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EUA e Cuba: luzes e sombras de uma aproximação

 

Ao cumprir-se nesta quinta-feira (17) um ano do histórico anúncio do início do processo para restabelecer relações entre Estados Unidos e Cuba, constata-se que foi proveitoso em se apostar no diálogo, embora subsistam obstáculos como o bloqueio econômico.

 

 

Raúl Castro e Barack ObamaRaúl Castro e Barack Obama

Sucessivas rodadas de conversação confirmaram a vontade expressa dos presidentes Barack Obama e Raúl Castro, que em pronunciamentos quase simultâneos no dia 17 de dezembro de 2014, coincidiram na vontade de recompor os vínculos interrompidos durante 54 anos, depois da ruptura de relações por parte de Washington.

A decisão, além de valentia política, traz embutida a oportunidade de demolir o muro entre os dois países, afirmaram analistas.

Não é fácil, reconheceu o presidente estadunidense. “A mudança é dura, em nossas próprias vidas e nas vidas das nações. E ainda mais quando levamos o peso da história em nossos ombros”, sustentou. O governante cubano insistiu que “devemos aprender a arte de conviver, de forma civilizada, com nossas diferenças”.

Como parte da aproximação, em ambas capitais foram abertas oficialmente embaixadas no dia 20 de julho, fato conceituado como o primeiro passo de um longo e complexo caminho para a normalização das relações diplomáticas.

Previamente, em abril, os presidentes de ambos países, pela primeira vez em mais de meio século, conversaram frente a frente durante a 7ª Cúpula das Américas que aconteceu no Panamá.

Pouco depois, a administração democrata excluiu a maior das Antilhas da unilateral lista de supostos Estados patrocinadores do terrorismo, na qual, segundo as autoridades da ilha, nunca deveria estar.

Outro ponto importante foi a criação, em agosto, de uma Comissão bilateral com o objetivo de analisar e avançar em diferentes âmbitos onde é possível a cooperação.

Até o momento, foram conseguidos acordos significativos sobre temas como combate ao narcotráfico e ao tráfico de pessoas, proteção de ecossistemas marinhos e reabertura do correio postal.

Este ano, várias delegações de congressistas, senadores e homens de negócios viajaram a Havana para explorar novas oportunidades de comércio, sobretudo no âmbito da agricultura.

Além disso, no Congresso estadunidense foram apresentadas diversas iniciativas dirigidas a modificar a aplicação do bloqueio e minimizar a proibição de viagens de cidadãos estadunidenses a Cuba.

Na opinião do governo cubano, o cerco econômico, comercial e financeiro imposto por Washington em 1962 constitui o principal obstáculo para a completa normalização dos vínculos.

Ainda que a administração democrata tenha anunciado em janeiro algumas medidas para aumentar as viagens e o comércio com a ilha, as disposições são ainda limitadas, enquanto permanece intacta a base jurídica que só pode ser alterada pelo Congresso para eliminar o bloqueio.

Desde o discurso sobre o Estado da União, em 20 de janeiro, Obama chamou várias vezes o Congresso a acabar com ditas sanções.

No dia 11 de setembro, o governante norte-americano renovou por mais um ano a chamada Lei de Comércio com o Inimigo, que sustenta o embargo econômico imposto a Cuba.

Não obstante, com esta ação o chefe da Casa Branca manteve sua autoridade executiva para relaxar as sanções.

Servidores públicos da chancelaria cubana têm reiterado que o chefe da Casa Branca dispõe de amplas faculdades para esvaziar aspectos vitais do bloqueio.

Para o futuro, permanecem pendentes temas bem mais complexos, alguns conceituados nocivos para a soberania do país caribenho, os quais devem ser resolvidos face à aspiração de atingir vínculos normais.

Neste sentido, figura a reivindicação pela anulação da denominada Lei de Ajuste Cubano e da política de pés secos-pés molhados, que dificulta o clima migratório entre os dois países.

De igual forma, ficam como assuntos álgidos a devolução do território ocupado pela Base Naval de Guantânamo, a eliminação das transmissões ilegais de rádio e televisão, bem como a cancelamento dos programas dirigidos a socavar o sistema e ordenamento político cubano.

Representantes de Cuba e dos Estados Unidos mostraram no dia 8 de dezembro disposição em continuar o diálogo sobre bens nacionalizados de cidadãos estadunidenses na ilha desde de 1959 e sobre os danos provocados aos cubanos pelo bloqueio econômico.

A reunião informativa em Havana sobre as compensações mútuas pendentes de solução entre ambos Estados demonstrou que é possível a negociação e o entendimento sobre a base do respeito à igualdade soberana.

Fonte: Prensa Latina

Snowden: ‘Eu fui enganado pela propaganda’

Em entrevista, Edward Snowden revela que a mesma propaganda que ele hoje tenta desarmar ofez no passado se alistar para lutar conta o ‘terrorismo’

Arundhati Roy – The Guardian

O que aconteceu em Moscou não foi uma entrevista formal. Tampouco foi um encontro secreto entre super-heróis mascarados. Fato é que John Cusack, Daniel Ellsberg (que vazou documentos do Pentágono durante a Guerra do Vietnam) e eu recebemos o cauteloso e diplomático Edward Snowden. E, infelizmente, as brincadeiras e as discussões que tiveram lugar no quarto 1001 não podem ser reproduzidas. A conferência que se deu ali não pode ser descrita em todos os seus detalhes. Na verdade, ela definitivamente não pode ser descrita. O mundo é uma centopeia que avança sobre as patas de milhões de conversas reais. E aquela certamente foi uma conversa real.

O que importava mesmo, talvez até mais do que foi conversado ali, era a atmosfera daquele quarto. Havia um Edward Snowden que, depois do 11/09, estava endossando Bush e se alistando pra Guerra do Iraque. E havia aqueles como nós que, após 9/11, tinham feito exatamente o contrário. Já era tarde para essa conversa, é claro. O Iraque foi completamente destruído. E agora o mapa do que condescendentemente chamamos de “Oriente Médio” está sendo brutalmente redesenhado (mais uma vez). E ainda assim lá estávamos nós, todos nós, conversando entre si em um hotel esquisito na Rússia.

O lobby opulento do Moscow Ritz-Carlton estava repleto de milionários bêbados, ébrios pela fortuna nova e pelas lindas mulheres jovens, meio camponesas, meio supermodels, laçadas nos braços de senhores bajuladores – gazelas em seu caminho pra fama e pra fortuna, pagando suas dívidas aos sátiros que irão carregá-las. Nos corredores, você passa por algumas brigas sérias, cantando alto e tranquilo, enquanto os garçons conduziam carrinhos com torres de comida e talheres, para dentro e para fora dos quartos. No quarto 1001, nós estávamos tão perto do Kremlin que, se você colocasse sua mão para fora da janela, poderia quase tocá-lo. Nevava lá fora. Estávamos profundamente mergulhados no inverno russo – nunca reconhecido suficientemente por seu importante papel na Segunda Guerra. Edward Snowden era muito menor do que eu imaginei. Pequeno, ágil e puro, como um gato. Ele cumprimentou Dan em êxtase e nos saudou calorosamente. “Eu sei porque você está aqui”, ele me disse, sorrindo. “Por quê?” “Para me fazer radicalizar.” Eu ri.

