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Visita do Papa estanca desestabilização inclusive de Dilma

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 Por FC Leite Filho

A ofensiva midiática para defenestrar os presidentes progressistas da América Latina e promover a volta do neoliberalismo, a qual também inclui o aviltamento do Papa Francisco, sofreu pelo menos quatro reveses esta semana: o esvaziamento da campanha pelo impeachment de Dilma, no Brasil; a consolidação do candidato de Cristina Kirchner como nome favorito a sagrar-se em primeiro turno da eleição de 25 de outubro, na Argentina; o acordo obtido, no Equador, pela Celac e Unasul para que os presidentes da Venezuela e Colômbia superem as tensões na fronteira; e o périplo do Papa, primeiro, em Cuba, onde, ao chegar, mandou um abraço a Fidel Castro, e, depois, nos Estados Unidos, onde foi recebido ao pé do avião por Obama, a esposa Michelle, as duas filhas adolescentes e a mãe de Michelle, Marian Robinson; o vice-presidente Joe Biden, a mulher Jill e duas de suas netas, além de milhares de pessoas que se concentras na Base Aérea de Andrews, próxima a Washington.

Estes episódios são significativos na medida em que repõem a verdade factual e desmontam falácias, que, de tão repetidas, podem, num primeiro momento, impressionar os desavisados. Entre as falsidades mais maciçamente difundidas estão as de que o Brasil virou um caos por ter reelegido Dilma Rousseff, em 2014, razão pela qual a presidenta deveria ser de pronto apeada do poder. Os acontecimentos mais recentes, porém, vieram demonstrar que o governo Dilma não padece de qualquer descalabro e que nenhuma força política mostrou-se capaz de aplicar-lhe o impeachment. Tampouco se abateu sobre o Palácio do Planalto a desestabilização pretendida pelos setores rancorosos da oposição. Dessa forma, a conclusão dos analistas mais criteriosos é de que a presidenta tende a continuar governando, por mais apopléticos que se apresentem seus adversários.

O poder de fogo da mídia, seriamente afetado pela diversidade de vozes propiciada pela internet, foi igualmente incapaz, não obstante toda a sua virulência, de derrubar ou mesmo esvaziar a presidenta argentina. Cristina Kirchner sobreviveu sobranceira e incólume a oito anos de intenso bombardeio, despejado por uma conjugação de forças poderosas que incluem os grupos de comunicação Clarín e La Nación, a Sociedade Rural, os grandes empresários, as multinacionais, parte da Igreja Católica e a embaixada dos Estados Unidos. Foi tal o acerto de sua política de inclusão social e de soberania, que o país vizinho ostenta hoje uma das economias mais sólidas e um processo de desendividamento de fazer inveja a muitas nações europeias. Por causa de sua administração exitosa outros setores, sobretudo na educação, na saúde e na tecnologia, ela desfruta de enorme apoio popular e candidato presidencial de seu partido, o peronista Frente para a Vitória, Daniel Scioli, desponta como franco favorito desde que foi lançado há cerca de três meses.
Outro golpe duro na estratégia para reavivar o neoliberalismo foi a tentativa de promover uma guerra entre a Colômbia e a Venezuela, como forma de justificar uma intervenção estrangeira e depor o governo bolivariano de Nicolás Maduro. Mais uma vez intervieram a CELAC (Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos) Unasul (União das Nações Sulamericanas), as quais, ao contrário da OEA (Organização dos Estados Americanos) não têm sede em Washington nem os Estados Unidos como membro, e levaram os presidentes Maduro e Juan Manuel Santos a um entendimento para encaminhar a questão fronteiriça dos dois países, que vinha minando a economia e a estabilidade venezuelana, pela atuação de contrabandistas, paramiltares e mafiosos.

Finalmente, a mensagem renovadora e humana do Papa Francisco teve um eco estupendo, em sua primeira passagem por Cuba, quando falou ao povo e aos dirigentes da ilha revolucionária, ainda firmemente governada por Raul Castro, sob o signo do comandante revolucionário Fidel. Francisco não só insistiu como aprofundou sua pregação em defesa dos menos favorecidos. Ela ali alcançou seu grande momento, desde a ascensão de Jorge Mario Bergoglio ao Vaticano, em 2013. O Papa que agora já se encontra em terra estadunidense, onde foi calorosamente recebido por uma massa humana e as famílias do presidente Barak Obama e do vice-presidente Joe Biden. Lá, passará seis longos dias, durante os quais, além de oficiar missas para o grande público, falará ao Congresso Americano, em Washington, à Assembleia da ONU, e finalizará com uma peregrinação a Pensilvânia, a cidade onde foi proclamada a independência das então 13 colônias americanas da Inglaterra. Será que apesar de toda essa recepção na grande potência capitalista, os semeadores do ódio encontrarão terreno fértil para continuar chamando Francisco de Papa Comunista ou Papa Bolivariano e pregando a ruptura da ordem constitucional para depor presidentes progressistas latino-americanos democraticamente eleitos?

‘O Papa é um revolucionário’

Quem afirma é o Capitão Monteagudo Arteaga, que lutou junto com Che Guevara, e hoje fala sobre seus anos na guerrilha e sobre seu respeito por Francisco

Darío Pignotti, enviado especial a Havana

Ismael Francisco / CUbadebate

“Combati ao lado do Che, há muitos anos atrás, e agora estou falando contigo aqui, onde você me está vendo, na missa deste papa revolucionário”.

