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A educação cubana após a revolução, vista por um consultor do Banco Mundial

 


Por Roberto Bitencourt da Silva

No primeiro dia do ano, Cuba celebrou o 57º aniversário da sua revolução popular, nacionalista, anti-imperialista e socialista. Em que pesem limitações e problemas de natureza política e econômica, inegavelmente o povo cubano tem muito o que celebrar, especialmente em relação à educação proporcionada pelo Estado.

Recente e esclarecedor estudo produzido por Aviva Chomsky (“História da revolução cubana”, editora Veneta, 2015) destaca os esforços de erradicação do analfabetismo, imediatamente após a ascensão dos revolucionários, liderados por Fidel Castro, ao poder.

Sob o slogan “O caminho para sair do subdesenvolvimento é a educação”, a revolução promoveu imensuráveis esforços para superar o analfabetismo, democratizar o ensino e promover níveis elevados de escolarização.

Um dos frutos legados pela prioridade concedida à educação, conforme a historiadora, é que “em termos de aproveitamento escolar e oportunidade profissional, a desigualdade entre raças diminuiu ou desapareceu em Cuba, ao passo que ainda parece intransponível nos Estados Unidos e no Brasil”.

Ademais, qualquer pessoa que simpatize com algumas iniciativas sociais desenvolvidas pela revolução cubana, ou que seja minimamente iniciada em sociologia, sabe, ou ao menos intui, que ações de caráter distributivo e de bem-estar social – fatores externos à escola – guardam forte e positiva incidência sobre a qualidade do ensino e a aprendizagem na escola.

Como raras são as análises empíricas disponíveis em nosso país, a respeito do caso cubano, não deixa de ser bastante interessante um estudo realizado, há poucos anos, por um prestigioso consultor do Banco Mundial, o economista Martin Carnoy ( “A vantagem acadêmica de Cuba”, editora Ediouro/Fundação Lemann, 2009).

Diga-se, Banco Mundial, uma das principais instituições que regulam os processos decisórios em escala internacional, sob a bandeira da “superioridade do mercado na oferta dos bens e insumos públicos”. Organismo multilateral que conforma um dos eixos do poder norte-americano, dos bancos e das corporações multinacionais sobre o mundo.

Comparando o modelo abertamente privatista do Chile e semiprivatista do Brasil – ambos modelos assentados em grotescas desigualdades sociais – com o padrão estatista e igualitário cubano, Carnoy chega à conclusão de que o “capital social” – isto é, qualidade de vida e rede estatal, comunitária e familiar de suporte aos/às alunos/as – consiste em variável principal para a boa aprendizagem das crianças cubanas.

Questionando o que entende configurar embaraços ao exercício das liberdades individuais e políticas dos adultos, não deixa, contudo, de frisar a prevalência do respeito aos direitos humanos das crianças e dos jovens em Cuba, em comparação com demais sociedades americanas (EUA e América Latina).

Baixa relação quantitativa professor/aluno (15 alunos por turma no primeiro segmento do ensino fundamental e 20 no segundo segmento); alto prestígio profissional dos/as professores/as na sociedade cubana – e remuneratório, para os padrões do país; mães, pais e responsáveis escolarizados/as e que valorizam a educação, eis alguns dos “segredos” cubanos para o sucesso, de acordo com o economista do Banco Mundial.

Desempenho superior em linguagem e matemática, menores índices de brigas escolares e hábito mais recorrente de leitura em casa, estes são alguns resultados da pesquisa empreendida por Carnoy, ao comparar a educação cubana com a de Argentina, Brasil, Colômbia e México.

É sempre bom frisar, apesar do silêncio natural de Carnoy a respeito: tratam-se de números e realidades sociais alcançadas sob severo e duradouro embargo econômico imposto pelos EUA. Adicionalmente, Cuba sofreu com ações militares, no passado remoto, diretas/indiretas e sabotagens norte-americanas.

Em período mais recente, também com atentados terroristas financiados por grupos mafiosos instalados no “grande irmão”. É o que oportunamente chamam a atenção Aviva Chomsky e Fernando Morais (“Os últimos soldados da guerra fria”, editora Companhia das Letras, 2011).

Convenhamos, não é pouca coisa. O povo cubano tem muito o que comemorar e com que se orgulhar.

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

 

Rennan Martins – Jornalista e Editor do Blog dos Desenvolvimentistas

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Cuba ainda espera fim de embargo, diz frei Betto

Havana e Washington anunciaram retomada de relações há 1 ano


De forma inesperada, os governos de Cuba e Estados Unidos anunciaram a retomada de relações bilaterais há cerca de um ano, em 17 de dezembro de 2014. Muitas coisas mudaram desde então, muito passos históricos foram tomados na direção da reaproximação. Uma das principais mudanças ainda não foi feita, no entanto, o fim do embargo econômico. A medida é uma das bandeiras do presidente norte-americano Barack Obama, mas depende do Congresso — que tem maioria republicana – para ser aprovada.

Consultado pela ANSA, o brasileiro frei Betto, amigo de Fidel Castro e autor do livro “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista”, compartilhou suas impressões sobre as mudanças em curso na ilha. ANSA – O senhor sentiu alguma mudança em Cuba desde 17 de dezembro do ano passado? Frei Betto – Após dezembro de 2014 estive em Cuba quatro vezes, uma delas por ocasião da visita do papa Francisco [em setembro].

De mudanças, a bandeira dos EUA erguida no Malecon [bairro turístico de Havana] e a expectativa dos cubanos quanto aos efeitos do reatamento com o país vizinho. Há mais cidadãos norte-americanos visitando Cuba, embora ainda perdure o bloqueio e as restrições de viagens por parte da Casa Branca aos cidadãos dos EUA. Este exemplo diz tudo: um casal dos EUA que queira fazer turismo na Coreia do Norte ou no Irã não encontrará nenhuma dificuldade ao buscar uma agência de viagens em Nova York. Porém, se o destino for Cuba, tudo é difícil, devido ao bloqueio. Essa é uma situação no mínimo esdrúxula.

ANSA- Fidel comentou algo com o senhor sobre o processo da retomada? FB- Sim, que Obama mudou seus métodos mas ainda precisa deixar claro que mudou também seus objetivos. Cuba espera que os EUA suspendam o bloqueio e devolvam a base naval de Guantánamo, bem como repare financeiramente os danos causados à ilha por décadas de bloqueio.

ANSA – Quais são suas impressões sobre o futuro de Cuba? Como o senhor acredita que o processo de retomada deve afetar a ilha? FB – Penso que, suspenso o bloqueio e liberadas as viagens, será o encontro do tsunami consumista com a austeridade cubana. Cuba se prepara para evitar que esse choque desvirtue o socialismo e as conquistas da Revolução [de 1959]. Nem os bispos católicos de Cuba têm, hoje, interesse que o país volte ao capitalismo.Não querem para o futuro de Cuba o presente de Honduras ou do Panamá.

