontro busca refletir as ações da esquerda latino-americana e apontar os rumos para a continuidade do processo político progressistaO encontro busca refletir as ações da esquerda latino-americana e apontar os rumos para a continuidade do processo político progressista

Assim como no ano passado, o encontro culminou no dia 30 de setembro, data histórica para os equatorianos pela reafirmação da sua estrutura democrática a partir da derrota da tentativa de golpe de Estado por setores policiais e militares que em 2010 chegaram a manter sequestrado por horas o já então presidente Rafael Correa. O “30S”, como dizem os equatorianos, se transformou em uma data de comemorações, especialmente pelos partidários da Revolução Cidadã impulsionada por Correa e todos aqueles que defendem a democracia no Equador.

Nos últimos anos, o governo de Correa conquistou uma liderança no processo de transformações progressistas em curso na América Latina. O chamado para uma “época de mudanças” e o consequente “mudança de época” latino-americano faz parte do vocabulário desta liderança que hoje exerce a presidência pró-tempore da Celac e abriga o edifício sede da Unasul.

Elap 2015

Com a participação de cerca de 60 partidos, frentes e organizações de toda a América Latina, algumas da Europa, além de China e Índia, o encontro foi uma oportunidade de intercâmbio de opiniões e debates dos principais temas em voga na região e no mundo. De todos os painéis e conferências, houve destaque para três momentos. A aula magna do sociólogo e Presidente do Estado Pluri-nacional da Bolívia, Álvaro Garcia Linera, a conferência do Secretário de Relações Internacionais do Partido Comunista de Cuba, o histórico comandante cubano José Ramón Balaguer e o ato de encerramento com o pronunciamento do presidente da República do Equador, Rafael Correa Delgado.

Muito concorrida, a aula magna de Garcia Linera, disponível neste link, começou com um recado para aqueles que ele denominou de “agoureiros funcionais”: “eles devem saber que nossos processos vão continuar”. Ao longo de sua fala discorreu sobre os últimos 15 anos em que várias transformações se deram em diversos países da América Latina. Desqualificou as “democracias fósseis” do norte, como modelos a não serem imitados e apontou para o socialismo como um processo de “radicalização da democracia”. Para tanto, segundo Linera, é preciso conquistar o Estado, transformá-lo e democratizá-lo e é isto que tem sido perseguido por líderes latino-americanos como Hugo Chavez, Cristina Kirchner, Evo Morales, Lula, José Mujica, Rafael Correa, seus partidários e aqueles que os sucederam na direção de seus respectivos Estados. Em todos esses processos a luta de ideias jogou e tem jogado um papel fundamental para que não se perca a bandeira da esperança.

Em sua fala, ao relatar o processo de reaproximação com os Estados Unidos da América, o comandante cubano Balaguer apontou que “o bloqueio está intacto. Estamos em guarda e estamos nos preparando. Contamos com uma cultura da resistência que nos trouxe até aqui”. O bloqueio econômico, que por 24 vezes já foi condenado nas Nações Unidas ainda não terminou, assim como o território de Guantánamo ainda não foi devolvido e continua nas mãos dos EUA. O 2ª Elap foi também uma oportunidade para que a esquerda latino-americana compartilhasse uma vez mais sua solidariedade, agora na presença dos próprios, aos cinco cubanos considerados heróis nacionais, por terem suportado por anos o injusto encarceramento nos EUA.

Ao celebrar o encerramento do encontro, Correa apontou para os avanços da “Revolução Cidadã” e suas últimas conquistas com a “Lei de Herencia y Plusvalia”, seus resultados positivos nas últimas divulgações de percepção sobre a democracia, situação econômica e outros pontos do Latinobarômetro, e apontou para o que considera os erros a serem evitados pela esquerda da região.

O presidente ainda saudou os últimos resultados do Podemos na Espanha, do Syriza na Grécia, a vitória de Jeremy Corbyn para líder do Partido Trabalhista Britânico, sua expectativa para as eleições na República da Argentina no próximo 25 de outubro, os 10 anos da vitória sobre a Alca em Mar del Plata e o avanço da luta contra os crimes Chevron/Texaco no Equador.