Nos estabelecemos nos vários bancos e cadeiras e na cama de John. O Dan e o Ed pareceram muito satisfeitos em se conhecer e tinham tanto a conversar, que até ficou difícil de se intrometer no assunto deles. Às vezes eles falavam em algum tipo de linguagem em código: “(…)TSSCI” “Não, porque, como eu disse, este não é DS, este é da NSA. Na CIA, ele é chamado COMO”. PRISEC ou PRIVAC?” (…) “TS, SI, TK, GAMMA-G(…)” etc.

Demorou um pouco até que eu me sentisse à vontade para interrompê-los. Snowden desarmou minha pergunta sobre ser fotografado segurando a bandeira americana revirando os olhos e dizendo: “Ah, cara. Não sei. Alguém simplesmente me entregou uma bandeira e tirou a foto. “E quando eu perguntei por que ele se inscreveu pra Guerra do Iraque, enquanto milhões de pessoas do mundo todo se opunham ao conflito, ele respondeu de maneira igualmente desconcertante: “Eu fui enganado pela propaganda”.

Dan falou um pouco sobre como era incomum aos americanos que atuavam no Pentágono e na Agência Nacional de Segurança [NSA] terem lido alguma coisa sobre o Excepcionalismo americano e sobre sua história de guerra. (E, depois de terem entrado, era pouco provável que o assunto lhes interessasse). Ele e o Ed tinham observado isso ao vivo, em tempo real, e ficaram horrorizados o suficiente para arriscar suas vidas e sua liberdade quando decidiram ser denunciantes. O que os dois claramente tinham em comum era uma forte e quase corpórea sensação de força moral – de certo e errado.

Um senso de justiça que, obviamente, funcionava não apenas quando eles decidiam denunciar aquilo que eles consideravam moralmente inaceitável, mas também na época em que eles se inscreveram pros seus empregos – Dan para salvar seu país do comunismo, Ed para salvá-lo do terrorismo islâmico. E o que eles fizeram, quando veio a desilusão, foi tão eletrizante e tão dramático, que passaram a ser identificados por esse único ato de coragem.

Perguntei ao Ed Snowden o que ele achava da capacidade de Washington para destruir países e sua incapacidade para vencer guerras (apesar da vigilância de massa). A pergunta foi formulada de um jeito grosseiro – algo como: “Quando foi a última vez que os EUA venceram uma guerra?” Discutimos se as sanções econômicas e a posterior invasão do Iraque poderiam ser classificadas como genocídio. Conversamos sobre o papel da CIA – que se preparava – em um mundo onde a guerra não se travava apenas entre países, mas funcionava através de guerras internas, no qual seria necessário controlar as populações com vigilância de massa. E sobre como os exércitos estavam se transformando em forças policiais para administrar os países invadidos e ocupados, enquanto a polícia – mesmo em lugares como a Índia e o Paquistão ou Ferguson, Missouri, nos Estados Unidos – estava sendo treinada para operar como exército e acabar com insurreições internas.

Ed falou por algum tempo sobre vigilância. E aqui eu vou citar coisas que ele havia dito muitas vezes antes: “Se não fizermos nada, seremos sonâmbulos em um estado de vigilância total, uma espécie de super-Estado com capacidade ilimitada para aplicar a força bruta e para saber (sobre as pessoas) – e isso é uma combinação muito perigosa. Esse é o futuro sombrio. O fato de que eles sabem tudo sobre nós e nós não sabemos nada sobre eles – porque eles são secretos, eles são privilegiados, eles são uma classe separada… são uma elite, a classe política, a classe que tem acesso aos recursos – não sabemos onde eles vivem, não sabemos o que eles fazem, nós não sabemos quem são seus amigos. Eles têm a capacidade de saber tudo sobre nós. Esse é o futuro, mas eu acho que há esperança”

Eu perguntei ao Ed se a NSA não estava apenas fingindo se irritar com suas revelações, e secretamente ficando satisfeita por ser reconhecida como essa agência onisciente que tudo vê – afinal isso ajuda a manter as pessoas com medo, fora de equilíbrio, sempre olhando por cima dos ombros e fáceis de gerenciar. Dan falou sobre como, mesmo nos EUA, ainda faltava outro 9\11 para que chegássemos em um estado policial: “Nós não vivemos em um estado policial agora, ainda não. Eu estou falando do que pode vir a acontecer. Veja bem: pessoas brancas, de classe média, com acesso a educação, como eu, não estão vivendo em um estado policial; mas as pessoas negras e pobres estão vivendo essa realidade. A repressão começa com o semi-branco, aquele do Oriente Médio, incluindo seus aliados, e daí em diante só piora. Mais um 11/09 e então teremos centenas de milhares de detenções. Pessoas do Oriente Médio ou muçulmanos serão colocados em campos de detenção ou deportados. Depois do 9/11, tivemos milhares de pessoas presas sem acusação. Mas eu estou falando do futuro. Eu estou falando sobre algo à nível dos japoneses nos EUA durante a Segunda Guerra Mundial. Eu estou falando de centenas de milhares em campos de concentração ou deportados. E a vigilância é muito relevante para isso. Eles saberão quem perseguir – os dados já foram recolhidos” (Quando ele disse isso, eu me perguntei como tudo seria diferente se Snowden não fosse branco).

Nós conversamos sobre guerra e ganância, sobre terrorismo e sobre qual seria sua definição mais precisa. Falamos sobre países, bandeiras e sobre o sentido do patriotismo. Nós conversamos sobre a opinião pública e sobre o quão inconstante poderia ser seu conceito de moralidade, tão facilmente manipulável. Não era uma conversa só de perguntas. Estávamos em uma reunião incongruente. Ole von Uexküll da Fundação Right Livelihood, na Suécia, eu e três norte-americanos problemáticos. John Cusack, que organizou tudo, vem também de uma excelente tradição – de músicos, escritores, atores, atletas que se recusam a engolir toda essa baboseira e, no entanto, são muito bem tratados.

O que será de Edward Snowden? Será que ele vai poder voltar pros EUA? Suas chances não parecem boas. O governo dos EUA, bem como ambos os principais partidos políticos – querem puni-lo pelo enorme dano que causou, na percepção deles, às políticas de segurança. (Também Chelsea Manning e os demais denunciantes). Se não for possível matar ou prender Snowden, ele tendem a usar tudo que puderem para limitar os danos que ele causou e continua a causar. Uma das formas é tentar conter, cooptar e manobrar o debate em torno das denúncias. E, em certa medida, eles conseguem fazer isso.