Avanços – Desde a retomada de relações, diversas restrições vêm sendo estudadas e muitos passos têm sido dados em direção a uma reaproximação. Em julho deste ano, as respectivas embaixadas foram reabertas. O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, visitou a ilha no mês seguinte, sendo o primeiro líder diplomático do país a viajar a Cuba desde 1945. Na semana passada, Cuba e Estados Unidos anunciaram a retomada de trocas postais após um hiato de 52 anos e ontem os países informaram que chegaram a um acordo para restaurar voos comerciais, sem anunciar data que em rota será restabelecida. Em outras questões, no entanto, como o status dos dissidentes e o respeito aos direitos humanos em Cuba, as negociações continuam travadas.

 

Agência ANSA

http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2015/12/18/cuba-ainda-espera-fim-de-embargo-diz-frei-betto/

EUA e Cuba: luzes e sombras de uma aproximação

 

Ao cumprir-se nesta quinta-feira (17) um ano do histórico anúncio do início do processo para restabelecer relações entre Estados Unidos e Cuba, constata-se que foi proveitoso em se apostar no diálogo, embora subsistam obstáculos como o bloqueio econômico.

 

 

Raúl Castro e Barack ObamaRaúl Castro e Barack Obama

Sucessivas rodadas de conversação confirmaram a vontade expressa dos presidentes Barack Obama e Raúl Castro, que em pronunciamentos quase simultâneos no dia 17 de dezembro de 2014, coincidiram na vontade de recompor os vínculos interrompidos durante 54 anos, depois da ruptura de relações por parte de Washington.

A decisão, além de valentia política, traz embutida a oportunidade de demolir o muro entre os dois países, afirmaram analistas.

Não é fácil, reconheceu o presidente estadunidense. “A mudança é dura, em nossas próprias vidas e nas vidas das nações. E ainda mais quando levamos o peso da história em nossos ombros”, sustentou. O governante cubano insistiu que “devemos aprender a arte de conviver, de forma civilizada, com nossas diferenças”.

Como parte da aproximação, em ambas capitais foram abertas oficialmente embaixadas no dia 20 de julho, fato conceituado como o primeiro passo de um longo e complexo caminho para a normalização das relações diplomáticas.

Previamente, em abril, os presidentes de ambos países, pela primeira vez em mais de meio século, conversaram frente a frente durante a 7ª Cúpula das Américas que aconteceu no Panamá.

Pouco depois, a administração democrata excluiu a maior das Antilhas da unilateral lista de supostos Estados patrocinadores do terrorismo, na qual, segundo as autoridades da ilha, nunca deveria estar.

Outro ponto importante foi a criação, em agosto, de uma Comissão bilateral com o objetivo de analisar e avançar em diferentes âmbitos onde é possível a cooperação.

Até o momento, foram conseguidos acordos significativos sobre temas como combate ao narcotráfico e ao tráfico de pessoas, proteção de ecossistemas marinhos e reabertura do correio postal.

Este ano, várias delegações de congressistas, senadores e homens de negócios viajaram a Havana para explorar novas oportunidades de comércio, sobretudo no âmbito da agricultura.

Além disso, no Congresso estadunidense foram apresentadas diversas iniciativas dirigidas a modificar a aplicação do bloqueio e minimizar a proibição de viagens de cidadãos estadunidenses a Cuba.

Na opinião do governo cubano, o cerco econômico, comercial e financeiro imposto por Washington em 1962 constitui o principal obstáculo para a completa normalização dos vínculos.

Ainda que a administração democrata tenha anunciado em janeiro algumas medidas para aumentar as viagens e o comércio com a ilha, as disposições são ainda limitadas, enquanto permanece intacta a base jurídica que só pode ser alterada pelo Congresso para eliminar o bloqueio.

Desde o discurso sobre o Estado da União, em 20 de janeiro, Obama chamou várias vezes o Congresso a acabar com ditas sanções.

No dia 11 de setembro, o governante norte-americano renovou por mais um ano a chamada Lei de Comércio com o Inimigo, que sustenta o embargo econômico imposto a Cuba.

Não obstante, com esta ação o chefe da Casa Branca manteve sua autoridade executiva para relaxar as sanções.

Servidores públicos da chancelaria cubana têm reiterado que o chefe da Casa Branca dispõe de amplas faculdades para esvaziar aspectos vitais do bloqueio.

Para o futuro, permanecem pendentes temas bem mais complexos, alguns conceituados nocivos para a soberania do país caribenho, os quais devem ser resolvidos face à aspiração de atingir vínculos normais.

Neste sentido, figura a reivindicação pela anulação da denominada Lei de Ajuste Cubano e da política de pés secos-pés molhados, que dificulta o clima migratório entre os dois países.

De igual forma, ficam como assuntos álgidos a devolução do território ocupado pela Base Naval de Guantânamo, a eliminação das transmissões ilegais de rádio e televisão, bem como a cancelamento dos programas dirigidos a socavar o sistema e ordenamento político cubano.

Representantes de Cuba e dos Estados Unidos mostraram no dia 8 de dezembro disposição em continuar o diálogo sobre bens nacionalizados de cidadãos estadunidenses na ilha desde de 1959 e sobre os danos provocados aos cubanos pelo bloqueio econômico.

A reunião informativa em Havana sobre as compensações mútuas pendentes de solução entre ambos Estados demonstrou que é possível a negociação e o entendimento sobre a base do respeito à igualdade soberana.

Fonte: Prensa Latina

O ministro das Relações Exteriores do Brasil Mauro Vieira elogiou em Cuba a “grande ajuda” cubana no programa “Mais médicos”

 

O ministro das Relações Exteriores afirmou que o programa Mais Médicos “permitiu que os brasileiros das áreas mais remotas, mais distantes, tenham atenção médica de qualidade”

Por:  Bernardo Dantas

Chegada de medicos cubanos que participam do programa mais medicos do governo federal, em agosto de 2013

O Brasil conseguiu levar serviço de saúde de qualidade às zonas mais remotas de seu território graças a um contingente de 12 mil médicos cubanos, destacou, nesta quarta-feira (25/11), o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, durante visita a Havana.

Vieira elogiou a “grande ajuda” cubana no programa “Mais médicos”, que até o momento causou polêmica no Brasil devido às condições trabalhistas dos médicos da ilha, que recebiam salários inferiores a outros especialistas estrangeiros contratados na iniciativa.

Como resposta às críticas, o governo fez ajustes ao ingresso dos especialistas cubanos, cuja contratação no exterior representa a principal fonte de renda para Havana, cerca de 10 bilhões de dólares ao ano. O programa de cooperação entre os dois países está ativo desde agosto de 2013.