Encontro aponta uma plataforma de lutas para o próximo período

Para além de seus pontos altos, o encontro contou ainda com uma dezena de painéis em que se intercalavam para falar parlamentares da região, dirigentes partidários e intelectuais, como Emir Sader, Atílio Borón, Ricardo Foster e outros. Destaque para as parlamentares mulheres como Valeria Silva (MAS-IPSP da Bolívia), Gabriela Rivanedeira (Alianza País do Equador – presidente da Assembleia Nacional) e Blanca Eekhout (PSUV da Venezuela – vice-presidente da Assembleia Nacional). Vozes externas como o Podemos da Espanha, Partido Comunista Marxista da Índia e Partido Comunista da China também tiveram oportunidade de apresentar suas opiniões.

Como se percebe na Declaração Final do encontro, que segue anexa a estas notas, manifestou-se grande preocupação com os processos de desestabilização política no continente. Em especial com Brasil, Venezuela, Equador e El Salvador. Foi também celebrada a mediação da Celac e da Unasul no conflito fronteiriço entre Venezuela e Colômbia, assim como foi o avanço das negociações para a paz entre o governo da Colômbia e das Farc. Destaque para a reaproximação de Cuba e Estados Unidos e reafirmação da luta mundial contra o injusto bloqueio econômico a Cuba. Apoio ao processo constituinte chileno e grande expectativa quanto às eleições presidenciais na Argentina e parlamentares na Venezuela.

Dentro da miríade de temas e assuntos abordados, extraiu-se do Elap 2015 a renovação da solidariedade e da esperança por avanços progressistas que tragam mais justiça, dignidade e prosperidade para os cerca de 600 milhões de habitantes da Pátria Grande, dos quais cerca de 150 milhões ainda se encontram na extrema pobreza.

Leia na íntegra a declaração oficial do 2ª Elap

Declaração final do 2º Encontro Latino-americano Progressista – Elap 2015

Nós, partidos, movimentos, frentes e organizações políticas que participamos do 2º Encontro Latino-americano Progressista Elap 2015 “Democracias em revolução por soberania e justiça social”,
Reunidos em Quito, República do Equador, entre os dias 28 e 30 de setembro de 2015, a cinco anos do dia em que triunfou a democracia no Equador,

Considerando

1 – Que deve ser fortalecido o cumprimento das resoluções estabelecidas na Declaração Latino-americana pela Segunda Emancipação, aprovada no I Encontro Latino-americano Progressista no dia 30 de setembro de 2014 por 35 partidos políticos,
2 – Que, a um ano do 1º Elap, emergiram novos temas, debates e disputas que requerem serem incluídos na presente declaração e demandam resoluções claras pelos partidos, movimentos e frentes que assistem ao 2º Elap,
3 – Que, a América Latina atravessa conjunturas especiais que merecem atenção particular: restabelecimento das relações diplomáticas entre Cuba e Estados Unidos; anúncio da assinatura de acordos de paz entre o Governo Colombiano e as Farc para 2016; eleições gerais na República Argentina; intentos de desestabilização, por várias vias, no Equador, Brasil, El Salvador e Venezuela; véspera de um processo constituinte no Chile e crise política na Guatemala,
4 – Que, mesmo a América Latina tendo deixado de ser uma região periférica no sistema mundial, sua inserção econômica ainda se baseia em uma economia primário exportadora,
5 – Que, mesmo a América Latina, neste “cambio de época”, ter alcançado dramáticas reduções na pobreza e extrema pobreza; maiores níveis de desenvolvimento e de inclusão social; mais participação; assim como consolidação de sua soberania; ainda é a região mais desigual do mundo,
6 – Que, em que pesa a crescente elevação da consciência política e opinião pública em favor de um mundo mais justo e equitativo, a hegemonia do neoliberalismo e seus defensores persiste através de vários métodos aplicados no sistema-mundo e em vários países,