No debate da Segurança Pública X Vigilância de Massa que está ocorrendo nos meios de comunicação ocidentais tradicionais, o objeto de amor são os EUA. Os EUA e suas ações. Eles são morais ou imorais? Eles estão certos ou errados? São os denunciantes patriotas ou traidores americanos? Dentro dessa matriz de moralidade limitada, outros países e culturas – mesmo quando são vítimas de guerra dos norte-americanos – geralmente aparecem apenas como testemunhas no julgamento principal. Eles reforçam tanto o ultraje dos acusadores quanto a indignação da defesa.

O julgamento, quando efetuado nesses termos, serve para reforçar a ideia de que é possível existir uma superpotência moderada e moral. Será que nós não estaríamos testemunhando sua existência e ação? Sua mágoa? Sua culpa? Seus mecanismos de auto-correção? Sua mídia? Seus ativistas que não aceitam cidadãos americanos comuns (inocentes) sendo espionados por seu próprio governo? Nesses debates, que muitas vezes parecem ferozes e inteligentes, palavras como público, segurança e terrorismo são atiradas a esmo, mas elas continuam, como sempre, vagamente definidas e são usadas muito frequentemente na forma como o Estado norte-americano gostaria que fossem usadas.

É chocante que Barack Obama tenha aprovado uma “lista de morte” com 20 nomes. Mas é mesmo chocante? Que tipo de lista resumiria os milhões de mortos por todas as guerras americanas? Nesse contexto, Snowden, em seu exílio, deve permanecer estratégico e tático. Ele se encontra na posição impossível de ter de negociar os termos de sua anistia com as próprias instituições dos EUA que se sentem traídas por ele e, ao mesmo tempo, negociar os termos de sua estadia na Rússia com Vladimir Putin, não exatamente uma referência em humanitarismo. Assim as superpotências mantêm Snowden em uma posição difícil, na qual ele deve ser extremamente cuidadoso sobre como utiliza os holofotes que conquistou e o que diz publicamente.

Deixando de lado o que não pode ser dito, a conversa em torno da denúncia foi emocionante – com direito a uma boa dose de Realpolitik – atarefada, importante e cheia de juridiquês. Ela envolve espiões e caçadores de espiões, aventuras, segredos e denunciantes. É um universo, digamos, muito particular e perigoso. Que, no entanto, abriu margem para considerações políticas mais amplas, mais radicais, como a conversa que Daniel Berrigan, padre jesuíta, poeta e opositor à guerra (contemporâneo de Daniel Ellsberg) queria ter quando disse que “cada Estado-nação tende ao imperialismo – esse é o ponto”.

Fiquei contente de ver quando Snowden fez sua estréia no Twitter (ultrapassando meio milhão de seguidores em menos de um segundo) e disse: “Eu costumava trabalhar para o governo. Agora eu trabalho pro público”. O implícito nessa frase é a perspectiva de que o governo não atua em função da população. E esse é o início de uma conversa subversiva e inconveniente. Por “governo”, naturalmente, ele se refere ao governo dos EUA, seu antigo empregador. Mas o que ele quer dizer com “público”? O público norte-americano? Que parte do público dos EUA? Ele terá que decidir ao longo do caminho. Nas democracias, a separação entre um governo eleito e um “público” nunca é muito clara. A elite geralmente é fundida com o governo de forma homogênea. Visto por uma perspectiva internacional, se realmente existe tal coisa como “o público norte-americano”, seria ele um público muito privilegiado. O único “público” que eu conheço é um labirinto complicado.

Estranhamente, quando penso sobre a reunião no Moscou Ritz-Carlton, a memória que lampeja é uma imagem do Daniel Ellsberg. Dan, depois de todas essas horas de conversa, deitado de costas na cama, com os braços abertos, semelhante a um Cristo, chorando por que os EUA se transformou em  um país cujas “melhores pessoas” precisam ir pra prisão ou pro exílio. Fiquei comovida e preocupada com suas lágrimas – porque eram as lágrimas de um homem que viu a máquina de perto. Um homem que esteve lado a lado com as pessoas que a controlavam e que friamente contemplavam a idéia de aniquilar a vida na Terra. Um homem que arriscou tudo para denunciar esses absurdos. Dan conhece todos os argumentos. Ele freqüentemente usa a palavra imperialismo para descrever a história e a política externa dos EUA. E ele sabe que agora, 40 anos depois tornar públicos os documentos do Pentágono, que mesmo se esses indivíduos em específico tiverem ido embora, a máquina continua a funcionar.

As lágrimas de Daniel Ellsberg me fizeram pensar sobre o amor, sobre a perda, sobre os sonhos – e, acima de tudo, sobre o fracasso. Que tipo de amor é esse que temos por países? Algum país virá um dia a viver de acordo com os nossos sonhos? Que tipo de sonhos são estes que foram arruinados? Não seria a grandeza das grandes nações diretamente proporcional à sua capacidade de ser cruel e genocida? Não seria razoável afirmar que a altura do “sucesso” de um país geralmente acompanha as profundezas de seu fracasso moral? E o que dizer sobre o nosso fracasso? Escritores, artistas, radicais, anti-nacionais, independentes, descontentes – o que dizer sobre o fracasso da nossa imaginação? O que dizer sobre a nossa incapacidade de substituir a ideia das bandeiras e dos países por um objeto de amor menos letal? Os seres humanos parecem incapazes de viver sem guerra, mas eles também são incapazes de viver sem amor. Então a questão que se coloca é: a que devemos devotar nosso amor?

Escrever esse texto num momento em que os refugiados inundam a Europa – resultado de décadas de intervenção norte-americana e europeia no “Oriente Médio” – me faz pensar: quem é um refugiado? Edward Snowden é um refugiado? Certamente ele é. Por causa do que ele fez, ele não pode mais voltar para o lugar que ele considera seu país (embora possa continuar a viver onde ele fica mais confortável – na internet). Os refugiados de guerras no Afeganistão, no Iraque e na Síria fogem da guerra enquanto modo de vida. Mas os milhares de pessoas em países como a Índia, que estão sendo presas e mortas por esse mesmo estilo de vida, os milhões que estão sendo expulsos de suas terras e fazendas, exilados de tudo o que jamais conheceram – sua língua, sua história, a paisagem que os formou – esses não são refugiados. Afinal, enquanto sua miséria estiver contida dentro de fronteiras arbitrariamente traçadas, dentro do seu “próprio” país, então eles não serão considerados refugiados. Mas eles são refugiados. Embora, certamente, em termos numéricos, essas pessoas sejam a grande maioria no mundo atual. Infelizmente, nas imaginações limitadas por bandeiras e fronteiras, eles não fazem parte desse recorte.

Talvez o mais famoso dos refugiados desse modo de vida em guerra seja Julian Assange, o fundador e editor do WikiLeaks, que atualmente está servindo seu quarto ano consecutivo como hóspede fugitivo em um quarto da embaixada equatoriana em Londres. Até recentemente, a polícia permanecia estacionada em um pequeno lobby do lado de fora da porta da frente. Havia atiradores no telhado, com ordens para prendê-lo, alvejá-lo e arrastá-lo para fora caso ele colocasse ao menos um dedo do pé para fora da porta, o que para todos os efeitos legais é uma fronteira internacional. A embaixada equatoriana fica na rua em frente ao Harrods, a loja de departamentos mais famosa do mundo.