“É preciso fazer um registo muito especial da grande participação e grande ajuda que Cuba oferece ao programa brasileiro “Mais médicos”, com um contingente de médicos ao redor de 12 mil”, afirmou Mauro Vieira durante um encontro com seu homólogo cubano, Bruno Rodríguez.

Esta cooperação – acrescentou Vieira – “permitiu que os brasileiros das áreas mais remotas, mais distantes, tenham atenção médica de qualidade”.

O chanceler cubano comentou: “temos uma intensa cooperação bilateral, da qual nossos povos se beneficiam, especialmente no âmbito da saúde, que nos propusemos a manter e aprofundar”.

Depois da Venezuela, o Brasil é o país onde mais trabalham médicos cubanos. No total, são mais de 50 mil médicos em 66 países da América Latina, África e Oriente Médio.

Com informaçoes das Agencias

Declaração do Ministério das Relações Exteriores (Minrex) da República de Cuba

Comenta que nos últimos dias se criou uma situação complexa pelo fato de mais de mil cidadãos cubanos têm chegado à Costa Rica vindo de outros países da região com a intenção de viajar para os Estados Unidos.

Autor: Granma

17 de noviembre de 2015 19:11:59

Nos últimos dias se criou uma situação complexa pelo fato de mais de mil cidadãos cubanos terem chegado à Costa Rica vindo de outros países da região com a intenção de viajar para os Estados Unidos.

Estas pessoas saíram de Cuba de maneira legal para diferentes países da América Latina, cumprindo todos os requisitos estabelecidos pelas normas migratórias cubanas. Na tentativa de chegar ao território dos Estados Unidos se tornaram vítimas de traficantes e de grupos de delinqüentes que de forma inescrupulosa lucram com o controle da passagem destas pessoas pela América do Sul, América Central e México.

As autoridades cubanas têm mantido contato permanente com os governos dos países envolvidos com o objetivo de encontrar uma solução rápida e adequada que leve em consideração o bem estar dos cidadãos cubanos.

O Ministério das Relações Exteriores deseja enfatizar que estes cidadãos são vítimas da politização do tema migratório por parte do Governo dos Estados Unidos, da Lei do Ajuste Cubano e, em particular, da aplicação da chamada política de “pés secos – pés molhados” a qual confere aos cubanos um tratamento diferenciado e único em todo o mundo, ao admiti-los de forma imediata e automática, sem importar as vias e meios que utilizem, inclusive se chegam de maneira ilegal a seu território.

Esta política estimula a emigração irregular de Cuba aos Estados Unidos e se constitui uma violação à palavra e ao espírito dos Acordos Migratórios em vigor através dos quais ambos os países assumiram a obrigação de garantir uma emigração legal, segura e organizada.

O Ministério das Relações Exteriores denuncia que o governo estadunidense mantém também em vigor o chamado “Programa de Parole para Profissionais Médicos Cubanos”, aprovado em 2006 pelo presidente George W. Bush para induzir médicos e outros profissionais de saúde cubanos a abandonar suas missões em terceiros países e emigrar para os Estados Unidos. Esta é uma prática censurável com a finalidade de destruir os programas de cooperação cubanos e privar de recursos humanos vitais a Cuba e a muitos países que deles necessitam.

O Ministério das Relações Exteriores reitera uma vez mais que a política de “pés secos – pés molhados” e o “Programa de Parole para Profissionais Médicos Cubanos” são incompatíveis com o atual contexto bilateral, prejudica a normalização das relações migratórias entre Cuba e Estados Unidos e criam problemas a outros países.

O Ministério das Relações Exteriores ratifica que os cidadãos cubanos que tenham saído legalmente do país e cumpram com a legislação migratória em vigor, têm direito a retornar a Cuba, se assim o desejam.

O Ministério das Relações Exteriores reafirma o compromisso do governo de Cuba com uma emigração legal, segura e organizada.

Havana, 17 de novembro de 2015

CIA usa cinema e mídia para implodir governos, diz ex-agente duplo

Entre 2004 e 2011, o escritor e professor cubano Raúl Antonio Capote Fernández atuou, a pedido da inteligência cubana, como agente duplo infiltrado na CIA. Ele foi contatado ainda jovem por pessoas ligadas à agência de inteligência e convidado a participar de um projeto que pretendia criar uma “oposição de novo tipo” em Cuba, capaz de, após o desaparecimento de Fidel Castro, iniciar uma “revolução suave” que acabasse por derrubar o governo de Havana.

Por Marco Weissheimer, no Sul 21

 

Guilherme Santos/Sul21

Raúl Capote foi agente duplo até 2010 quando a Líbia entrou em guerra civilRaúl Capote foi agente duplo até 2010 quando a Líbia entrou em guerra civil

Sua missão era formar líderes universitários e criar o projeto “Genesis”, com o objetivo de estabelecer em Cuba a estratégia do “golpe suave”, elaborada por autores como Gene Sharp.

Em entrevista ao Sul21, Raúl Capote conta essa experiência, relata como ela fracassou em Cuba e diz que ela já foi aplicada em países como Venezuela, Irã e Líbia e que segue sendo implementada em diversas regiões do mundo. “A ideia da guerra não violenta consiste em ir solapando os pilares de um governo até que ele imploda. O objetivo não é fazer com que um governo renuncie. Se isso acontecer, o projeto fracassou. A ideia é que o governo imploda e que isso cause caos. Com o país em caos, é possível recorrer a meios mais extremos”, assinala.

Leia a entrevista na íntegra:

Sul21: Como é que você começou a trabalhar com assuntos de segurança em Cuba e sob que circunstâncias se tornou um agente duplo, atuando infiltrado na CIA?

Raúl Capote: Isso começou em 1986. Eu era um jovem inquieto e rebelde que fazia parte de uma organização chamada Associação Hermanos Saiz, que agrupava jovens poetas, pintores e escritores. Esse espírito rebelde para nós era algo muito natural. Fomos ensinados a ser assim.

Creio que os serviços especiais norte-americanos confundiram esse espírito de rebeldia com um espírito de possível oposição ao sistema. Eles começaram a se aproximar de nós. Eu vivia em Cienfuegos, no centro-sul de Cuba, uma cidade que tinha uma importância estratégica nesta época porque a revolução queria convertê-la num centro industrial para o país. Havia muitas obras em construção, entre elas uma central Eletronuclear e fábricas de todo tipo. Era uma cidade muito jovem e onde trabalhavam muitos cubanos que tinham se formado na União Soviética e em outros países do campo socialista. Creio que essa conjuntura de ser uma cidade jovem e industrial, com muitos jovens interessados em temas da cultura, da política e da economia, chamou a atenção da CIA.