Estamos na Praça da Revolução junto com o ex-combatente Luis Monteagudo Arteaga enquanto Francisco celebra sua primeira missa em Cuba, diante de milhares de fiéis, numa manhã piedosa, porque o sol agrediu menos que nos dias anteriores, quando a temperatura chegou aos 36 graus.

São 8h54 horas. Bergoglio começou a realizar seu ofício religioso, seis minutos antes do horário previsto no programa oficial, repetindo a pontualidade jesuíta do sábado, quando o avião que o trouxe de Roma aterrizou dez minutos antes do que foi estabelecido. E concluiu a missa antes das 11h, pedindo aos cubanos “rezem por mim”, também mais cedo do que o esperado.

Talvez o papa tenha agilizado a missa, para terminá-la a tempo de cumprir com uma agenda carregada de compromissos, entre eles o encontro que com o comandante Fidel Castro, o presidente Raúl Castro e a mandatária argentina Cristina Fernández de Kirchner.

“O Papa e o comandante Castro se entenderam bem, falando o mesmo idioma” disse o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, para um enxame de repórteres que o rodeavam. Lombardi é um padre jesuíta, a mesma ordem à qual pertence o sumo pontífice Jorge Mario Bergoglio.

Durante os 40 minutos do encontro com Fidel, o papa lhe presenteou com livros e CDs sobre o padre Armando Llorente, que foi professor de Fidel quando ele era aluno de uma escola jesuíta em Havana.

Por sua parte, Fidel entregou ao sacerdote argentino o livro “Fidel e a Religião”, de Frei Betto, uma obra de referência, pois aprofundou o diálogo entre a Revolução e os católicos da Teologia da Libertação.

O combatente internacionalista

Voltemos à Revolução. Ou melhor, à Praça da Revolução.

Retomemos a entrevista concedida hoje por Luis Monteagudo Arteaga, capitão retirado das Forças Armadas Revolucionárias, o exército regular de Cuba, que falou exclusivamente com Carta Maior.

Este homem de quase 80 anos, delgado e vital como um junco, é um dos últimos companheiros de Guevara que ainda está com vida.

“Depois de lutar com o Che na Sierra Maestra, em 1958, me chamaram para ir com ele numa missão secreta no Congo. Me escolheram porque eu era militar, era jovem e era negro, e podia entrar dissimuladamente na África”.

“Aceitei ir ao Congo como voluntário, a gente não sabia se ia voltar, ninguém da minha família soube que eu fui. Mantive isso em segredo durante vinte anos”.

O relato do capitão Monteaguro Arteaga é interrompido, vez ou outra, pelos cânticos dos fiéis que participam da missa.

“O Che nunca nos falou de religião. Eu não tenho religião e estou vendo este papa fazendo missa na frente da figura do Che. Me vem à cabeça que o Che está se identificando com este papa. Para mim, ele é um comunista, porque é como Cristo, e Cristo foi o primeiro comunista que existiu na terra”.

“Os anos passaram, já não sou um jovem atirador que lutava com o Che Guevara. Minha memória às vezes me trai. Não recordo tudo com claridade. O que tenho bem claro em minha memória é que o Che era um combatente que não se alterava diante do perigo, era muito arrojado, e isso transmitia uma força de espírito a todos nós”.

“E sempre levo comigo as palavras do Che nas Nações Unidas, quando disse ‘me sinto tão revolucionário como o primeiro revolucionário, tão latino-americano quanto o primeiro latino-americano, e estou disposto a dar minha vida por qualquer país do nosso continente´”.

Católicos e não católicos

A praça está lotada, havia cubanos de Havana e outros vindos do interior do país. Havia também fiéis que chegaram de outros países, a maioria hispanoparlantes e com sotaque centro-americano ou do Caribe. Vários cardeais estão presentes, dos Estados Unidos, da América Latina e da Espanha.

São 11h em Havana. A multidão começa a se desconcentrar ordenadamente. São milhares, mas é possível que não chegue ao meio milhão de pessoas que alguns meios internacionais noticiaram.

Uma parte do público seguia os rituais da missa de perto, outros observavam com respeito, provavelmente por pertencer a outras religiões, ou por não seguir nenhuma: menos de 30 % dos 11,5 milhões de cubanos são católicos.

A cerimônia de Francisco não se referiu a temas políticos, o bloqueio norte-americano, nem mesmo a recomposição das relações entre Cuba e os Estados Unidos, situação com a qual ele contribuiu, com seus bons ofícios diplomáticos.

“Nós gostamos de escutar o papa, porque as coisas que ele diz são universais” comentam duas senhoras que se apresentam como “não católicas”.

As duas mulheres estão próximas à Ponchera los Paraguitas, uma borracharia, na Avenida Salvador Allende, a cinco quadras da Praça da Revolução e a poucos metros de um cartaz de mais de 10 metros, com o lema “Bloqueio, o genocídio mais longo da história”. Um lema que se repete em outros cartazes disseminados por vários pontos da cidade.

Tradução: Victor Farinelli

#Francisco com Fidel e Che Guevara

A missa na Praça da Revolução, sob a imagem de Che, e o encontro com Fidel são gestos históricos de uma viagem com repercussão diplomática extraordinária.