No dia em que conhecemos Julian, a Harrods estava cheia de frenéticos compradores de Natal. Aquela rua de Londres cheirava a opulência e a excesso, mas também a encarceramento e a medo de um Mundo Livre, com verdadeira liberdade de expressão. Naquele dia (na verdade, naquela noite) nós nos encontramos com Julian, e não fomos autorizados pela segurança a levar telefones, câmeras ou quaisquer dispositivos de gravação pro quarto. E assim, sem registro, manteremos também a conversa que ali se travou.

Apesar das probabilidades jogarem contra seu fundador e editor, o WikiLeaks continua com seu trabalho, tão fresco e despreocupado como sempre. Recentemente, ele ofereceu um prêmio de US$100.000 para qualquer um que pudesse fornecer “documentos fortes”  sobre o  Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (APT), um acordo de livre comércio entre a Europa e os Estados Unidos que visa dar a corporações multinacionais o poder de processar governos soberanos que impactarem negativamente os lucros de suas empresas. Por “atos criminosos” poderiamos incluir governos que aumentam o salário mínimo dos trabalhadores, que não são vistos reprimindo os aldeões “terroristas” que impedem o trabalho das empresas de mineração, ou, digamos,  que tem a ousadia de recusar as sementes geneticamente modificadas e patenteadas pelas corporações da Monsanto. O APT é apenas mais uma das armas, como a vigilância intrusiva ou o urânio empobrecido, que são utilizados para garantir esse modo de vida baseado na guerra..

Olhando para Julian Assange do outro lado da mesa, pálido e desgastado, sem ter tido cinco minutos de sol nos últimos 900 dias, e ainda assim se recusando a desaparecer ou capitular, como seus inimigos gostariam, eu sorri com a idéia de que ninguém pensa nele como um herói australiano ou um traidor australiano. Para seus inimigos, Assange traiu muito mais do que um país. Ele traiu a ideologia dos poderes dominantes. E, por isso, eles o odeiam ainda mais do que odeiam Edward Snowden. E isso quer dizer muita coisa.

Nos dizem, com bastante frequência, que nós estamos à beira do abismo enquanto espécie. Será possível que nossa inflada inteligência tenha superado nosso instinto de sobrevivência e que não haja mais uma estrada de volta? Nesse caso, não há mais nada a ser feito. Mas se houver algo a ser feito, então uma coisa é certa: aqueles que criaram o problema não serão os mesmos que apresentarão uma solução. Criptografar nossos e-mails pode ajudar, mas não muito. Recalibrar a nossa compreensão sobre o que significam termos como amor, como felicidade, como pátria. Recalibrar nossas prioridades.

Uma antiga floresta, uma cadeia de montanhas ou o vale de um rio são certamente mais importantes e, certamente, mais amáveis do que qualquer país jamais será. Eu poderia chorar por um vale de rio, e eu tenho feito isso. Mas por um país? Ah, cara, sei lá.

Esta é a parte final do Things That Can And Cannot Be Said, uma série de John Cusack e de Arundhati Roy. Uma versão mais longa deste artigo aparece na revista Outlook, na Índia. Arundhati Roy é autora do premiado romance The God Of Small Things. Seu mais recente trabalho de não-ficção é Capitalism: A Ghost Story


Tradução por Allan Brum

Créditos da foto: Courtesy of John Cusack

COP21 – A última chance de salvar o planeta

A indústria do petróleo, que não tem interesse em um acordo restritivo e punitivo, passou da negação do aquecimento global às pressões sobre legisladores.


Leneide Duarte-Plon, de Paris*

Adam Cohn / Flickr

Se dependesse das grandes companhias petrolíferas não somente não se falaria de aquecimento global mas a 21a Conferência da ONU pelo Clima-COP21 não chegaria ao resultado esperado por cientistas e ecologistas. A conferência se realiza no fim do ano que viu todos os recordes de temperatura serem batidos e o nível de concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera atingir um nível inédito.

O lobby do petróleo tenta agir como fez a indústria do tabaco, que durante anos ocultou os efeitos nocivos do cigarro para a saúde. O problema é que, como se sabe, os danos do aquecimento global não são apenas sobre a saúde humana. A própria vida no planeta está ameaçada se não mudarmos de modelo energético.

A indústria do petróleo e do gás não tem interesse em um acordo restritivo e punitivo. As companhias de petróleo passaram da negação pura e simples do aquecimento global às pressões sobre os legisladores em diversas instâncias mundiais.

Nos Estados Unidos, principal poluidor do planeta per capita, a indústria petrolífera gastou, em 2014, 141 milhões de dólares em lobby, segundo a ONG Center for Responsive Politics, que só leva em conta as despesas realizadas em nível federal. Num relatório da companhia americana Chevron, o aquecimento global é visto até como algo positivo “pois vai permitir a exploração do petróleo no Ártico com custos de 25% a 50% mais baixos”. Entenda-se: o degelo acelerado tem suas vantagens para a Chevron, o resto do mundo que exploda.

O carvão, o petróleo e o gás asseguram hoje 80% da produção mundial de energia primária e são responsáveis por 80% das emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa. Passar a energias limpas e renováveis é o grande desafio do século.

Sapatos do papa

A Conferência transformou o cotidiano da capital francesa. Milhares de policiais patrulham juntamente com militares para garantir a proteção dos 150 chefes de Estado, 3 mil jornalistas e milhares de participantes vindos de 195 países. O risco de novos ataques terroristas não pode ser afastado.

Na abertura da Conferência,  cada um dos 150 chefes de Estado ou de governo presentes ao Le Bourget teve três minutos de fala. Citando o poeta Victor Hugo, o presidente chinês, Xi Jinping clamou: « Diante de situações extremas é preciso encontrar soluções extremas ». Maior poluidor do planeta em termos absolutos, a China é responsável por 23,2% dos gases que provocam o efeito estufa. Os telejornais mostraram que naquele mesmo dia, em Pequim, o ar era irrespirável e a poluição formava uma névoa pesada.

Evo Morales afirmou de forma contundente: “Se continuarmos no modelo capitalista atual, a humanidade está condenada a desaparecer”. O anfitrião François Hollande ousou uma alusão às futuras guerras pela água, recurso natural ameaçado com o avanço das temperaturas: “O aquecimento global traz os conflitos como a nuvem traz a tempestade”. Ele acrescentou que os bons sentimentos e as declarações de intenção não serão suficientes. O ministro das relações exteriores Laurent Fabius, que preside a reunião de Paris, foi categórico: “As gerações futuras julgarão nossas ações”.

A presidente Dilma Rousseff denunciou em seu discurso “a ação irresponsável de uma empresa que provocou recentemente o maior desastre ambiental da história do Brasil na grande bacia hidrográfica do rio Doce”. Ela defendeu um documento final sobre o clima de cumprimento obrigatório, com revisão a cada cinco anos.