Eles começaram a se aproximar de nós por meio de organizações não-governamentais. A primeira pessoa que veio falar conosco foi Denis Reichler, um jornalista freelancer da revista Paris Match, que para nós era uma espécie de ídolo do jornalismo esportivo. O que admirávamos nele era sua atuação como jornalista que havia estado na África e em muitos outros lugares. Era uma referência positiva para se aproximar de um grupo de jovens tão rebelde. Ele nos colocou em contato com organizações não-governamentais que, supostamente, estavam interessadas em financiar projetos artísticos em Cuba. Nos colocou em contato com pessoas que começaram a planejar ajuda econômica e a trabalhar conosco, em um processo de aproximação que buscava ganhar a nossa confiança. Éramos jovens e estávamos começando a fazer literatura ou artes plásticas. Ainda não tínhamos nenhuma obra, só tentativas.

Era um processo de aproximação feito com muita cautela e sem pressa. Neste período, a Segurança de Estado cubana entrou em contato comigo, me explicou o que estava acontecendo, que aquelas pessoas não pertenciam, de fato, a organizações não governamentais e quais eram as suas reais intenções. Isso me dava três possibilidades. A primeira era seguir trabalhando com eles. A segunda era interromper o trabalho e o contato com eles. E a terceira possibilidade, que me foi proposta pela segurança cubana, era seguir trabalhando com eles, converter-me em um agente da segurança cubana e tratar de decifrar quais eram os planos dessas pessoas no mundo da cultura e das artes, especialmente junto à juventude.

Esse contato com a agência de segurança cubana e o trabalho que se seguiu daí aconteceram ainda em 1986?

Sim, em 1986. Para mim era algo extraordinário. Nos anos 80, existia na sociedade cubana toda uma mística sobre o trabalho da segurança cubana, que sempre foi muito popular. Havia uma história legendária sobre ela, que tinha frustrado planos da CIA contra Cuba. Pertencer a essa organização me pareceu algo maravilhoso. Não avaliava, então, o quão complicado seria o trabalho que eu teria que enfrentar nem a quantidade de renúncias que eu teria que fazer. Eu tinha 20 anos quando comecei esse trabalho. Foi um longo processo. Houve um momento em que ocorreu uma interrupção desse movimento de aproximação feito pelos inimigos de Cuba. Em 1987, houve uma grande denúncia pública. Mais de 30 agentes da segurança cubana expuseram o trabalho de quase 96 oficiais da CIA que estavam atuando dentro do país.

Isso fez com que a CIA se tornasse mais cautelosa e tomasse algumas precauções. Passaram-se então alguns anos de contato muito leve por meio de algum jornalista ou de um representante de uma ong. Em 1994 eu fui morar em Havana e passei a trabalhar como organizador do sindicato de trabalhadores da cultura na cidade. Era uma mudança radical em muitos sentidos. Até então eu trabalhava com um universo de 3 ou 4 mil jovens e passei a dirigir 40 mil trabalhadores da cultura. Isso me tornou um alvo ainda mais interessante para a CIA. Eu era líder de um sindicato onde estavam praticamente todos os trabalhadores da cultura – artistas, músicos, escritores. Era um sindicato muito forte. Aí os contatos voltaram.

Eles passaram a me visitar com um plano mais complicado. Começaram a falar em dar informações sobre como se movia esse mundo da cultura, sobre como os jovens viam a Revolução naquele momento, etc. Esse processo vai se incrementando com o passar dos anos até 2004. Neste período, entramos em contato com associações e fundações mais vinculadas com o governo dos Estados Unidos como a Usaid e a Fundação Panamericana para o Desenvolvimento. Em 2004 começou então o processo do meu recrutamento pela CIA. Neste ano, conheci muitos oficiais da agência, inclusive aquele que seria meu chefe mais tarde.

Conheceu esses oficiais da CIA em Cuba mesmo?

Sim, em Cuba. Em 2004, então, eles me recrutam e eu me converto em um agente da CIA com uma tarefa muito específica. Minha tarefa não era fazer espionagem, até porque eu não tinha acesso mesmo a informações muito importantes, ou praticar ações encobertas ou atos terroristas, como normalmente faziam em Cuba. O meu trabalho era promover a guerra cultural, a guerra no terreno das ideias, que eles definem muito bem ao chamar de guerra cultural. Nós usamos expressões complicadas para isso como subversão político-ideológica ou algo do gênero. Eles simplificam. É guerra cultural mesmo. O que eu não imaginava era chegar a conhecer o quanto de verdade havia no controle real que a CIA tem sobre os meios de comunicação e a indústria cultural nos Estados Unidos e no mundo inteiro. Descobri que isso existe de fato, não é teoria da conspiração como alguns acreditam.

A CIA utiliza o cinema, as rádios, as televisões os jornais e outros canais a partir de um plano prévio. A agência criou um departamento que se especializou neste tipo de guerra cultural. Eu entrei neste mundo e conheci muitas pessoas que trabalhavam nele. Em 2005, eu me converti em chefe de um projeto específico da CIA em Cuba, chamado de Projeto Gênesis.

Você chegou a ir aos Estados Unidos para fazer algum tipo de treinamento especial ou para reuniões?

Sim, tive contato direto com eles. O Gênesis era um projeto muito bem pensado e que me permitiu conhecer também como a CIA estava trabalhando na América Latina com a mesma ideia de guerra cultural. Esse projeto não foi uma novidade cubana, mas sim o resultado de um trabalho realizado pelos Estados Unidos em muitas regiões da América Latina. Ele começou a ser implementado no processo de transição democrática na América Latina, no Chile e em muitos outros lugares. Essa experiência partiu da constatação de que as universidades latino-americanas tinham sido nas últimas décadas um foco de insurreição e de formação de militantes de esquerda. Eles decidiram mudar isso e converter a universidade latino-americana em um centro de produção do pensamento da direita e não da esquerda. Eles pensavam que o fato de essas universidades terem atravessado um período de repressão muito grande, quando muitos professores e estudantes militantes de esquerda foram mortos, facilitava um pouco esse trabalho de conversão.

Assim, começaram a implementar em toda a América Latina um milionário plano de integração acadêmica. Muitos estudantes e professores foram fazer esse intercâmbio nos Estados Unidos, onde realizaram diversos cursos, entre eles o famoso curso de liderança. A ideia era criar uma nova classe dirigente dentro das universidades e, por consequência, nos seus respectivos países. A quantidade de líderes mundiais hoje que são fruto desses programas é impressionante. Esse processo foi aplicado na Venezuela, por exemplo, com uma ênfase muito forte, a partir de 2009.

Entre 2003 e 2004 se enviava, mensalmente, um grupo de dez estudantes com um professor para cursos de formação e liderança na antiga Iugoslávia, atual Sérvia, sob a coordenação do antigo grupo de resistência sérvio, onde estava Srdja Popovic e uma série de jovens que contavam a experiência da derrubada de Milosevic.