Resolvemos

1 – Continuar fortalecendo o Encontro Latino-americano Progressista com um espaço de debate, reflexão e articulação política e reforçar o cumprimento da Declaração Latino-americana pela Segunda Emancipação nos pontos que correspondam,
2 – Expressar todo nosso respaldo e solidariedade ao governo da Revolução Cidadã, liderado pelo companheiro presidente Rafael Correa, frente a qualquer ator desestabilizador que pretenda, através da violência e de vias antidemocráticas, tomar o poder,
3 – Elevar e fortalecer a discussão em torno da redistribuição da riqueza e da equidade, com o fim de impulsionar iniciativas promotoras de uma maior justiça social para nossos povos,
4 – Aprofundar a participação, a mobilização a favor dos processos progressistas e a formação política de todos os setores da cidadania, para construir uma democracia protagonista nos países da nossa Pátria Grande,
5 – Fortalecer a participação de jovens, mulheres e indígenas nos movimentos e partidos, através de novos espaços articuladores e agendas programáticas a curto e longo prazo,
6 – Impulsionar nos países participantes da Resolução da Década dos afrodescendentes emitida pela Organização das Nações Unidas (ONU), como mecanismo que promova o reconhecimento, desenvolvimento econômico e justiça desde os Estados, afim de desenvolver sociedades mais igualitárias, inclusivas e interculturais,
7 – Respaldar o restabelecimento das relações entre Cuba e Estados Unidos e demandar o encerramento da base de Guantánamo, assim como o fim do bloqueio econômico, financeiro e comercial contra a Ilha,
8 – Reiterar nosso apoio à presidenta do Brasil, Dilma Rousseff; ao presidente da Venezuela, Nicolás Maduro; ao presidente Salvador Sánchez Cerén de El Salvador e ao presidente da Nicarágua, Daniel Ortega, frente a qualquer intento de desestabilização, seja através deimpeachment, guerras econômicas e midiáticas, assim como, mediante a aplicação de medidas unilaterais que violem o direito internacional e os princípios de respeito à soberania como o Decreto executivo de 9 de março de 2015, emitido pelos Estados Unidos da América contra a Venezuela, ou de qualquer outra via ilegítima que pretenda afetar a democracia,
9 – Saudar a iniciativa da presidência pró-tempore da Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), e da presidência pró-tempore da União de Nações Sul-americanas (Unasul), de facilitar o diálogo entre Venezuela e Colômbia para restabelecer a confiança entre ambos governos, nos marcos da proposta de uma nova fronteira de paz, apresentada pelo presidente Nicolás Maduro,
10 – Ratificar a decisão dos povos latino-americanos e caribenhos de declarar nossa região como zona de paz e, nesse sentido, apoiar o diálogo diplomático conforme o direito internacional, entre Venezuela e Guiana, para propiciar uma solução pacífica da controvérsia, conforme o Acordo de Genebra de 1966,
11 – Celebrar o anuncio histórico da assinatura de acordos de paz entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), prevista para, o mais tardar, dia 23 de março de 2016; torcer para que o Exercito de Libertação Nacional (ELN) se una ao caminho de paz; e, acompanhar a construção de uma paz duradoura a favor de todos os colombianos e da Pátria Grande,
12 – Apoiar a Frente para a Vitória da Argentina e sua fórmula presidencial integrada por Daniel Scioli e Carlos Zanini nas próximas eleições, para manter as conquistas e aprofundar os horizontes de mudanças,
13 – Respaldar o processo democrático eleitoral na Nicarágua em 2016, destacando a hegemonia revolucionária da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) com o governo de reconciliação e unidade nacional, sob a condução do Comandante Daniel Ortega, presidente da república centroamericana,
14 – Felicitar a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) por seu primeiro Congresso Nacional, nos marcos de seus 35 anos de luta, o que lhe permitirá seguir aprofundando as mudanças democráticas e alcançar a hegemonia do projeto revolucionário,
15 – Respaldar toda iniciativa que aponte para resolver, mediante o diálogo e o respeito ao direito internacional a demanda da Bolívia de um acesso soberano ao mar,