Na IVa Cúpula da Terra, em Johannesburgo, em 2002, o presidente Jacques Chirac pronunciou um discurso que até hoje é citado. « Nossa casa está pegando fogo e nós estamos olhando para outro lado », disse para denunciar a indiferença das grandes potências quanto à urgência das transformações climáticas.

O papa mais ecologista da história da Igreja – que não por acaso escolheu o nome de Francisco para homenagear o poverello de Assis – não pôde vir a Paris para a marcha pelo clima mas, da África onde se encontrava, mandou seus sapatos.

Impedidos de marchar, devido ao estado de emergência imposto depois dos atentados, os parisienses levaram seus sapatos a endereços divulgados previamente por uma ONG. Mais de 15 mil pares foram expostos na Place de la République toda a manhã de domingo, 29 de novembro, véspera da abertura da COP-21. O papa enviou seu par pelo cardeal brasileiro Cláudio Hummes. As atrizes Vanessa Paradis e Marion Cotillard, também mandaram os seus. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon e milhares de franceses anônimos atapetaram a praça com seus sapatos.

Os militantes formaram uma cadeia humana para ligar a Place de la République até a Place de la Nation. O dispositivo policial era impressionante. Além de zelar pelos manifestantes, os policiais cobriam o Boulevard Voltaire para proteger os chefes de Estado que iam e vinham a caminho do Bataclan.

Altar laico

Durante todo o dia de domingo, diversos chefes de Estado foram se recolher diante do Bataclan, onde morreu a maior parte dos 130 assassinados nos atentados da fatídica sexta-feira, 13 de novembro, no pior atentado terrorista que a capital já viu.

Vindo diretamente do aeroporto, Obama, acompanhado de François Hollande, foi depositar uma rosa no local que se tornou um verdadeiro altar laico, ponto de peregrinação de parisienses e visitantes.

No meio da tarde de domingo, manifestantes anarquistas e Black Blocks fizeram uma aparição relâmpago na Place de la République. Foram reprimidos pela polícia mas responderam aos jatos de água e bombas de gás lacrimogêneo jogando as velas e objetos que homenageiam os mortos no atentado e até hoje estão em torno da estátua que representa a república. Mais de uma centena de pessoas foram detidas.

Apesar de limitada em seus movimentos e manifestações de rua, a sociedade civil não vai ficar fora do encontro que termina dia 11 de dezembro. Haverá 227 encontros e 187 debates e colóquios à margem dos trabalhos da COP21, além de 65 projetos culturais.

Todos os países do mundo têm agora na COP21 a oportunidade de frear o ritmo do aquecimento global, que se ultrapassar 2°C em relação à temperatura do início da era industrial pode ser fatal  para a vida no planeta azul.

* Leneide Duarte-Plon é jornalista, trabalha em Paris e é co-autora, com Clarisse Meireles, da biografia de frei Tito de Alencar, Um homem torturado-Nos passos de frei Tito de Alencar.

Das desigualdades à barbárie terrorista

A barbárie de grupos terroristas não se justifica, assim como a prepotência do capital: este descarta e empobrece populações pela produção de crises.


José Carlos Peliano*

 Présidence de la République

O Oriente Médio passou a não fazer parte do mapa mundial de referência desde o advento do capitalismo. Livros de história, sim, aqui e ali tratavam de descrever e comentar o papel das antigas civilizações que por séculos viveram. A nova sociedade ocidental que então surgira apagara quase por completo o passado oriental.

 Legados imemoriais, no entanto, da escrita árabe, da descoberta do zero, da engenharia das pirâmides egípcias, das misturas para embalsamento, entre outros importantes achados, foram fundamentais para a evolução da cultura e do conhecimento humano.

 O mesmo se deu com a China e a África cujas culturas forneceram relevantes contribuições para a humanidade. O ábaco foi precursor do caminho tecnológico até o computador e a pólvora o elemento sintético primitivo das explosões não naturais, ambas as descobertas vindas da China.

 Da África nasceram, por exemplo, as raízes do samba brasileiro, a religião animista vinculada à natureza, o candomblé, das comidas e especiarias da culinária e da beleza, exuberância e força da raça negra.

 Síria, Líbano e Iraque, bem como todos os demais povos da região oriental do globo, igualmente participaram da criação da árvore de cultura, conhecimento e saber que o mundo moderno usufrui pelos quatro cantos do planeta.

 Mas a energia, a força, o poder e o domínio da máquina, do sistema de máquinas e dos equipamentos, que os fazem funcionar e operam, vieram para ficar, dar novo impulso à imensa trupe mundial e com isso fazer esquecer por incorporar com outras roupagens o legado dos antigos povos orientais.

 As tradições culturais e religiosas desses povos ainda permeiam e permanecem na grande maioria dos países, ao contrário do Ocidente cuja maioria católica e protestante, hoje acompanhada por credos evangélicos, se adaptaram e convivem com o capitalismo contemporâneo.

 Essa diferenciação marcante dos desenvolvimentos tecnológicos e materiais entre Ocidente e Oriente, coadjuvada pela distância implacável das religiões de ambos os lados, as quais habitam e conformam o comportamento dos povos respectivos, dão cara e forma às desigualdades abismais existentes entre os dois lados do globo terrestre.

 Não que capitais, cidades e metrópoles do Oriente não desfrutem de parte das conquistas materiais e tecnológicas do desenvolvimento capitalista, nem que outras regiões do Ocidente não comportem áreas urbanas e rurais menos desenvolvidas, estagnadas, pobres e carentes.

 O que passa é que o capitalismo é, por essência, um sistema que nasce, se mantém e se expande se apropriando das diferenças e criando mais diferenças. Ele não veio para igualar, democratizar, socializar, tampouco fazer justiça. Ele faz diferença!

 A justiça dele é a do lucro e, por consequência, do excedente captado em todo o tipo de produção. A existência do lucro já distingue a diferença entre os donos do capital e os trabalhadores, já aponta a diferença de cidadãos na sociedade, os que mandam e os que cumprem.

 Direitos iguais apenas na retórica, enquanto sob o domínio das relações capitalistas de produção, os direitos estão sob a égide do capital. Não foi por acaso que o capitalismo se apropriou, transformou e aperfeiçoou os sistemas originários de castas e assemelhados. A pirâmide social dos povos antigos serviu de trampolim para a implantação da ordem capitalista.

 Hoje em dia manda a meritocracia e com ela as classificações do trabalho em ocupações, cargos e salários. Ordenamentos estes que se prolongam na sociedade, que os legitima, em ocupações, profissões, classes sociais e preconceitos.

 Os preceitos constitucionais igualmente se baseiam e se moldam nessas diferenças submetidas aos cidadãos na sociedade e a justiça prevalecente vem daí. A justiça deve ser comum para todos, embora mais comum para os sem posição social de destaque. Ao restante as regalias e exceções.