Participavam desses cursos também o Instituto Albert Einstein, o Instituto de Luta pela Guerra Não Violenta, criado pelos sérvios, o multimilionário húngaro George Soros que colocou muito dinheiro neste projeto, e o Instituto Republicano Internacional que recebia fundos do governo norte-americano e o aplicavam nestes cursos. Aí se formaram muitos dos líderes da chamada Primavera Árabe e muitos líderes da oposição síria. Criou-se toda uma estrutura para fomentar o uso da chamada luta não violenta e do golpe suave. Estudantes venezuelanos, acompanhados de alguns professores, começaram a fazer esses cursos de forma periódica. O objetivo era repetir esse processo em Cuba, para formar ativistas especializados no manejo da guerra não violenta.

Eu recebi uma preparação intensa de como se organiza um golpe suave para derrubar um governo, quais são as medidas fundamentais para construir essa estratégia. É claro que, dentro de Cuba, seria muito mais difícil fazer essa formação. A alternativa encontrada foi usar o sistema de bolsas de estudo para promover o intercâmbio de estudantes. A ideia era propor, por exemplo, uma bolsa de estudos de seis meses ou mais em Jerusalém para um estudante de história ou ciências sociais. Ou então oferecer para uma jovem estudante de arte uma bolsa em Colônia, na Alemanha. Escolheu-se universidades muito pontuais, que não fossem norte-americanas e que pudessem ser atrativas para determinadas áreas de interesse. Mas os cursos oferecidos nestas universidades não eram exatamente sobre arte ou sobre história, mas sim sobre formação de lideranças, com cursos de inglês, cursos de táticas de guerra não convencional, sobre como funcionavam as organizações democráticas. O objetivo era que, mais tarde, esses estudantes se transformassem em elementos de mudança em Cuba.

E os estudantes que recebiam essas bolsas, sabiam da real natureza desse intercâmbio?

Não sabiam. O truque da bolsa era que, em geral, oferecia um curso de seis meses. As pessoas supunham que o curso era relacionado com a sua especialidade. Por que não passar seis meses em Jerusalém, Colônia ou outro local, com tudo pago, recebendo um curso de inglês, entre outras coisas? – pensavam. A agência estimava que, se cada dez estudantes, um se convertesse em um futuro opositor, já seria um grande lucro.

Esse plano começou a ser implementado em Cuba com muita força a partir de 2005, 2006, sem muitos resultados. Para surpresa da CIA, não houve muitos interessados pelos cursos, que não tiveram o impacto esperado junto aos jovens cubanos. Além disso, eu é que estava dirigindo a operação…Era possível que não tivesse êxito…(risos). Outro plano envolvendo a minha atuação como agente era fazer com que eu ocupasse uma posição elevada dentro do Ministério da Educação. Pretendiam me dar todo o apoio possível para tanto, apoio acadêmico e inclusive monetário. A ideia era me converter em uma pessoa imprescindível no sistema de educação cubano por minhas relações e contatos no mundo acadêmico.

Uma das coisas mais importantes para eles nesta época era o tempo que lhes restava. Estavam muito preocupados com essa questão temporal, pois aguardavam o momento do desaparecimento de Fidel. Avaliavam que muitos dos líderes históricos da Revolução Cubana não estariam mais em condições de assumir o posto de comando quando isso acontecesse. Trabalhavam com um período de dez ou quinze anos, no qual se formaria em Cuba uma nova oposição, que não teria nada a ver com a oposição anterior, que eles próprios consideravam desprestigiada e sem base social. Queriam criar uma oposição de novo tipo.

Como pretendiam fazer isso?

A estratégia utilizada em Cuba se diferenciou um pouco daquela usada em outros lugares. Eles queriam formar uma oposição de esquerda, pois avaliavam que uma oposição de direita não teria êxito em Cuba, pelo enraizamento da tradição e do pensamento revolucionário e também pelo fato que a direita nunca teve uma posição muito significativa junto ao povo cubano. Passaram a tentar criar, então, organizações que fossem supostamente de esquerda. Essa era a estratégia central do projeto Genesis. Para nos auxiliar nesta tarefa, nos deram acesso a modernos meios eletrônicos de comunicação que nos permitiram acessar a internet, as redes sociais e outros espaços. A ideia era nos dotar de uma grande capacidade de mobilização e começar a gerar conteúdo dentro do país. Isso tudo seria feito em segredo, em baixo perfil, nos treinando no uso dessas novas tecnologias.

Em 2007, me entregaram um equipamento de comunicação que se conectava por satélite com o Departamento de Defesa e que não podia ser rastreado. Esse equipamento permitia que eu tivesse comunicação direta com meu chefe em Washington e também criar uma rede em Cuba indetectável. De forma concomitante com isso, se começou outro projeto por meio do qual começaram a introduzir telefones celulares no país. Em função do bloqueio imposto pelos Estados Unidos, Cuba não tinha muitos celulares. Eles começaram a distribuir celulares de maneira gratuita, por diferentes meios, e criaram o programa ZunZuneo, que pretendia ser uma espécie de twitter cubano.

Essa rede começou a distribuir mensagens de texto principalmente e notícias relacionadas ao esporte, à cultura e às artes. A ideia era criar dentro do país um hábito de consultar essa rede e fazer com que as pessoas confiassem nela. Assim, no momento necessário, ela começaria a enviar mensagens para mobilizar ações contra a revolução. Fizeram alguns testes no país, em determinados momentos, que não deram resultado, mas seguiram implementando o projeto. Mais tarde, fizeram alguns aperfeiçoamentos e criaram outro sistema que se chamou Piramideo, parecido com o ZunZuneo, mas com alguns acréscimos fruto de experiências no Oriente Médio, especialmente no Irã, onde foi utilizado como ferramenta de mobilização em determinadas situações dentro do país.

Qual foi o impacto dessas iniciativas na sociedade cubana, especialmente junto à juventude? Elas tiveram visibilidade?

Tudo era feito pensando em um determinado momento no futuro de Cuba onde deveria ocorrer uma mudança de governo. Eles pensavam que isso ocorreria entre 2015 e 2016, que é exatamente o momento que estamos vivendo agora. Neste momento, segundo o planejamento feito, já deveria estar formada uma oposição social de novo tipo, saída da universidade e integrada principalmente por estudantes e professores, mas também por artistas, pequenos comerciantes e representantes de outros setores que apoiassem essa ideia. O surgimento público desse novo movimento político se daria através do lançamento da organização Fundação Genesis para a Liberdade, que deveria se dar em um ano em que ocorressem eleições em Cuba (que ocorrem a cada cinco anos).