16 – Saudar a proposta de um processo constituinte no Chile, através do diálogo e da participação de toda a cidadania chilena, inclusive na decisão de um mecanismo para a elaboração da nova Constituição,
17 – Exortar as forças progressistas e de esquerda da Guatemala a disputar e derrotar as forças da direita oligárquica no segundo turno eleitoral do próximo 25 de outubro de 2015,
18 – Apoiar o povo da Bolívia e do Equador no seu processo de debate por ampliar as opções democráticas de eleição,
19 – Insistir na construção de uma agenda renovada progressista e na elaboração de um programa comum latino-americano que impulsione a Celac, a Unasul, a Alba e o Mercosul; e seu diálogo permanente com outros blocos como os BRICS, no benefício de nossos povos,
20 – Alertar sobre as graves implicações, para os países latino-americanos da costa do Pacífico, da negociação secreta e de costas para o povo da assinatura de um tratado trans-pacífico,
21 – Condenar as violações aos direitos humanos, a perseguição política e judicial que se vive em vários países centro-americanos, como em Honduras,
22 – Apoiar o avanço das forças progressistas da região que lutam democraticamente para chegar ao poder nos diferentes estamentos do Estado,
23 – Saudar o avanço das forças progressistas na Costa Rica e nos acordos entre a Frente Ampla e as organizações sociais. Nos solidarizamos ante ao embate conservador contra estes acordos,
24 – Apoiar e incentivar a unidade das esquerdas no Peru com a finalidade de consolidar uma proposta renovada frente às eleições gerais de 2016,
25 – Felicitar a resolução impulsionada pela Argentina na Assembleia Geral da Organização Geral das Nações Unidas (ONU) que busca por freio aos fundos “buitre” e proteger os acordos de reestruturação de dívidas de forma soberana,
26 – Apoiar a luta contra a continuação do regime colonialista sobre Porto Rico e reiterar seu caráter de nação latino-americana e caribenha, reconhecido pelo Comité de Descolonização da ONU, assim como pela Celac,
27 – Apoiar a República Argentina na sua luta por soberania das Ilhas Malvinas e demandar o cumprimento das resoluções da ONU sobre a Questão das Malvinas,
28 – Impulsionar e fomentar os processos de memória, verdade e justiça nos diferentes países da América Latina,
29 –Exigir a aparição com vida dos 43 estudantes de Ayotzinapa do México e um processo judicial profundo e transparente contra os responsáveis. Rechaçamos qualquer forma de impunidade,
30 – Impulsionar a discussão sobre uma nova ordem regional e mundial da comunicação que coloque freio à hegemonia midiática antiprogressista e fomentar a democratização dos meios de comunicação para a emancipação dos nossos povos,
31 – Trabalhar em espaços de encontro e articulação de autoridades locais para o intercâmbio de experiências em matéria de política pública, organização e estratégia política,
32 – Apoiar a luta dos povos europeus que buscam por fim na austeridade, no desemprego, no grande poder da banca financeiras e corporações, nas práticas políticas antidemocráticas e que perseguem a justiça social, a igualdade e o desenvolvimento de seus cidadãos,
33 – Expressar toda nossa solidariedade com os povos em conflito do Sahara Ocidental, Palestina, Yemen e o povo kurdo que lutam por paz e uma saída justa e favorável à sua situação, e exortar a comunidade internacional para que se comprometa a salvaguardar os direitos humanos das vítimas de intervenções internacionais, os desabrigados e refugiados no mundo,
34 – Apoiar a agenda acordada pela ONU pelos 17 objetivos para o desenvolvimento sustentável e pedir a incorporação de mais um em referência ao livre trânsito de pessoas,
35 – Impulsionar a luta contra a contaminação do meio ambiente e acompanhar as ações da comunidade latino-americana e internacional que almejam a proteção do planeta;
36 – Respaldar a elaboração de um instrumento internacional juridicamente vinculante sobre as sociedades transnacionais e outras empresas ou instituições que atentem contra a natureza e os direitos humanos,
Nos marcos destas definições, convocamos todas as forças da esquerda progressista da região e do mundo a sustentar, promover e impulsionar esta Declaração em todas suas demandas; a denunciar decididamente qualquer intenção de desestabilização e violação de nossa soberania e caminhar com força até nossa Segunda Emancipação.