 A guerra do Iraque e da Síria, de memória recente, são exemplos privilegiados dos interesses capitalistas em jogo. No Iraque tratou-se de uma questão econômica: não perder a exploração e a distribuição dos poços de petróleo a cargo de empresas americanas.

 Daí a versão mentirosa da posse de armas nucleares e químicas pelo Iraque, apresentada pelo governo americano, ter justificado a derrubada do regime.

 Na Síria trata-se de uma questão de poder hegemônico dos Estados Unidos, que tenta recuperar esse papel em provável coalizão internacional com França, Inglaterra e recentemente a Rússia.

 Os bombardeios contra os rebeldes realizados por esses países buscam retomar o poder na região junto à presidência síria. De fato, justificam eles as ações bélicas para ˜salvar vidas e manter a paz na região˜.

 O conflito de interesses da região do Oriente Médio, econômicos, populacionais e religiosos, há anos provocando atentados, extermínios, guerras e emigração massiva, serve de palco para a ação de guerra dos países ocidentais aliados.

 E é no cerne desse conflito generalizado na região oriental onde as condições mais cruéis de vida e sobrevivência de vários grupos étnicos se veem às voltas com o surgimento das rebeliões de grupos terroristas, notadamente ao norte da Síria e do Iraque, onde se distribui células do Exército Islâmico.

 O acirramento dos conflitos e interesses dificulta cada vez mais uma solução acordada. O estado crescente de desigualdades gerado e mantido na região, onde violência, doenças, miséria e fome abundam, provoca na mesma intensidade o surgimento de focos intensos de terrorismo generalizado.

 Os dois ataques à França neste ano por terroristas armados ligados às facções mais radicais mostram a retaliação às ações belicosas da França na região síria. Por que a França? Provavelmente por ser o país mais vulnerável dos demais da coalizão de forças. Além de acesso geográfico mais fácil e rápido e território onde vive grande contingente de pessoas de origem árabe, africana e muçulmana.

 Não faz parte da ideologia do capital sentar à mesa de negociações para redução das desigualdades, pois ele vive e sobrevive delas. Não faz parte dos representantes das democracias ocidentais aceitarem acordos menos restritivos às dificuldades sociais e econômicas dos povos mais pobres que não sejam sob as regras capitalistas rígidas.

 Igualmente não aceitam os povos mais pobres, sejam orientais e africanos, serem secularmente subjugados política, social e economicamente abrindo mão de suas tradições, hábitos e costumes de trabalho, convivência e vida.

 A barbárie de grupos terroristas não se justifica, assim como a prepotência do capital. Este descarta e empobrece populações pelo seu modus operandi e pela produção de crises periódicas do sistema; aqueles exterminam inocentes sem piedade sob a proteção de uma ˜lei primitiva e abusiva˜, a Sharia, onde quer que escolham focos de ataque.

 Já está mais que na hora de a civilização cuidar mais de sua sobrevivência em novos termos. Do jeito que está medo, insegurança, horror, terror e morte vão continuar a caminhar juntos. O desfrute e a celebração da vida certamente não passa por aí. Onde está o Deus ou os deuses das religiões? Uma aproximação entre os chefes religiosos de todos os credos pode ajudar a encontrar uma saída.

 *colaborador da Carta Maior.

Cuba sintetiza o anseio de soberania da América Latina

A hostilidade econômica e as sabotagens armadas não fizeram os cubanos se curvarem, ou repensarem seu vigor latino-americanista.


Por: Darío Pignotti

Quando Francisco, um papa que toma mate e fala sobre o “Che”, visitou Fidel Castro há duas semanas, e conversou com o único líder que protagonizou vários dos momentos mais intensos da região durante a segunda metade do Século XX, a América Latina viveu um desses acontecimentos destinados a entrar para a História. O encontro de Fidel com o papa Jorge Bergoglio, no contexto da reaproximação entre Havana e Washington, foi um episódio comparável com a Cúpula das Américas de 2005, quando Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez e Néstor Kirchner acabaram com a utopia regressiva da ALCA, a proposta de George W. Bush e seus capangas, o mexicano Vicente Fox e o colombiano Álvaro Uribe.

Ambos os acontecimentos indicam o fracasso das políticas hemisféricas da Casa Branca e mostram, na prática, o potencial político de uma região com os anseios se soberania não alcançados. Épica e complexa, a Revolução Cubana pode ser vista por diferentes ângulos, como o da construção de um sistema político original, e imperfeito, baseado no poder popular. Ou desde a perspectiva das mudanças estruturais, como a nacionalização dos bens de produção ou as políticas que garantiram direitos educativos e sanitários para toda a população.

Mas o aspecto mais interessantes para a análise é o de compreender a Revolução a partir de sua identidade nacional e latino-americana.

América Latina

Desde os Anos 60, a soberania intransigente da ilha foi castigada pelos Estados Unidos, inclusive antes de o bloqueio ser formalizado, durante o governo de John Kennedy, em 1962.

Um memorando de 1960, desclassificado nos Anos 90, indica a estratégia de atacar a população para minar a adesão ao governo.

“A maioria dos cubanos apoia Castro, não existe oposição política efetiva, a única forma de reunir o apoio necessário é através do desencanto surgido das dificuldades econômicas da população, para conseguir esse objetivo, deve-se usar qualquer meio”, recomenda o texto apresentado por Dwigth Eisenhower.

Desde então, a estratégia de “contenção do comunismo” e a luta dentro das “fronteiras ideológicas”, ditada por Washington contra o hemisfério foi justificada pelo argumento de evitar que surgissem outras Cubas na América Latina. Esse fantasma foi invocado pelos generais que derrubaram João Goulart no Brasil em 1964, e Salvador Allende, em 1973, um ano depois que de Fidel se hospedar no país durante quase um mês.

Cuba, o modelo de socialismo tipicamente latino-americano, como definiu o herói Ramón Labañino Salazar em entrevista à Carta Maior, foi um tema onipresente no debate latino-americano dos Anos 60 e 70.

O pretexto da Guerra Fria e o combate ideológico caíram junto com o Muro de Berlim, em 1989. Mas, em vez disso atenuar o bloqueio, o tornou mais feroz, através das leis Torricelli, de 1992, no governo republicano de George Bush, e a lei Helms Burton, de 1996, promulgada pelo democrata Bill Clinton. A hostilidade norte-americana era uma política de Estado, independente do partido que governava.

Washington e (principalmente) a ultradireita de Miami estavam eufóricos, imaginando que o colapso da Revolução era iminente, assim como a restauração de um regime neocolonial, no mesmo estilo do que imperava durante a ditadura de Fulgêncio Batista, época em que os mafiosos ítalo-americanos controlavam hotéis e cabarés na capital cubana.

Posteriormente, nos Anos 90 os ataques terroristas e a guerra desinformativa, orquestradas na Flórida com o aparato de propaganda centrado no Miami Herald, se fizeram mais agressivas.