Essa organização até poderia ser considerada uma fundação, mas de “genesis” não tinha nada e de liberdade muito menos. Em primeiro lugar, porque o líder da organização, eu no caso, era um agente da CIA. Em segundo lugar, eu não podia tomar nenhuma decisão sem ouvir o grupo consultivo que era constituído por oficiais da CIA. Então, de liberdade não tinha nada. Por meio dessa fundação, se esperava criar um ou mais de um partido político supostamente de esquerda. O discurso desse novo partido consistiria em dizer que era preciso reformar e modernizar o socialismo cubano. A nossa principal palavra de ordem era esta: modernizar. “Precisamos colocar o socialismo à altura do tempo”, “a época heroica já passou”, “ninguém mais faz isso no mundo”…diríamos coisas assim.

Eles acreditavam que, com o desaparecimento de líderes históricos carismáticos da Revolução como Fidel, esse novo movimento político teria um grande impacto na sociedade cubana levando inclusive a uma fratura na unidade interna do país. O nascimento da Fundação Genesis como organização seria acompanhado por uma grande campanha midiática. Haveria uma coletiva de imprensa com alguns dos mais importantes meios de comunicação do mundo. O passo seguinte seria organizar ações de rua, manifestações, ocupação de espaços públicos de maneira pacífica com o objetivo de causar impacto na sociedade.

Qual era a meta principal dessa tática?

Em resumo, aplicar a cartilha de Gene Sharp, teórico do golpe suave. A ideia da guerra não violenta consiste em ir solapando os pilares de um governo até que ele imploda. O objetivo não é fazer com que um governo renuncie. Se isso acontecer, o projeto fracassou. A ideia é que o governo imploda e que isso cause caos. Com o país em caos, é possível recorrer a meios mais extremos. A meta em Cuba era esta: causar um caos tal no país que fizesse desabar todos os pilares da revolução. Neste cenário, várias possibilidades eram consideradas, entre elas, uma “intervenção humanitária” dos Estados Unidos no país. Outra era a instalação de um governo de transição que levasse a um governo de direita.

O truque fundamental do projeto Genesis era que tinha supostamente um discurso de esquerda, mas as propostas reais que defendia consistiam em privatizar praticamente tudo, inclusive a saúde e a seguridade social. Era um socialismo anti-socialista e anti-social, com terríveis medidas de austeridade. Eles diziam para não nos preocuparmos, pois o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e a comunidade cubana no exterior iriam apoiar a “reconstrução do país”. Mas esse projeto nunca conseguiu ter base social nem conseguiu formar estudantes como pretendia…

E você, na condição de agente duplo, se esforçava na implantação do projeto ou trabalhava contra ele?

Fazia tudo o que podia para que não tivesse resultado. Era um jogo de xadrez muito interessante. Eu tinha que fazer com que eles acreditassem que estava funcionando e, na prática, fazer com que não funcionasse. Era bem difícil. Mas o projeto tinha muitos pontos débeis. Um deles era a crença de que a revolução dependia de uma única pessoa. Acreditar que a Revolução Cubana é Fidel é um erro. Outro erro era acreditar que os cubanos são pessoas ingênuas.

Em 2006, Fidel anunciou que estava se afastando de suas funções por problemas de saúde e que seria substituído por Raul (seu irmão, Raul Castro). Esse era um momento propício para aplicar a estratégia da Fundação Genesis e eles precipitaram um conjunto de ações. Acreditavam que poderia ocorrer um levante no centro de Havana.

Para tanto, usaram um médico chamado Darsi Ferrer, um contrarrevolucionário desconhecido. No dia 13 de agosto de 2006, data de aniversário de Fidel, ele deveria provocar um levante em Havana e convocar uma coletiva para dizer que o país estava mergulhado no caos, que havia militares sublevados e que a população não queria Raul no governo. Planejaram gravar em um estúdio, de modo muito parecido com o que fizeram na Líbia onde filmaram ações que, na verdade, não estavam acontecendo. O plano era filmar cenários de repressão como se os militares cubanos estivessem reprimindo a população, e transmitir essas imagens para todo o mundo. A mim me surpreendeu muito que um oficial da CIA em Cuba tivesse o poder de pautar e subordinar os mais importantes meios de comunicação do mundo. Era isso que estava se planejando ali.

E qual era o seu papel neste plano?

Quando essas imagens do “caos” em Cuba tivessem sido transmitidas ao mundo, eu deveria convocar uma coletiva de imprensa e pedir uma intervenção militar dos Estados Unidos para conter as violações de direitos humanos. Eu não era um contrarrevolucionário ou opositor, mas um professor e acadêmico conhecido no país. A credibilidade da minha aparição seria maior. Fiquei com um grande conflito interno neste período. Eu jamais iria fazer aquele pedido de intervenção militar dos Estados Unidos.

O que aconteceu, então?

Raúl Capote: As coisas começaram a dar errado para eles muito rapidamente. Depois do anúncio do afastamento de Fidel, passaram-se alguns dias e não houve nenhum caos no país, que seguiu funcionando normalmente. Não houve manifestações, protestos, nada. As pessoas seguiram com suas vidas. O outro problema que ocorreu é que o médico escolhido para desencadear o levante ficou sabendo que os principais canais de Miami estavam dizendo que um opositor cubano chamado Darsi Ferrer iria se imolar pela democracia. Aquilo foi uma surpresa total, pois não estava em seus planos colocar fogo no próprio corpo e morrer. Ele ficou convencido que iam matá-lo e, no dia 13 de agosto, ao invés de ir ao lugar escolhido para a execução do plano, sai de casa e inventa uma desculpa para não ir até lá. E o projeto fracassa.

Quando você abandona a condição de agente duplo?

Em 2010, quando a Líbia entrou em situação de guerra civil, o governo cubano me pediu para participar de uma denúncia pública para que as pessoas ficassem sabendo como esse tipo de golpe é tramado. Era uma decisão muito difícil, pois trazia riscos para mim e para minha família. Mas aceitei a proposta e começamos a gravar um conjunto de programas chamado “As razões de Cuba”, onde um grupo de agentes como eu vai à televisão contar o que tinham vivenciado. O programa foi dividido em capítulos. O meu foi ao ar em 4 de abril de 2011, onde contei tudo isso na televisão.

Fora de Cuba, se fala muito da situação de restrição de acesso à internet e às redes sociais na ilha, que haveria controle e a população não teria livre acesso à rede. Qual é mesmo a situação do acesso à internet em Cuba?