Ismael Francisco / Cuba Debate

Sob o olhar do retrato do Che Guevara, em plena Praça da Revolução, o papa Francisco celebrou hoje uma missa que provavelmente estampará as capas da maioria dos jornais do mundo nesta segunda-feira (21/9).

Mais que isso: após concluído o evento litúrgico, o sumo pontífice foi recebido pelo comandante Fidel Castro, que lhe entregou uma edição do livro “Fidel e a Religião” escrito em 1985 por Frei Betto, um obséquio que resume a história da aproximação entre a Revolução Cubana e o cristianismo progressista.

Uma jornada que confirma a vitalidade renovada da Teologia da Libertação, vertente a qual Francisco abriu os braços, como demonstrou quando recebeu no Vaticano a figuras como o próprio Frei Betto e o padre peruano Gutiérrez, duas importantes referências dessa corrente de pensamento.

Na noite de sábado, ao falar com os jornalistas em Havana, Frei Betto afirmou que o encontro entre o cristianismo e o marxismo é uma síntese virtuosa, indispensável para a compreensão do mundo atual.

“Não se pode interpretar a sociedade e seus conflitos sem utilizar a luta de classes como um dos instrumento da análise”, sustentou Betto.

Ao mesmo tempo, o frade dominicano disse que o Estado não pode ser ateu, que deve ser laico, mantendo uma interface criativa com as religiões, entre elas a católica.

O fato de que Fidel Castro tenha entregado a Francisco um exemplar de “Fidel e a Religião” indica o fim de várias décadas de ostracismo da Teologia da Libertação dentro da Igreja Católica – esta linha filosófica religiosa, essencialmente latino-americana, sofreu a indiferença e a hostilidade dos papas João Paulo II e Bento XVI.

O sermão na Praça da Revolução e a conversa com Fidel serão as notícias mais importantes desta semana, e certamente ficarão registradas nos livros de história como dois fatos marcantes para o rumo que a América Latina deve tomar na segunda década do Século XXI.

A Missa

Às 8h52 horas (uma hora depois, pelo horário brasileiro), oito minutos antes do previsto pelo programa oficial, Francisco começou a celebrar a cerimônia, diante de milhares de fiéis – um público talvez menos numeroso do que o esperado, mas que havia começado a chegar desde as 5h, com suas bandeiras de Cuba e do Vaticano.

Durante a missa, o papa afirmou que “o povo cubano tem feridas, como todo povo, mas sabe estar com os braços abertos, e marchar com a esperança, porque a grandeza de espírito é sua vocação”.

O sumo pontífice argentino fez um chamado aos cristãos, para que vivam respeitando os preceitos bíblicos e que cuidem e sirvam ao próximo, especialmente os mais frágeis e necessitados. “Quem não vive para servir, não serve para viver”, disse o chefe da Igreja Católica.

Ademais, instou os fiéis a que não se deixem levar por “projetos que podem ser sedutores, mas que não representam o rosto de quem está ao seu lado”.

Diplomacia de símbolos

Cubanos, norte-americanos e observadores em geral compartilham a mesma opinião a respeito de Francisco: o papa conhece a arte da diplomacia, e a exerce através de conversas secretas, combinadas com os grandes gestos simbólicos.

“O papa tem feito muito a favor da aproximação entre Cuba e os Estados Unidos, demostrou ser um homem que sabe atuar com habilidade e discrição” comentou Frei Betto, no sábado.

O sermão de hoje foi um evento monumental, perante a sociedade cubana, a opinião pública internacional e o governo dos Estados Unidos.

É pertinente ver os movimentos do Papa como degraus que levam a um caminho lógico: esta missa na Praça da Revolução é o primeiro grande momento de uma viagem que continuará na Filadélfia e Nova York, durante esta semana.

Alguns comentaristas de jornais conservadores europeus destacaram que o pontífice não fez nenhuma menção ao bloqueio norte-americano que asfixia a ilha há mais de meio século.

Uma leitura menos ideologizada do que foi dito hoje por Bergoglio indica que falar explicitamente do bloqueio era desnecessário – ou mesmo a respeito do descongelamento das relações entre Havana e Washington e a ocupação norte-americana em Guantánamo.

Nas palavras do papa, neste domingo, predominaram as referências pastorais dirigidas a um público diversificado como é o cubano, onde os católicos são uma minoria que não chega a 30% da população.

Colômbia e Miami

Há meses, Havana vem sendo a sede dos diálogos de paz entre os rebeldes das Forças Revolucionárias Armadas da Colômbia (as FARC) e o governo desse país.

Antes da chegada de Francisco, no sábado, se especulou sobre uma possível reunião com os delegados colombianos, o que foi descartado pelas fontes do Vaticano.

Ainda assim, o tema foi abordado na missa de hoje.

Durante o Angelus, o papa Jorge Mario Bergoglio afirmou que não pode haver “outro fracasso” nas negociações para levar ao fim da guerra civil colombiana, a mais prolongada da América Latina.

Francisco disse que o país caribenho é “consciente da importância crucial do momento presente” e apoiou “todos os esforços, inclusive os feitos nesta bela ilha, para uma definitiva reconciliação” entre as partes em conflito.

Não houve, no discurso papal, referências diretas aos dissidentes cubanos nos Estados Unidos, especialmente os de Miami, os que militam contra a Revolução há meio século e são os principais defensores do bloqueio.