Quito, 30 de setembro de 2015.

*Ana Maria Prestes Rabelo é membro do Comitê Central do PCdoB e representou o partido no Encontro

Cuba sintetiza o anseio de soberania da América Latina

reprodução

A hostilidade econômica e as sabotagens armadas não fizeram os cubanos se curvarem, ou repensarem seu vigor latino-americanista.


 

Darío Pignotti, enviado especial a Havana

 

Quando Francisco, um papa que toma mate e fala sobre o “Che”, visitou Fidel Castro há duas semanas, e conversou com o único líder que protagonizou vários dos momentos mais intensos da região durante a segunda metade do Século XX, a América Latina viveu um desses acontecimentos destinados a entrar para a História. O encontro de Fidel com o papa Jorge Bergoglio, no contexto da reaproximação entre Havana e Washington, foi um episódio comparável com a Cúpula das Américas de 2005, quando Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez e Néstor Kirchner acabaram com a utopia regressiva da ALCA, a proposta de George W. Bush e seus capangas, o mexicano Vicente Fox e o colombiano Álvaro Uribe.

Ambos os acontecimentos indicam o fracasso das políticas hemisféricas da Casa Branca e mostram, na prática, o potencial político de uma região com os anseios se soberania não alcançados. Épica e complexa, a Revolução Cubana pode ser vista por diferentes ângulos, como o da construção de um sistema político original, e imperfeito, baseado no poder popular. Ou desde a perspectiva das mudanças estruturais, como a nacionalização dos bens de produção ou as políticas que garantiram direitos educativos e sanitários para toda a população.

Mas o aspecto mais interessantes para a análise é o de compreender a Revolução a partir de sua identidade nacional e latino-americana.

 

América Latina

Desde os Anos 60, a soberania intransigente da ilha foi castigada pelos Estados Unidos, inclusive antes de o bloqueio ser formalizado, durante o governo de John Kennedy, em 1962.

Um memorando de 1960, desclassificado nos Anos 90, indica a estratégia de atacar a população para minar a adesão ao governo.

“A maioria dos cubanos apoia Castro, não existe oposição política efetiva, a única forma de reunir o apoio necessário é através do desencanto surgido das dificuldades econômicas da população, para conseguir esse objetivo, deve-se usar qualquer meio”, recomenda o texto apresentado por Dwigth Eisenhower.

Desde então, a estratégia de “contenção do comunismo” e a luta dentro das “fronteiras ideológicas”, ditada por Washington contra o hemisfério foi justificada pelo argumento de evitar que surgissem outras Cubas na América Latina. Esse fantasma foi invocado pelos generais que derrubaram João Goulart no Brasil em 1964, e Salvador Allende, em 1973, um ano depois que de Fidel se hospedar no país durante quase um mês.

Cuba, o modelo de socialismo tipicamente latino-americano, como definiu o herói Ramón Labañino Salazar em entrevista à Carta Maior, foi um tema onipresente no debate latino-americano dos Anos 60 e 70.

O pretexto da Guerra Fria e o combate ideológico caíram junto com o Muro de Berlim, em 1989. Mas, em vez disso atenuar o bloqueio, o tornou mais feroz, através das leis Torricelli, de 1992, no governo republicano de George Bush, e a lei Helms Burton, de 1996, promulgada pelo democrata Bill Clinton. A hostilidade norte-americana era uma política de Estado, independente do partido que governava.

Washington e (principalmente) a ultradireita de Miami estavam eufóricos, imaginando que o colapso da Revolução era iminente, assim como a restauração de um regime neocolonial, no mesmo estilo do que imperava durante a ditadura de Fulgêncio Batista, época em que os mafiosos ítalo-americanos controlavam hotéis e cabarés na capital cubana.