Sim, constantemente se acusa o governo cubano de não permitir o livre acesso à internet. É uma grande mentira. Se formos olhar os discursos de Fidel nos anos 90, veremos que a revolução cubana sempre defendeu o acesso livre à internet. O problema é que os donos da internet são os norte-americanos, Cuba está cercada de cabos submarinos de fibra ótica, mas não pode usá-los por causa do bloqueio. Cuba não tem acesso à tecnologia necessária para garantir o acesso à internet para todos os seus cidadãos por que as empresas são proibidas, pelos Estados Unidos, de negociar com Cuba. Em função desse quadro, o acesso à internet tornou-se muito caro para Cuba. E ela é lenta porque é preciso uma infraestrutura que garanta que o sinal chegue em todos os lugares do país. Nós acreditamos que a internet é uma ferramenta para defender e propagar a revolução. Os Estados Unidos não querem que Cuba tenha livre acesso à internet, porque sabem isso significaria que poderíamos divulgar muito mais nossas ideias também.

É impossível no mundo hoje que uma sociedade se desenvolva sem a internet. Nós temos a Universidade de Ciências Informáticas, que é uma das maiores da América Latina e forma todos os anos milhares de engenheiros criadores de softwares e técnicos nesta área. É uma universidade que se auto-financia com a venda desses softwares. Temos escolas técnicas em todas as províncias que formam milhares de jovens para o uso das redes sociais e das novas tecnologias. Apesar do alto custo que ainda representa, a acesso e uso da internet em Cuba tem aumentado enormemente, apesar de todos os bloqueios que ainda sofremos.

Vereador do PCdoB de Frecheirinha homenageia médicos cubanos

Proposta pelo vereador Aurélio do Caeiral (PCdoB), a Câmara Municipal concedeu aos médicos cubanos que atuam no município o Título de Cidadão Frecheirinhense. Segundo o parlamentar comunista, a indicação dos nomes da Dra Elba de la Concepcion e do Dr Pablo Cause Aguero configura uma justa homenagem como o reconhecimento do profissionalismo e dedicação no atendimento médico e humanitário.

“Dr. Pablo e Dra. Elba, ou cubanos, como são carinhosamente conhecidos pela população, chegaram à cidade em 2013, através do Programa Mais Médico do Governo Federal, com o objetivo de suprir a carência de médicos nos municípios do interior e nas periferias das grandes cidades. Em reconhecimento ao relevante trabalho que eles vêm prestando à nossa população, sempre cuidadosamente procurando ouvir seus pacientes que muitas vezes necessitam mais de atenção e orientação do que medicamentos. Eles percebem que, em algumas situações, o maior remédio tem sido o bom atendimento e a forma carinhosa de atender cada paciente, sempre tentando dar o melhor de si para as pessoas que necessitam de atendimento”, ratifica Aurélio.

Dra Elba afirma que sempre teve bom acolhimento da população. “No início tivemos muita dificuldade com o idioma, mas na primeira semana nós entramos no coração da população Frecheirinhense. Nosso trabalho durante o primeiro ano foi muito forte, já que trabalhamos em quase todas as Unidades de Saúde do município, atendendo cerca de 60 pacientes por dia. Atualmente, a média de atendimentos é de 400 pacientes por mês, sempre buscando estabilidade e segurança aos nossos pacientes”.

Mais

Elba de la Concepcion é formada em medicina desde 1992, com especialização em Medicina Geral Integral. Pablo Cause Aguero é formado desde 1988. Ambos têm experiência de trabalho internacional. Ela atuou 6 anos na Venezuela enquanto ele trabalhou na Guatemala e no Haiti.

Os médicos destacaram a paixão pelas novelas e pela música popular brasileira “de Elis Regina, Chico Buarque, Gal Costa entre outros”.

De Fortaleza,
Carolina Campos

Barack Obama – Bloqueio- Cuba

Sign of Credit Agricole Bank, is seen in Nice, southeastern France, Wednesday, Sept. 14, 2011. Moody's on Wednesday downgraded the credit ratings of French banks Societe Generale and Credit Agricole following a period of huge volatility in the markets as investors fretted about their potential exposure to the debts of Greece. (AP Photo/Lionel Cironneau )
A pesar de las últimas medidas, el gobierno estadounidense continúa la persecución financiera contra Cuba, como demuestra la última multa al banco francés Crédit Agricole. Foto: AFP

El 28 de septiembre del 2015, en su discurso en la Asamblea General de las Naciones Unidas, el presidente Obama hizo una constatación lúcida sobre la política exterior de Estados Unidos hacia Cuba:

“Durante 50 años, Estados Unidos aplicó una política hacia Cuba que fracasó en mejorar la vida del pueblo cubano. Hemos optado por un cambio. Todavía tenemos diferencias con el Gobierno cubano. Seguiremos defendiendo los derechos humanos. Pero abordamos ahora es­tas cuestiones mediante relaciones diplomáticas, un comercio en alza y lazos entre los pueblos. Mientras estos contactos se fortalecen día a día, estoy convencido de que nuestro Congreso levantará inevitablemente un embargo que ya no debería existir”.

Estas palabras del Presidente de Estados Unidos fueron saludadas calurosamente con nutridos aplausos en las Naciones Unidas. En efecto, las medidas hostiles impuestas a la Isla desde hace más de medio siglo son anacrónicas, crueles e ineficaces. Afectan a las categorías más vulnerables de la población y constituyen el principal obstáculo al desarrollo del país. Del mismo modo, la brutalidad de las sanciones ha aislado a Washington en la escena internacional donde hasta sus más fieles aliados exigen desde hace varias décadas el levantamiento de este estado de sitio.

No obstante, las declaraciones de buena voluntad del presidente Obama, oficialmente favorable a la supresión de las sanciones económicas, no van seguidas de actos. Peor aún, la Casa Blanca sigue aplicando con una absoluta severidad su política hostil, incluso en sus aspectos extraterritoriales, mofándose de las reglas elementales del derecho internacional.

Así, Crédit Agricole (CA), un banco francés, acaba de ser condenado a una multa de 694 millones de euros en Estados Unidos por realizar, entre otros, transacciones en dólares con Cuba. Se trata de la cuarta multa más importante impuesta a una institución financiera por Washington. CA está acusado de violar la Inter­national Emergency Economic Powers Act, ley federal estadounidense de 1977 que permite al presidente limitar los intercambios con algunas naciones. Frente a las amenazas de cerrar todas sus actividades en territorio estadounidense, el banco francés no tuvo más remedio que aceptar la sanción.

En el 2014, BNP Paribas tuvo que pagar la suma astronómica de 6 500 millones de euros a Washington por mantener relaciones financieras con La Habana. No obstante, Crédit Agricole y BNP Paribas respetaron escrupulosamente la legislación francesa, el derecho europeo y el derecho internacional.

Estas entidades no co­metieron ninguna ilegalidad en absoluto. Am­bas fueron víctimas, como otras muchas empresas mundiales, de la aplicación extraterritorial —y por consiguiente ilegal— de las sanciones económicas de Estados Unidos contra Cuba. En efecto, una ley nacional no puede aplicarse fuera del territorio del país. Así, otra vez, Washington ataca de modo arbitrario los intereses franceses.