Essa omissão representa uma derrota política para essas agrupações dirigidas por lideres extremistas, alguns dos quais realizam greve de fome, em protesto contra a viagem do chefe de Estado do Vaticano à ilha.

Tradução: Victor Farinelli

Carta Maior

Papa Francisco chega a Cuba para visita histórica de quatro dias

19 de setembro de 2015

O papa Francisco chegou na tarde deste sábado (19) a Cuba, primeira etapa de uma viagem que o levará também aos Estados Unidos, os dois países que contaram com seu apoio para restabelecerem relações diplomáticas.

Amauris Betancourt/AIN

O papa-móvel cubano está pronto para transportar FranciscoO papa-móvel cubano está pronto para transportar Francisco

O Airbus A330 da Alitalia transportando o papa aterrisou poucos minutos antes das 16 horas locais (17 horas, no horário de Brasília) no Aeroporto José Martí de La Habana, onde era aguardado pelo presidente cubano, Raúl Castro, e pelo cardeal Jaime Ortega, maior representante da Igreja Católica na ilha.

Além de reuniões protocolares, ele irá à Praça da Revolução, em Havana, ao Congresso dos Estados Unidos, em Washington, e à ONU, em Nova York.

O papa argentino, de 78 anos, terá uma agenda complexa: pronunciará 26 discursos, dos quais oito em Cuba e 18 nos Estados Unidos.

Até terça-feira (22), o papa estará em Cuba, com passagens por Havana, Holguin e Santiago, para encontros com jovens, famílias, bispos e, provavelmente, o líder histórico da Revolução, Fidel Castro.

Tripulação curte a presença do papa Francisco na cabine do Airbus A-330 que o levou a Havana, Cuba

Do Portal Vermelho, com informações da Agência Brasil

Bloqueio contra Cuba: guerra diária contra a população civil

18/09/2015 

Apesar dos progressos alcançados no plano diplomático com o restabelecimento das relações com os EUA, a hostilidade no campo do comércio ainda vigora.


LaughingRaven / Pixabay

O milagre cubano, sem a ajuda de deus: viver sob bloqueio econômico durante mais de meio século e manter a revolução de pé é uma façanha inquestionável. Faltando menos de 24 horas para a chegada do papa Francisco a Cuba, não pode haver outro assunto no país que não seja a visita do pontífice argentino, sua colaboração para o restabelecimento do diálogo com os Estados Unidos, a expectativa sobre o seu discurso e o que ele dirá sobre o bloqueio.

Os postes das principais avenidas e alguns edifícios públicos estão decorados com faixas amarelas e brancas, as cores da bandeira do Vaticano, que também se reproduzem nas lonas que cobrem o tablado montado na Praça da Revolução, onde Francisco celebrará a missa de domingo, abençoado pela famosa imagem de seu compatriota, Ernesto Che Guevara.

O chanceler Bruno Rodríguez declarou que seu governo aguarda com atenção esse discurso, no qual realmente se espera que o papa fale a respeito do bloqueio. “Escutaremos tudo o que ele tem que dizer, com profundo respeito, sabendo que o Santo Padre tem uma extraordinária autoridade, não só religiosa, mas também ética, e uma influência a escala mundial”.

Apesar dos progressos alcançados no plano diplomático, com o restabelecimento das relações com os Estados Unidos, a hostilidade no campo das relações comerciais continua de pé, afirmou Rodríguez, em entrevista para os correspondentes estrangeiros.

“Nos últimos anos, inclusive durante o período de diálogo e de conversas confidenciais com o governo dos Estados Unidos – ocorridas nos anos de 2014 e 2015 – o bloqueio continuou se fortalecendo, com um claro e crescente caráter extraterritorial, em particular no âmbito financeiro”.

O governo de Cuba, segundo o seu chanceler, valoriza e reconhece a atitude positiva do presidente Barack Obama, ao se abrir a uma recomposição das relações diplomáticas, mas agrega que isso não acabou com o acosso representado por uma “violação massiva, flagrante e sistemática dos direitos dos cubanos”.

Citou como exemplos as travas financeiras que impedem Cuba de comprar medicamentos oncológicos, o que afeta a um grande número de pacientes – inclusive empresas brasileiras, que exportam produtos com insumos norte-americanos, e que deixaram de vender para a ilha, explicou Rodríguez.

Traduzindo a valores atuais, pode-se dizer que o bloqueio causou um impacto estimado de 121 bilhões de dólares.

Cuba denunciará novamente o bloqueio no final deste mês, durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, onde insistirá em que esta guerra econômica continua sendo o maior obstáculo para normalizar as relações de forma definitiva, apesar da reabertura das embaixadas em Washington e em Havana, que ocorreram em julho, com a presença do secretário de Estado John Kerry.

Ao comentar o informe “Cuba contra o bloqueio”, que será a base da proposta de resolução que Cuba levará às Nações Unidas, o chanceler confirmou que haverá uma menção sobre a nova conjuntura e o vínculo com a Casa Branca, e que Obama conta com atribuições constitucionais que lhe permitiriam atuar para mitigar a guerra comercial e financeira.

O bloqueio no “meu carro cor-de-rosa”

David Hernández é um jovem taxista, tem menos de 40 anos e me espera na parada em frente ao Hotel Nacional, ao dado do mítico Malecón de Havana.

