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Lula e Mujica recebidos como heróis na Colômbia

Convidados pela CLACSO, Lula e Mujica chegam a Medellín para dizer que a América Latina apoia a paz, o que é muito importante para toda a região


Por Darío Pignotti, enviado especial a Medellín

Agência PT de notícias

“Luiz Inácio Lula da Silva e José Mujica são dois mitos na Colômbia, são dois heróis”, conta o secretário executivo do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO), Pablo Gentili, para explicar a importância de presença dos ex-mandatários no congresso do mais importante “tanque de pensamento” da região, que se inicia amanhã, em Medellín em momentos cruciais para o processo de paz entre a guerrilha e o governo.

“A popularidade de Lula entre os colombianos é muito alta, muitos estão a favor de Lula porque conhecem sua história de vida, desde que era um operário metalúrgico e dirigente sindical, além de fundador do PT. Nas campanhas eleitorais, os candidatos colombianos usam Lula com exemplo, para conseguir votos. Os colombianos também adoram Mujica, o respeitam por sua vida digna, sua história de luta, sua atitude coerente contra o consumismo. Mujica nos demonstra como um homem que esteve na luta armada – e ficou preso durante treze anos pela ditadura uruguaia – depois optou pela política partidária, se transformando num grande líder, algo que pode acontecer com os guerrilheiros colombianos das FARC quando se inicie a etapa posterior ao conflito”, conta Gentili em entrevista para a Carta Maior.

“Convidados pela CLACSO, Lula e Mujica chegam a Medellín para dizer que a América Latina apoia a paz, o que é muito importante para toda a região”.

Medellín, Pablo Escobar e James Rodríguez

Em Medellín, o clima passa rapidamente de uma chuva suave ao gostoso sol tropical, e depois volta a chuva suave, um revezamento que mantém no ar um ambiente muito “chévere”, como dizem as pessoas que vivem nos morros que rodeiam esta cidade.

Nesta cidade o líder narco Pablo Escobar Gaviria construiu sua fortaleza, e também o ex-presidente ultradireitista e atual senador Álvaro Uribe – um aliado político dos Estados Unidos, que durante seu mandato tentou e fracassou na tentativa de eliminar militarmente os guerrilheiros que lutam a mais de meio século no país.

“Esta cidade é conhecida em todo o mundo por ser o lugar onde viveu Pablo Escobar, mas Medellín também é a terra do clube Envigado, onde jogou James Rodríguez antes de ser comprado pelo Real Madrid”, diz o garçom de um bar na avenida Nutibara, por onde automobilistas e motociclistas circulam em alta velocidade, sintoma do trânsito violento do centro de uma cidade onde, nos setores periféricos, ainda há zonas controladas pelos paramilitares.

O diretor do CLASCO, Pablo Gentili, destaca o significado político de que Medellín, um histórico reduto da ultradireita, seja visitada por milhares de intelectuais, acadêmicos e dirigentes políticos como o vice-presidente boliviano Álvaro García Linera e o secretário-geral da Unasul, o colombiano Ernesto Samper, ex-presidente do país.

“A América Latina deve se comprometer com a paz na Colômbia, demonstrar que o país está atento às negociações realizadas em Havana”. Gentili confia que o acordo definitivo será assinado em março, como prometeram as duas partes depois da cúpula realizada em setembro, em Cuba, entre o chefe guerrilheiro Timochenko e o presidente Juan Manuel Santos. Aquela reunião foi patrocinada pelo presidente Raúl Castro e abençoada pelo papa Francisco.

“Vemos que houve avanços concretos na Colômbia, permitiram superar travas que pareciam insuperáveis, mas ainda há alguns temas difíceis de resolver. Ainda assim, acho que ano que vem teremos um acordo de paz, a não ser que ocorra uma tragédia inesperada, que pode estar sendo planejada pela ultradireita”, comenta Gentili. “Será preciso enfrentar os obstáculos que a direita colombiana, militarizada e paramilitarizada, colocará no caminho. Não falta vontade de intervir para que a paz fracasse. O uribismo (tendência política ligada a Álvaro Uribe) está trabalhando contra os acordos”.

Independente das ameaças políticas e armadas contra as negociações, o país “está vivendo um momento muito interessante, porque começa a se discutir o que virá na etapa do pós-acordo de paz. A Colômbia deverá enfrentar um longo processo para implementar a paz que está se negociando, necessitará uma arquitetura institucional muito complexa para construir essa paz, e também ideias, que serão discutidas neste congresso do CLACSO”.