Es importante subrayar que es el presidente Obama y no el Congreso quien tomó esa decisión, en singular contradicción con el discurso ante las Naciones Unidas de optar por un enfoque basado en el diálogo, el entendimiento cordial y el respeto del derecho internacional.
No es la única contradicción del inquilino de la Casa Blanca. En efecto, como jefe del poder ejecutivo, Barack Obama dispone de todas las prerrogativas necesarias para desmantelar la casi totalidad de la red de sanciones económicas, sin necesitar el acuerdo del Congreso. Así, el presidente de Estados Unidos puede perfectamente autorizar el comercio bilateral entre am­bas naciones. Puede también autorizar a Cuba a usar el dólar en sus transacciones internacionales y permitir que la Isla adquiera en el mercado mundial productos con más del 10 % de componentes estadounidenses. Obama puede también legalizar la importación de productos fabricados en todo el mundo a partir de materias primas cubanas y consentir la venta a crédito de productos no alimenticios a la Isla.

Solo hay tres aspectos que Barack Obama no puede tocar sin la autorización del Congreso. No puede autorizar el turismo ordinario a Cuba. Tampoco puede permitir que Cuba adquiera materias primas alimenticias en el mercado estadounidense a crédito. Finalmente, el presidente no puede autorizar que las filiales de las empresas estadounidenses ubicadas en el exterior mantengan relaciones comerciales con la Isla.

En cuanto al primer aspecto, la respuesta es simple. El presidente Obama puede evitar el obstáculo legislativo ampliando la definición de las categorías de ciudadanos estadounidenses autorizados a viajar a Cuba. Hay actualmente 12 e incluyen entre otros los viajes académicos, culturales, científicos, periodísticos, profesionales, educativos, etc. Así, Barack Obama podría perfectamente ampliar la definición de viaje cultural a Cuba y decidir, por ejemplo, que todo ciudadano que se comprometiera a visitar un museo durante su estancia en la Isla sería incluido en esta categoría. En cuanto al segundo tema, si el poder ejecutivo no puede autorizar la venta a crédito de alimentos a Cuba, Obama puede permitir que Cuba compre a crédito en el mercado estadounidense todo producto no alimenticio. El tercer punto no tiene ningún efecto pues si el presidente Obama autoriza que las empresas estadounidenses instaladas en el territorio nacional tengan relaciones comerciales con Cuba, no sería necesario recurrir a las filiales.

Barack Obama es el presidente estadounidense que ha tomado las decisiones más avanzadas en el proceso de acercamiento con Cuba al restablecer las relaciones diplomáticas y consulares y al adoptar algunas medidas limitadas que flexibilizan las sanciones. También es quien ha tenido el discurso más lúcido sobre la política exterior de Washington hacia La Habana, reconociendo el fracaso de un enfoque basado en la hostilidad. No obstante, sus acciones castigadoras hacia empresas internacionales, así como su reserva en tomar las medidas necesarias para desmantelar el estado de sitio económico contradicen sus declaraciones de principios y suscitan la incomprensión de la comunidad internacional.

(Tomado de Al Mayadeen)

Solidariedade como a arma mais prezada

Photo: Anabel Díaz

COM a presença de 130 delegados de mais de 60 organizações, começou na segunda-feira, 9 de novembro, no Palácio das Convenções de Havana, a 21ª Assembleia Geral da Federação Mundial das Juventudes Democráticas (FMJD), organização que, coincidentemente, comemorou nesse mesmo dia o 70º aniversario de sua fundação.

“Esta assembleia é o lugar para debater, avaliar e avançar de forma unida. É o espaço para enviar uma mensagem internacional forte, que ofereça à juventude valor e esperança acerca do futuro e que evidencie nossa vontade de continuar sempre ao lado dos jovens e seus direitos”, expressou o presidente da FMJD, Nicolas Papademetriou, na abertura do encontro.

O líder juvenil conversou com os delegados sobre a crise capitalista mundial atual e referiu que, sob o título de “superar a crise”, se impõem medidas duras contra os povos e especialmente contra os trabalhadores e a juventude.

Yuniasky Crespo Baquero, primeira secretária da União dos Jovens Comunistas de Cuba (UJC), insistiu na necessidade de se unirem, diante das realidades imperantes, e a “fazer da solidariedade nossa mais prezada arma. Devemos fortalecer-nos e incrementar nossas ações coletivas para revitalizar a luta da esquerda juvenil, algo tão necessário em um mundo que pretende plantar egoísmos e padrões de vida desiguais e insustentáveis”.

Crespo Baquero declarou sua satisfação por se encontrar em Cuba entre tantos irmãos de luta que, “invariavelmente nos têm acompanhado ao longo de todos estes anos: nos esforços de nossa pátria por continuar construindo uma sociedade mais equitativa para todos, na condenação do bloqueio genocida imposto pelo governo dos Estados Unidos e na luta que conseguiu o retorno à pátria de nossos Cinco Heróis lutadores contra o terrorismo”.

A primeira secretária da UJC sublinhou a importância do movimento dos Festivais Mundiais da Juventude e os Estudantes — promovidos por esta Federação e “que têm feito escutar sua voz a favor da paz e a solidariedade antiimperialista” — e destacou o papel de Fidel ao convocar a não deixar morrer essa bela iniciativa.

Presidiram o encontro, ainda, a coordenadora da área da África e Oriente Médio, do Departamento das Relações Internacionais do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba (PCC), Clara Pulido Escandel; o funcionário do Comitê Central do PCC, Julio César García Rodriguez e os vice-presidentes da FMJD Gris Hananda, para a região da Ásia; Marwa Saab, para a região do Oriente Médio e Dalfino Hoster Guila, para a região da África.

Raúl recebeu o presidente do Partido Progressista chileno

Photo: Estudio Revolución

O presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, general-de-exército Raúl Castro Ruz, recebeu na tarde da quarta-feira, 11 de novembro, os companheiros Marco Enríquez Ominami e Pedro Abarca, presidente e secretário-geral do Partido Progressista Chileno, respectivamente, os quais visitam nosso país.

Durante o encontro fraternal dialogaram sobre os vínculos positivos que existem entre ambas as nações, a situação atual da região, os avanços no processo de integração latino-americano e caribenho, e outros temas da agenda internacional.

Pela parte cubana marcaram presença os membros do Bureau Político do Comitê Central do Partido, Miguel Díaz-Canel Bermúdez e Bruno Rodríguez Parrilla, primeiro vice-presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros e ministro das Relações Exteriores, respectivamente, e o chefe do Departamento das Relações Internacionais e membro do secretariado, José Ramón Balaguer Cabrera.

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