Começou a chover, Hernández fechou o teto conversível de lona branca, antes de iniciar a viagem em direção ao bairro da Havana Velha, em seu Ford Victoria 1953 – “V8, oito cilindros, meu compadre” – pintado de um furioso tom rosado. “A pintura é novinha, eu coloquei há dois anos, o carro é velho mas continua aguentando, o único problema desses carros é que consomem muito combustível, são carros norte-americanos, eles fazem os carros para consumir combustível porque lá eles têm de sobra, mas aqui nos falta”.

David, como bom cubano, esbanja senso de humor: “espero que este papa nos ajude a derrubar o bloqueio, meu carro é mais velho que o bloqueio, mas não sei quanto tempo mais vai aguentar, já está velhinho, e as ruas estão cheias de buracos”.

O mundo está com os olhos sobre Cuba: mil jornalistas estrangeiros solicitaram credenciamento aos dois ministérios de relações exteriores, para acompanhar a visita do Papa, segundo informou o chefe de imprensa do organismo cubano, Alejandro González.

“Nós gostamos de falar com a imprensa, porque queremos que as pessoas de fora de Cuba saibam que aqui nós estamos lutando, todos os dias, esperando que as coisas melhorem, que haja mais prosperidade, e temos fé em que este Papa nos trará uma boa mensagem. Veja, eu disse que tenho fé, mas não sou religioso, sou ateu, mas tenho meu próprio deus” conta David, que me deixa na esquina da estreita e bonita Rua Campanilla, um local que preserva a arquitetura colonial, onde ele se despede com um cordial “quando quiser, conta com a minha ajuda”.

Raúl, Fidel e Malcolm X em Nova York

O chanceler Rodríguez anunciou a viagem do presidente Raúl Castro à Assembleia Geral das Nações Unidas, no que será sua primeira visita aos Estados Unidos desde 1959, quando integrou a comitiva encabeçada por Fidel Castro, poucos meses depois do triunfo da Revolução.

Raúl fará seu discurso na sede da entidade, em um dia em que, provavelmente, Francisco e Barack Obama estarão presentes.

O fato do trio Raúl, Francisco e Obama comparecerem em um mesmo evento, no edifício sede da ONU, despertou uma série de especulações entre os jornalistas que já estão trabalhando na sala de imprensa do Hotel Nacional, decorado com imagens de Che e Fidel durante seus anos de combatentes em Sierra Maestra.

Alguns colegas comentaram, entre tantas dessas especulações, que poderia haver um encontro entre os três, o que seria, certamente “a foto do ano”. Por enquanto, a única certeza é que o chefe de Estado cubano viajará aos Estados Unidos avivado por um clima de aproximação que ontem foi celebrado pelo chanceler, quando conversou com os correspondentes estrangeiros.

Os acontecimentos que nos esperam em Nova York serão reflexo das movidas diplomáticas discretas que sucedem estes dias em Cuba, no Vaticano e nos Estados Unidos. Contatos que devem se intensificar a partir do sábado quando o Papa desembarca no aeroporto internacional José Martí. Sabe-se que o atual sumo pontífice é um “animal político”, habituado à negociação cara a cara, um estilo muito pessoal que ele consolidou no ano passado, durante seus encontros privados que manteve com Raúl e com Obama, separadamente, na Santa Sé.

Mas independente do novo encontro entre Raúl e Obama, reeditando o ocorrido em abril, na Cúpula das Américas do Panamá, a visita do mandatário cubano a Nova York traz à memória outras viagens legendárias.

Como aquela de Fidel Castro, há mais de meio século, quando se alojou em um modesto hotel do Harlem, logo após abandonar outro, onde o proprietário temia que sua imagem fosse contaminada pela reputação de “comunista”. Depois do incidente, Fidel e sua comitiva foram grandiosamente acolhidos pela comunidade do bairro negro da cidade, e foram os próprios vizinhos os que estabeleceram um cordão de segurança em torno do hotel, onde o líder da Revolução foi visitado pelo presidente soviético Nikita Kruschev, o mandatário egípcio Nasser e por Malcolm X, o líder dos “Panteras Negras”. Fidel literalmente revolucionou os novaiorquinos, fascinados com o guerrilheiro que havia derrubado a ditadura de Fulgêncio Batista, figura sobre a qual pairava mil perguntas na época. Uma delas era justamente se Fidel era mesmo comunista.

Quem respondeu a pergunta foi o próprio Kruschev, dizendo que conversou com Fidel e quis saber se ele era comunista, e que ele teria respondido: “o que sei é que sou fidelista”.

Tradução: Victor Farinelli

Carta Maior

Cuba + Papa Francisco

Cuba solidaria recibe al Papa Francisco 1

Cuba solidaria recibe al Papa Francisco 2

Por: Aucalatinoamericano

Profecia tropical: Em 1998, Francisco escreveu livro sobre Fidel

17/09/2015 

O livro ‘Diálogo entre João Paulo II e Fidel’ foi escrito em 1998 pelo atual papa. Obra profética. O estudo confirma o interesse de Bergoglio pela ilha.


Dario Pignotti, enviado de Carta Maior em Havana

reprodução

“Bem-vindo a Cuba, Papa Francisco” dizem os cartazes que recebem os turistas recém-chegados ao aeroporto José Martí. Os mesmos cartazes que se repetem em alguns balcões da Havana Velha, onde o rosto sorridente do sumo pontífice Jorge Mario Bergoglio se confunde com os branquíssimos lençóis que se secam ao sol.