Pensamento próprio

O congresso do CLACSO discutirá, a partir de amanhã e até a próxima sexta-feira, temas como a paz e a guerra na Colômbia, o processo de integração, o futuro dos governos progressistas e de esquerda na região, o modelo de desenvolvimento e inclusão social, as relações com os Estados Unidos e a ofensiva conservadora para desestabilizar as experiências pós-neoliberais, entre outros.

“Na América Latina, temos uma grande capacidade de produção acadêmica autônoma, criativa, séria, rigorosa. Temos um pensamento próprio para ver o mundo e impulsionar uma disputa com uma postura politicamente comprometida”, observa Gentili.

Este encontro estará marcado pela batalha das ideias que estão em curso, a que ganhou vigor no início da década passada, em paralelo ao desgaste da dominação unilateral norte-americana.

“Ainda hoje em dia, quem produz a visão do mundo são os países hegemônicos. Diante disso, é preciso valorizar nossa produção intelectual. Nos últimos anos, a América Latina começou a ter intelectuais e profissionais atuando com mais influência em organismos internacionais como a ONU, onde se discutem programas, projetos sobre a desigualdade, a pobreza e o desenvolvimento”, opina Gentili. “Foi durante os governos de Lula, de Néstor Kirchner e de Hugo Chávez que nós começamos a ganhar espaço nesses âmbitos. O CLACSO também cresceu nos últimos anos. Duplicamos o número de instituições associadas e vamos seguir trabalhando nessa estratégia, porque a articulação dos centros de investigação latino-americanos é necessária, como também a articulação dos centros de investigação da África e de outros continentes”.

Futuro

“Espero o futuro de América Latina com preocupação, mas com confiança” afirma Pablo Gentili, para quem o CLACSO é uma usina de pensamento crítico, por onde circulam intelectuais com compromisso político, dentro de um espaço de grande diversidade.

Pensando neste encontro de Medellín, ele diz não esperar por consensos unânimes sobre o futuro da América Latina, que prevê muitos debates e divergências, e que não se surpreenderá se as posturas, mesmo dentro do campo progressista, estiverem bastante distanciadas.

“Um tema que vai provocar debates duros é o do modelo desenvolvimento atual na região, o meio ambiente e a mineração. O problema não é ter um diagnóstico de consenso sobre os rumos da América Latina, mas sim ter claro que não podemos retroceder ao neoliberalismo dos Anos 90”.

Gentili recorda o fato de que a reunião de Medellín se realiza exatos dez anos depois da histórica Cúpula das Américas, onde Lula, Kirchner e Chávez frearam o projeto da ALCA, a área de livre comércio que os Estados Unidos queria impor ao continente.

“O `Não à ALCA´ foi uma demonstração concreta da integração. Os presidentes disseram aos Estados Unidos `aqui estamos´, a partir dali, os países se uniram, avançaram, definiram uma agenda com vários temas, que incluiu até mesmo um programa educativo em comum. Se acompanhamos estes dez anos posteriores àquela cúpula, se vemos a evolução dos nossos debates, podemos entender a transformação ocorrida na realidade regional”.

“Em 2005, houve um golpe de esperança. Nessa época, os governos populares e de esquerda não tinham grandes conquistas para exibir, ainda não havia resultados sociais, mas havia a vontade de construir um futuro”.

Tradução: Victor Farinelli

Dez anos depois da Alca: os novos desafios da América Latina

Há dez anos a América Latina vencia uma de suas maiores batalhas contra a dominação imperialista no continente ao derrubar a Alca (Área de Livre Comércio das Américas). O processo se deu com grandes mobilizações dos movimentos sociais e partidos de esquerda e foi consolidado durante a 4ª Cúpula das Américas, realizada entre os dias 4 e 5 de novembro de 2005 em Mar del Plata, na Argentina, quando os presidentes Lula, Hugo Chávez e Néstor Kirchner decretaram o fim da Alca.

Por Mariana Serafini

Hugo Chávez, Néstor Kirchner e Lula quando decretaram o fim da Alca, durante a Cúpula das Américas

Na época a América Latina dava os primeiros passos rumo à soberania do continente. O então presidente da Venezuela, Hugo Chávez, havia sido eleito quase dez anos antes, e inaugurou uma nova fase política que trouxe uma leva de governos progressistas, entre eles Lula e Néstor, além de Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador e Daniel Ortega na Nicarágua.