Posteriormente, nos Anos 90 os ataques terroristas e a guerra desinformativa, orquestradas na Flórida com o aparato de propaganda centrado no Miami Herald, se fizeram mais agressivas.

Um jornalista desse diário, Andres Hoppenheimer, chegou a publicar, com ar profético, um livro que se transformou em um grande “faz me rir”, devido ao título “A última hora de Castro”. Em setembro deste ano, o mesmo colunista do Herald e da CNN criticou Francisco por ter cumprimentado Fidel.

A hostilidade econômica e as sabotagens armadas não fizeram os cubanos se curvarem, ou repensarem seu vigor latino-americanista.

Em 1990, Fidel e Lula criaram o Foro de São Paulo para rebater os cantos da sereia sobre o fim das ideologias e da esquerda.

Visionário, Fidel Castro foi pessoalmente até o aeroporto da capital cubana, em dezembro de 1994, para receber o então ainda coronel Hugo Chávez, recém saído da prisão após liderar um levante contra o governo neoliberal de Carlos Andrés Pérez, o presidente venezuelano que protagonizou a ofensiva privatizadora em seu país, assim como Fernando Henrique Cardoso no Brasil, Carlos Menem na Argentina e Carlos Salinas no México.

CELAC

Na primeira década do Século XXI, a diplomacia subserviente acabou, graças à guinada dada pelo Mercosul reinventado por Lula e Kirchner, e também pela criação da Unasul. Para os governos progressistas, acabar com o isolamento cubano e revogar a expulsão do país – medida adotada nos Anos 60 – foi uma das prioridades.

Um passo decisivo para isso dado por Lula, em 2008, quando organizou um encontro de presidentes latino-americanos, com a presença de Raúl Castro, numa cúpula na qual foi criada a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (CELAC), uma espécie de OEA, mas sem a presença dos Estados Unidos e do Canadá.

A construção do Porto de Mariel, com financiamento do BNDES e inaugurado em 2014 pela presidenta Dilma, foi outro movimento brasileiro contra o isolamento de Cuba. Certamente, Washington não aprovou a aproximação concreta entre Brasília e Havana.

Um ano depois, Dilma e vários colegas latino-americanos anunciaram que não participariam novamente da Cúpula das Américas se os Estados Unidos deixassem de fora o líder cubano Raúl Castro – encontro que finalmente aconteceu na cúpula de abril deste ano, no Panamá.

Batinas e carros cor-de-rosa

Neste especial da Carta Maior, reunimos artigos sobre Cuba, o acolhimento dado por esse país ao papa, durante uma turnê de 5 dias, cuja repercussão derivarão, possivelmente, em mudanças nos rumos do continente.

Essa seleção de artigos traz crônicas, como a que descreve a luta cotidiana contra o bloqueio contada pelo taxista David Hernández, dono de um Ford Victoria, ano 1953, oito cilindros, pintado de um rosa radical, com o qual nos leva desde o Hotel Nacional até o bairro da Havana Velha.

Também mostramos a entrevista com o ex-agente Ramón Albañino Salazar enviado à Flórida para desarticular os grupos terroristas que atacavam Cuba, preso pelo FBI em 1998, após ser condenado por uma juíza de Miami, ele permaneceu preso durante 16 anos nas cadeias norte-americanas, até ser liberado, no dia 17 de dezembro de 2014, quando Raúl e Obama anunciaram o restabelecimento das relações.

Também publicamos uma análise sobre a terceira viagem de um chefe de Estado do Vaticano em Cuba.

Francisco celebrou uma missa na Praça da Revolução, conversou reservadamente com Raúl e foi até a casa do próprio, defender a ideia de uma “reconciliação” e da “amizade” entre os cubanos.

Bergoglio não repetiu o comportamento de João Paulo II, em 1998, com suas lições incendiárias, resultado de um equívoco essencial.

O papa polaco Karol Wojtyla confundiu Cuba com o leste europeu, e acreditou que a Revolução Cubana poderia implodir no início dos Anos 90 … como aconteceu com a União Soviética e seus países satélites no final os Anos 80.

Tradução: Victor Farinelli

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