Nesta quinta, enquanto arquitetos e artesão davam os últimos retoques na restauração da catedral, na Itália, a milhares de quilômetros da capital cubana, foi lançada uma nova edição do livro “Diálogos entre João Paulo II e Fidel”, escrito em 1998 pelo então arcebispo de Buenos Aires Jorge Bergoglio, quando ninguém, nem sequer ele mesmo, imaginava que algum dia seria o chefe da Igreja Católica, e tampouco que ele viajaria a Cuba em setembro de 2015. Será recebido neste domingo pelo presidente Raúl Castro, e, possivelmente pelo próprio Fidel, no sábado.

O livro que foi relançado esta semana em Roma tem um teor quase profético, escrito como se fosse um apanhado de “notícias do futuro”, segundo comenta o professor Fernando Lucero Schmidt, que escreveu o prefácio da obra, e que trabalhou com Bergoglio na década de 90.

Na primeira edição, lançada na Argentina em 1998, a capa mostrava um Fidel saudável, de paletó e gravata, cumprimentando o envelhecido porém obstinado Karol Wojtyla. A foto é da época em que o papa polonês já sofria do mal de Parkinson – cujos primeiros sintomas apareceram em 1992, durante a cerimônia de beatificação do espanhol José María Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei e apoiador da ditadura de Francisco Franco – mas ainda assim continuava viajando por diversos países.

O Opus Dei é um grupo católico ultradireitista, ao qual pertencem vários padres de Miami e seus seguidores, que defendem o bloqueio norte-americano, militam na contrarrevolução e repudiam a visita do papa argentino a Cuba.

Foi desse mesmo Opus Dei “verminoso”, batizado como “o Exército de João Paulo II”, que nasceram centenas de quadros políticos que se apoiaram e trabalharam para as ditaduras sul-americanas dos Anos 70 e 80.

Na nova edição de “Diálogos entre João Paulo II e Fidel”, que acaba de ser apresentada na Europa, já não aparece na capa a imagem do sumo pontífice falecido em 2005, mas sim a do primeiro papa latino-americano.

Como se sabe, os tempos da Igreja marcham no ritmo dos milênios, com uma cadência muito diferente daquela da vida cotidiana, onde as mudanças ocorrem como um turbilhão.

A visita de Karol Wojtyla marcou de forma profunda as relações entre o Vaticano e Havana. A ilha havia reformado sua constituição alguns anos antes, e alterado especialmente os pontos relativos à religião.

O papa polaco foi um missionário anticomunista, aterrizou em Cuba tardiamente, depois de visitar praticamente todos os países da América Latina, entre eles o Chile, do ditador e terrorista de Estado Augusto Pinochet, em 1987.

Ainda assim, Fidel recebeu o ex-arcebispo de Cracóvia de braços abertos, e aplaudiu o discurso realizado por ele na Universidade Havana.

Bem antes de sua viagem ao Vaticano, ocorrida em 1996, o comandante havia decidido conhecer mais profundamente o catolicismo, como foi relatado pelo livro de Frei Betto, “Fidel e a Revolução”, de 1985. O texto conta a abertura de Fidel e do socialismo existente em Cuba, onde se estabelece um diálogo importante com a Teologia da Libertação. Enquanto os intelectuais cubanos começaram a dialogar com o cristianismo surgido do Concílio Vaticano II, as conferências episcopais latino-americanas de Medellín (1968) e Puebla (1979), se aproximaram do arsenal teórico surgido do marxismo.

Contudo, esses avanços nas décadas de 60 e 70 sofreram uma derrota importante a partir da chegada de João Paulo II à Santa Sé, em 1978, um religioso que ficou conhecido por ter varrido os bispos e arcebispos progressistas das principais dioceses e arquidioceses do continente.

Nada é casual

“As relações entre Cuba e o Vaticano é um dos temas que interessam a Bergoglio há décadas, porque são um desafio para uma Igreja com espírito de diálogo,” aponta Francesca Ambrogetti, a biografa do Papa.

O caminho do reencontro entre ambos foi “muito delicado, rico em matizes, algo que sempre despertou o interesse de Bergoglio, que viu na visita de João Paulo II, em 1998, um sinal importante. Compreendeu que aquela visita era histórica, talvez porque era o encontro de duas pessoas diferentes, com interesse em dialogar”.

“É importante destacar que Bergoglio sempre foi um religioso de pensamento próprio, sempre escreveu ensaios, organizou debates, existem trabalhos interessantíssimos feitos por ele em 1975, sobre a importância de compreender a diversidade”, comenta a escritora italiana, entrevistada pela Carta Maior.

Nos 17 anos que se passaram desde a publicação da primeira edição do livro houve mudanças na ordem internacional, favorecendo a multipolaridade, e entre essas mudanças, duas eleições papais. Na de 2005, o escolhido foi o alemão Joseph Ratzinger, cuja visita a Cuba, em 2012, não deixou nada importante. Na de 2013, quando foi eleito Jorge Bergoglio, o papa vindo “do fim do mundo”, como ele mesmo disse para uma multidão na Praça São Pedro, ao lado do cardeal brasileiro Cláudio Hummes.