O fim da Alca representou um novo período para o povo latino-americano. Mecanismos de integração política e social foram fortalecidos e criados, entre eles o Mercosul, que mais tarde foi expandido com o ingresso da Venezuela; a Alba (Aliança Bolivariana Para os Povos da Nossa América), a Unasul (União das Nações Sul Americanas) e a Celac (Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos).

Enquanto a Alca representava a consolidação dos poderes econômico dos grandes grupos multinacionais e a transformação do continente em um mercado sem regulações; a Alba vai na contramão da proposta norte-americana e fomenta a liberdade dos povos, a redistribuição de renda, a ampliação do acesso dos mais pobres, a redução das desigualdades e a mudança do modelo econômico produtivo a fim de promover a inclusão social dos “invisíveis” citados por Hugo Chávez.

A Alba, criada em 2004 com o impulso de Cuba e da Venezuela, abriu caminho para uma nova forma de intercâmbio regional cujo foco é a liberdade dos povos, a soberania e a igualdade. Durante este novo período a América Latina logrou feitos importantes, como a retirada de 70 milhões de pessoas da extrema pobreza, destas, mais da metade é composta por brasileiros.


Néstor Kirchner, Evo Morales, Lula e Chávez durante a Cúpula das Américas em 2008 | Foto: AP

Os governos progressistas de Lula, Evo, Néstor, Chávez, Correa e Ortega foram fundamentais para tirar o continente do rumo neoliberal que afundou a economia de muitos países durante os anos 1990, entre eles o Brasil e a Argentina.

Se Fernando Henrique no Brasil e Carlos Menem na Argentina privatizaram estatais e quebraram a economia de seus países, recorrendo diversas vezes aos empréstimos do FMI, Lula e Néstor saíram deste eixo, fortaleceram a soberania nacional e pagaram as dívidas externas. No país vizinho o governo conseguiu ainda renacionalizar empresas importantes como a YPF, de petróleo, e as Aerolineas Argentinas, entre outras.

A criação do Banco da Alba, em 2008, foi mais um passo importante para consolidar a soberania e a independência financeira dos países membros. Ações como esta permitiram que mais de dois milhões de latino-americanos e caribenhos hoje tenham acesso à saúde e educação públicas.
Os programas de alfabetização desenvolvidos no continente fizeram com que a Unesco declarasse Cuba, Venezuela, Bolívia e Nicarágua territórios livres do analfabetismo. Ao passo que o projeto educacional desenvolvido na ilha comunista, Yo Sí Puedo, já alfabetizou mais de 10 milhões de pessoas, um terço destas nos países latinos e caribenhos.

Desafios para continuar no rumo do desenvolvimento social

Passados dez anos, a postura dos países latinos frente à geopolítica mundial é outra, hoje com mais peso e importância. As relações comerciais com a China e países do Oriente Médio foram fortalecidas, ao passo que se reduziu a dependência econômica dos Estados Unidos e da União Europeia. Não à toa a crise econômica que atingiu os países do Norte em 2008 e hoje já traz efeitos desastrosos, chegou com menos intensidade no continente latino-americano.

No entanto, a contraofensiva da direita é constante e cada vez mais intensa. A Venezuela resiste a duras penas às tentativas de desestabilização promovidas pela elite local com apoio norte-americano. O interesse do mercado estrangeiro no petróleo do país é nítido, o mesmo acontece na Argentina, que sofre ainda com a questão dos fundos abutres, bravamente enfrentada pela presidenta Cristina Kirchner.


Dilma, Maduro e Cristina representam a continuidade dos governos progressistas | Foto: AFP

No Equador a tentativa de golpe foi aos “moldes dos anos 60”, quando em 2010 o presidente Rafael Correa sofreu um atentado seguido de tentativa de assassinato e sequestro. Recentemente a onda desestabilizadora atingiu também o Brasil e vem tentando derrubar o governo da presidenta Dilma Rousseff, desde que o povo brasileiro conquistou a quarta vitória popular nas urnas, em outubro do ano passado.

O desafio destes países é garantir a constitucionalidade governamental sem sair do rumo do desenvolvimento e da inclusão social. A “Pátria Grande” sonhada por Simón Bolívar é o norte dos países do Sul e a alavanca que fomenta a luta por soberania e independência iniciada em meados dos anos 1990 por Hugo Chávez. As ameaças golpistas e fortalecimento dos partidos da direita representam o retorno do neoliberalismo que deixou marcas profundas de atraso e retrocesso no continente.

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