Um jornalista desse diário, Andres Hoppenheimer, chegou a publicar, com ar profético, um livro que se transformou em um grande “faz me rir”, devido ao título “A última hora de Castro”. Em setembro deste ano, o mesmo colunista do Herald e da CNN criticou Francisco por ter cumprimentado Fidel.

A hostilidade econômica e as sabotagens armadas não fizeram os cubanos se curvarem, ou repensarem seu vigor latino-americanista.

Em 1990, Fidel e Lula criaram o Foro de São Paulo para rebater os cantos da sereia sobre o fim das ideologias e da esquerda.

Visionário, Fidel Castro foi pessoalmente até o aeroporto da capital cubana, em dezembro de 1994, para receber o então ainda coronel Hugo Chávez, recém saído da prisão após liderar um levante contra o governo neoliberal de Carlos Andrés Pérez, o presidente venezuelano que protagonizou a ofensiva privatizadora em seu país, assim como Fernando Henrique Cardoso no Brasil, Carlos Menem na Argentina e Carlos Salinas no México.

CELAC

Na primeira década do Século XXI, a diplomacia subserviente acabou, graças à guinada dada pelo Mercosul reinventado por Lula e Kirchner, e também pela criação da Unasul. Para os governos progressistas, acabar com o isolamento cubano e revogar a expulsão do país – medida adotada nos Anos 60 – foi uma das prioridades.

Um passo decisivo para isso dado por Lula, em 2008, quando organizou um encontro de presidentes latino-americanos, com a presença de Raúl Castro, numa cúpula na qual foi criada a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (CELAC), uma espécie de OEA, mas sem a presença dos Estados Unidos e do Canadá.

A construção do Porto de Mariel, com financiamento do BNDES e inaugurado em 2014 pela presidenta Dilma, foi outro movimento brasileiro contra o isolamento de Cuba. Certamente, Washington não aprovou a aproximação concreta entre Brasília e Havana.

Um ano depois, Dilma e vários colegas latino-americanos anunciaram que não participariam novamente da Cúpula das Américas se os Estados Unidos deixassem de fora o líder cubano Raúl Castro – encontro que finalmente aconteceu na cúpula de abril deste ano, no Panamá.

Tradução: Victor Farinelli

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“Jovens, façam política”

“Jovens, façam política”

20 nov

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Por: Darío Pignotti, enviado especial a Medellín

Ricardo Stuckert/Instituto Lula

No discurso de Lula em Medellín, na noite da terça-feira (10/11), já não havia mais lugares disponíveis no auditório da Praça Maior. As centenas de jovens universitários que não puderam ingressar acompanharam sua participação em telas gigantes instaladas em um anfiteatro, numa suave noite da cidade encravada entre serras de vegetação espessa.

“Vejam o que está ocorrendo na América Latina, na América do Sul, estamos sentindo um certo cheiro de retrocesso, porque tem muita gente que não aceita as políticas que permitem a ascensão social, muita gente incomodada porque a filha da empregada doméstica se formou em medicina (…) essas coisas incomodam as elites da Argentina, do Uruguai, do Chile, de vários países sul-americanos. No Brasil, os aeroportos estão cheios, e há pessoas indignadas porque dizem que eles agora parecem rodoviárias”.

O ex-mandatário brasileiro deu seu discurso na abertura da Conferência anual do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO), numa cerimônia encabeçada pelo diretor-geral da entidade, o doutor Pablo Gentili.

“Jovens, façam política”

Em seu discurso, Lula pediu aos jovens colombianos que não se deixem seduzir pela ladainha dos meios de comunicação que estimulam a despolitização e a ojeriza às ações coletivas, como as organizações sociais e sindicais. “Queridos rapazes e garotas, não acreditem nas bobagens que a imprensa diz sobre o nosso continente. A maior oposição aos governos progressistas hoje é a imprensa do nosso continente. Essa imprensa fomenta a despolitização, e o que vocês devem fazer é rejeitar isso, não cair na conversa da negação da política. Quando nos negamos a fazer política deixamos que outros façam, e o que vem depois é muito pior. Tenham cuidado com os que falam contra a política. Não existe nenhuma saída fora da política”.

“Quando nenhum político servir para nada, quando houver desconfiança em todos os políticos, ainda restará uma oportunidade, a oportunidade de vocês ingressarem na política, porque vocês, com 20 e 25 anos, são os que governarão amanhã. A desgraça de quem não gosta da política é que será governado por quem gosta de fazer política”.

“Mujica está com 80 anos e eu com 70, somos parte do século passado, vocês são o Século XXI. Por favor, tenham coragem, sejam perseverantes, assumam o controle dos partidos, dos movimentos sociais, voltemos à paixão dos Anos 60”.

“Se um ex-preso político como Mujica chegou à presidência, se um operário como eu chegou à presidência, se um índio como Evo chegou. Então, façam essa pergunta: por que vocês mesmos não podem chegar?”, apontou o líder brasileiro, e os jovens responderam com um sonoro “olê, olê, olê, olá, Lula, Lula…”.

No auditório, havia centenas de intelectuais latino-americanos, entre eles, alguns que foram premiados ontem por sua contribuição com o pensamento crítico, como os economistas Theotônio dos Santos, brasileiro, e Aldo Ferrer, argentino.

“Devemos ter paixão pela América do Sul, paixão pela integração, a mesma paixão que os nossos libertadores tiveram no Século XIX. A integração não é somente comercial, a integração necessita da participação da sociedade, de mais confiança uns nos outros, de combater o clima de desconfiança”, enfatizou Lula.

E mencionou os subsídios da intelectualidade de esquerda na formulação dos programas do PT, nos quatro governos do partido no Brasil.

Tradução: Victor Farinelli

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Estados Unidos: hora do despertar?

Estados Unidos: hora do despertar?

20 nov

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Milhares de protestos realizados pelos universitários norte-americanos denunciaram o racismo e a falta de ação das autoridades.


Por: David Brooks, para o La Jornada, do México
reprodução

Na semana passada, aconteceu um protesto iniciado por alguns estudantes que denunciaram não só a constante e longa história de racismo na Universidade de Missouri, mas também a falta de respostas das autoridades, e exigiram a renúncia do reitor. A mobilização cresceu rapidamente, com diversas agrupações estudantis, professores e outras organizações (de todas as cores) se incorporando aos protestos. No final, o presidente da universidade, Tim Wolfe, renunciou.

“Viva os estudantes/ jardim de nossa alegria/ são aves que não se assustam/ com animais nem policiais”. De repente, os estudantes despertaram, provocando sismos.

Em apenas uma semana, vários reitores e acadêmicos se viram obrigados a renunciar aos seus postos, a convocar reuniões de urgência e se comprometer com medidas contra o racismo, para responder aos milhares de protestos realizados pelos universitários que denunciaram a discriminação e a falta de ação das autoridades acadêmicas.