Sem dúvidas, a reedição do livro, nas vésperas de sua viagem a Havana não é uma casualidade, pelo contrário, é um fato carregado de simbologia. Significa que este chefe de Estado do Vaticano, o primeiro da América Latina, refletiu sobre a ilha revolucionária com mais profundidade e dedicação que os seus antecessores eurocentristas.

E mostra ao mesmo tempo uma série de indícios de mudanças e de continuidade.

Sinais de mudanças, porque Bergoglio não se parece em (quase) nada com Wojtyla. Está livre da contaminação da “guerra de fronteiras ideológicas contra o comunismo” da qual o Vaticano foi aliado (e cúmplice) de Washington.

Francisco não será acolhido como um sócio de Washington, mas sim como alguém que deu “apoio ao diálogo entre os governos de Cuba e dos Estados Unidos” afirmou ontem o chanceler cubano Bruno Rodríguez, em coletiva para a imprensa internacional.

Esta viagem “será um acontecimento transcendental, pois as posições (de Francisco) suscitam admiração na América Latina e surgem em um contexto internacional hemisférico muito particular” afirmou o ministro de relações exteriores.

Além disso, em termos confessionais, este papa demostrou ser capaz de recuperar parte do legado da Teologia da Libertação combatida por Wojtyla e Ratzinger. Meses antes, ele recebeu no Vaticano o padre peruano Gustavo Gutiérrez, mentor dessa corrente de pensamento que ainda sobrevive nas comunidades eclesiásticas de base.

Porém, ao mesmo tempo, Francisco encarna uma forma de continuidade. Sua chegada à ilha invencível, esta semana, retoma agenda de João Paulo II, em sua preocupação por injetar vitalidade ao catolicismo numa cultura religiosa com importante influência dos cultos africanos.

Também há de se considerar a prioridade dada ao continente latino-americano, onde os neopentecostais, abençoados pela geopolítica da fé estadunidense, ganham mais território a cada dia, algo que se observa com preocupação na América Central, a poucas milhas marinhas de Cuba.

Se a viagem papal de 1998 inspirou o ensaio de Bergoglio, esta viagem possivelmente será motivo de outros livros, que serão escritos a partir da perspectiva dos longos tempos históricos, os tempos da relação entre a Igreja e o marxismo, os tempos da relação entre a conquista e o Novo Mundo. Neste domingo, quando o jesuíta Francisco ingresse à catedral havanera, uma verdadeira joia barroca, se reencontrará com uma obra que começou a ser construída em meados do Século XVIII, por seus irmãos da Ordem de São Ignácio de Loyola.

Tradução: Victor Farinelli

Carta Maior em Havana

Francisco falará ao mundo de Cuba e da ONU

Em quase todos os seus pronunciamentos, o papa Francisco criticou a globalização que produz miséria e aprofunda as desigualdades.


Leneide Duarte Plon*, de Paris

Roberto Stuckert Filho/PR

O papa Francisco vai recomeçar sua peregrinação pelo mundo. Este mês ele visita Cuba (de 19 a 22 de setembro) e depois parte para Nova York para a Assembleia Geral da ONU (de 22 a 28 de setembro), levando a mensagem de um chefe de Estado, o Vaticano, mas também de chefe da Igreja católica, que congrega mais de um bilhão e duzentos milhões de pessoas no mundo. Considerado pelo diretor de redação do jornal Libération, Laurent Joffrin, como « o chefe de Estado mais à esquerda de todo o planeta », o papa surpreende a cada nova fala ou entrevista.

A chegada aos Estados Unidos procedente de Cuba é por si só um acontecimento político, que se insere na nova fase de degelo das relações cubano-americanas. Não se deve esquecer que o Vaticano foi um importante intermediário nas negociações de aproximação entre Washington e Havana.

Na capital americana, Francisco será o primeiro papa a falar no Congresso Americano. Esse discurso é muito aguardado por analistas politicos pois as posições « esquerdistas » do ex-cardeal Jorge Bergoglio têm irritado profundamente a direita republicana dos EUA. No memorial onde ficavam as torres gêmeas que desabaram no 11 de setembro, o papa terá um encontro interreligioso sumamente importante no qual denunciará o uso de Deus para a violência e as guerras.

Em Lampeduza, apelo pelos refugiados

Francisco deu a primeira prova de que estava sintonizado com seu tempo e com a mensagem do Evangelho, que prega o amor ao próximo, ao escolher como destino da primeira viagem de seu pontificado a Ilha italiana de Lampeduza. Essa ilha atraía a atenção mundial naquele mês de julho de 2013 pelo grande afluxo de imigrantes vindos da África e do Oriente Médio em embarcações precárias. Muitos já haviam perecido no Mediterrâneo, que se tornou um grande  cemitério para os que fugiam às guerras ou à fome tentando alcançar a costa da Sicília ou de Lampeduza para entrar na Europa.

Na ocasião, o papa jogou ao mar uma coroa de flores lembrando os migrantes mortos naquele que os antigos chamavam Mare Nostrum. Em seguida falou da responsabilidade de todos « pela vida dos mortos no mar, nesses barcos que em vez de ser um caminho de esperança são um caminho de morte ». Francisco rogou a todos que agissem para que aquilo não se repetisse.

Começava em grande estilo o pontificado daquele que se chamou Francisco em homenagem ao « poverello » de Assis, precursor da ecologia que reconhece os seres humanos como parte integrante da mãe natureza a ser respeitada e protegida.

O pedido do papa não impediu, no entanto, que a maior catástrofe humanitária dos últimos anos continuasse a acontecer diante de uma Europa, que se mostra incapaz, por falta de determinação e vontade política, de acolher dignamente tantos exilados.

Em quase todos os seus pronunciamentos feitos nesses dois anos de pontificado, o papa Francisco criticou a globalização que produz miséria e aprofunda as desigualdades, a violência e as guerras, responsáveis pela crise  humanitaria que a Europa vive hoje. O presidente de Cuba, Raul Castro declarou em maio deste ano : «  Se o papa Francisco continuar nessa linha,  eu volto  à igreja ».

Um papa marxista?

Em junho deste ano, ele publicou Laudato si’, na qual convida a todos a um novo diálogo sobre a maneira como construímos o futuro do planeta. Era a primeira vez que um papa dedicava uma encíclica à ecologia. Nela, o digno sucessor de Francisco de Assis alertava para a urgência de salvar o planeta da destruição causada pela exploração desenfreada de todos os recursos naturais e pelos excessos que destroem o meio ambiente e ameaçam a vida de milhões de pessoas no mundo inteiro.

O apelo por uma « ecojustiça » irritou os liberais e conservadores. A retórica do papa foi considerada « marxista », « pro-socialista » e até mesmo « anarquista ». A encíclica agradou aos ecologistas mas desagradou aos republicanos americanos que prefeririam que o papa continuasse a tratar apenas de problemas morais e religiosos.

O republicano católico Rick Santorum, candidato às primárias de seu partido na eleição presidencial de 2016, declarou em entrevista que « o papa não deveria falar sobre o aquecimento global mas deixar a ciência aos cientistas e tratar de teologia e de moral ».

Entre os cientistas e ecologistas engajados na defesa do meio ambiente o papa foi saudado como o porta-voz de uma causa que vai polarizar a atenção de todo o mundo em dezembro, em Paris, onde se realizará a Conferência Internacional sobre o Clima, a COP21.

Nos EUA, os que negam até hoje o aquecimento global e a ação do homem nas mudanças climáticas, chamados em francês de climato-céticos,  são contra as leis para reduzir os gazes de efeito estufa pois alegam que isso pode prejudicar o crescimento.  Os americanos que militam contra o aborto temem que no futuro o crescimento demográfico do planeta possa vir a ser controlado a partir do controle de nascimentos.

Como de hábito, a viagem papal aos Estados Unidos será uma oportunidade para Francisco falar aos excluídos e aos mais pobres : ele irá ao encontro dos sem-teto em Washington, de famílias de imigrantes no Harlem, em Nova York, e de detidos na Philadelphia.

A visita papal dará aos excluídos da primeira economia mundial uma visibilidade planetária. Graças a Francisco, a mídia do mundo inteiro vai expor a miséria social do capitalismo global triunfante.

*Leneide Duarte-Plon é jornalista, trabalha em Paris e é co-autora, com Clarisse Meireles, da biografia de frei Tito de Alencar, Um homem torturado-Nos passos de frei Tito de Alencar.

Da Carta Maior

Visita do papa a Cuba e EUA sinaliza manutenção de diálogo

A poucos dias da chegada do papa Francisco a Cuba, marcada para o próximo dia 19 de setembro, a emblemática Praça da Revolução, localizada na capital, Havana, já se prepara para receber o sumo pontífice diante dos monumentos dedicados ao líder revolucionário Ernesto Che Guevara e ao independentista e criador do Partido Revolucionário Cubano, José Martí. A expectativa é de que pelo menos 40 mil pessoas participem da missa papal, na praça de 72 mil metros quadrados.

Papa FranciscoPapa Francisco

Esta será a 10ª viagem internacional de Francisco, que chegará ao aeroporto José Martí, em Havana, no sábado, 19 de setembro, onde será realizada a cerimônia de boas-vindas. No domingo, Francisco presidirá a missa na Praça da Revolução e depois fará uma visita ao presidente de Cuba, Raúl Castro.

Esta será a terceira visita de um sumo pontífice a Cuba. Em 1998, a viagem de João Paulo II à ilha contribuiu para melhorar as relações entre o governo local e a Igreja, enquanto Bento XVI ficou durante três dias na nação caribenha, em 2012, e celebrou uma missa na presença de Raúl Castro. Juntamente com o Brasil, Cuba será uma das poucas nações do mundo a ter recebido a visita dos três últimos papas.

De Cuba aos EUA

Ainda no dia 22 de setembro, Francisco se despedirá da Ilha e partirá para a capital dos Estados Unidos, Washington, onde será acolhido, oficialmente, na base Andrews da Força Aérea. Na quarta-feira, 23, será realizada a cerimônia de boas-vindas no South Lawn, da Casa Branca, onde o papa fará um discurso e depois se encontrará com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Em 24 de setembro, quinta-feira, o papa visitará o Congresso dos Estados Unidos, onde fará um discurso. A primeira visita do papa Francisco à sede da Organização das Nações Unidas (ONU) está marcada para sexta-feira, 25, pela manhã, com uma saudação e um discurso do pontífice.

Depois de extensa programação, o papa se despedirá dos Estados Unidos e voltará para Roma, onde chegará por volta das 10 horas locais da segunda-feira, 28 de setembro.

Do Portal Vermelho, com informações da Adital

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