Embora os jovens tenham sido a força motriz do novo movimento nacional, conhecido como Black Lives Matter (“as vidas dos negros importam”), detonado inicialmente pela morte de um jovem afroestadunidense por obra de policiais brancos na cidade de Ferguson, em Missouri, e que foi crescendo com a ira coletiva de vários casos parecidos nos meses seguintes, as universidades não haviam sido o epicentro destas mobilizações.

Mas, na semana passada, e num lugar não tão longe de Ferguson – no mesmo estado de Missouri, aliás –, começaram os protestos, graças a um grupo de estudantes que buscou denunciar não só a constante e longa história de racismo na Universidade de Missouri, mas também a falta de resposta das autoridades. Evidentemente, a ação pedia a renúncia do reitor, e cresceu rapidamente, quando diversas agrupações estudantis, professores e outras organizações (de todas as cores) se incorporaram, mas só conseguiram atenção nacional quando vários dos jogadores do time de futebol americano ameaçaram boicotar partidas e apoiaram as demandas. A mobilização adquiriu dimensões ainda maiores quando receberam o apoio do treinador do time. Todos indicaram que estavam em greve até que o presidente fosse destituído.

Finalmente, o presidente da universidade, Tim Wolfe, renunciou, e pouco depois foi a vez do reitor, R. Bowen Loftin, anunciar que deixará seu cargo no final deste ano. Quando a notícia se difundiu, centenas de estudantes que estavam congregados com professores e outros simpatizantes expressaram sua felicidade, se abraçaram e dançaram. Imediatamente depois, começou a se discutir se com isso a mobilização já havia triunfado, e o consenso foi: “este é um movimento, não um momento”.

As equipes de futebol americano e basquete das grandes universidades estadunidenses não só são importantes para projetar a imagem dessas instituições, mas são também um grande negócio que gera milhões de dólares em contratos de publicidade e de televisão. Aliás, se a equipe da Universidade de Missouri (conhecidos como “os Mizzou”) não disputa uma partida, a instituição estaria obrigada a pagar um milhão de dólares ao time adversário, segundo os contratos estabelecidos pelas ligas acadêmicas.

Em outras universidades, inicialmente em solidariedade com seus companheiros de Missouri, começaram a brotar durante a semana vários outros protestos, nas diversas esquinas do país. Na Universidade de Yale, estudantes repudiaram as tentativas de justificar uma festa de Halloween com disfarces de estereótipos raciais. Uma manifestação com cerca de mil jovens, da pequena Ithaca College, em Nova York, provocou um resultado imediato quando os administradores nomearam a um funcionário responsável por garantir a diversidade. Poucos dias depois, a decana da Claremont McKenna College, na Califórnia – uma prestigiosa universidade privada –, renunciou devido às queixas de discriminação racial. Na exclusivíssima Smith College, em Massachusetts, cerca de cem estudantes encabeçaram protestos em solidariedade com Ithaca e Missouri. Estudantes afroestadunidenses ocuparam o escritório do reitor da universidade Virginia Commonwealth. Na elitista universidade Amherst College, em Massachusetts, estudantes denunciaram o racismo e a xenofobia dentro e fora da universidade, e divulgaram uma enorme lista de demandas, entre elas abordar o espinhoso tema de que o nome da universidade e a cidade de Amherst homenageiam Jeffrey Amherst, um oficial do exército inglês que propôs uma guerra biológica contra os indígenas do país, contaminando-os com cobertores infectados com varíola – o que ocorreu no Século XVIII.

Na sexta-feira passada (13/11), cerca de estudantes interromperam a inauguração de um complexo esportivo na Universidade Northtexto_detalhe (NU), marchando e cantando: “da NU à Mizzou, todos vocês (negros) importam”, e obrigaram os administradores e seus convidados especiais a escutarem suas demandas e a adotar mais medidas contra o racismo.

Haifu Osumare, professor de estudos afroestadunidenses da Universidade da Califórnia, comentou ao The Guardian que todas essas reações estão vinculadas ao movimento Black Lives Matter e afirmou: “creio que veremos um novo movimento estudantil. Há uma história de ativismo em torno aos direitos civis e esses temas nunca perderam seu apelo”.

As redes sociais vêm sendo o circuito de informação instantânea entre estudantes, em diversas universidades de todo o país, uma ferramenta que facilita o contágio desta onda de protestos. Um twit com a hashtag #BlackOnCampus foi difundido pelos ativistas na Universidade de Missouri, pedindo que contassem suas experiências sobre ser afroestadunidense nas universidades, e pouco depois já circulavam quase 100 mil respostas de todo o país. Elas expressavam o isolamento, incidentes violentos de racismo, e também micro ofensas cotidianas, múltiplas formas de discriminação aberta e sutil.

É notável que essas ações e expressões, em grande medida sejam multirraciais, com a participação direta de jovens e professores latinos, asiáticos e também brancos. E que os ativistas insistem em que não se trata somente de suas experiências dentro das universidades, mas que as vinculam com as estruturas de racismo e de opressão na sociedade estadunidense, e relacionam seus protestos com as do movimento Black Lives Matter e outros que se desenvolvem fora dos muros universitários.

Oito anos depois de alguns terem proclamado a eleição de Barack Obama como o início de uma era onde os Estados Unidos passavam a ser uma sociedade onde o racismo estava sendo superado, os jovens surgem para lembrar que isso, como acontece com qualquer injustiça social, não se soluciona com um político na cúpula, mas com um movimento nas ruas.

Tradução: Victor Farinelli

Carta Maior

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Guerra contra o Estado Islâmico vai ser longa e em diversas frentes

Guerra contra o Estado Islâmico vai ser longa e em diversas frentes

20 nov

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Hezbollah, Estados Unidos, Rússia, Irã, França, Síria e Turquia ficaram surpreendentemente do mesmo lado contra o inimigo comum.


 Por: Leneide Duarte-Plon, de Paris*
Ministère de La Défense

A França declarou a guerra a um Estado (o Estado Islâmico ou Daech nas iniciais em árabe) que não é reconhecido como tal nem pela diplomacia francesa nem pela ONU. Os políticos franceses se referem sempre a ele como o « autoproclamado Estado Islâmico » para sublinhar sua ilegitimidade. Acentuando o ineditismo do momento, os atos de terrorismo classificados por François Hollande como « atos de guerra » cometidos por um « exército de terroristas » foram desencadeados por cidadãos franceses em sua maioria, atuando em território francês e pela primeira vez em ataques kamikazes.

Isso embaralha profundamente o quadro da declaração de guerra, levando diversos analistas políticos e juristas a indagar se os conflitos internacionais não mudaram profundamente de natureza. O primeiro-ministro Manuel Valls disse que essa é uma nova forma de guerra e vai durar por muitos anos. Segundo ele, um ataque com armas químicas ou bacteriológicas não está excluído, pois o Estado Islâmico já utilizou-as na Síria. Sabe-se que Daech tem enorme capacidade destrutiva e formou grupos combatentes em outros continentes, principalmente em diversos países da África.

No plano interno, François Hollande confiscou o discurso securitário da direita e do Front National, tomando a iniciativa de levar à votação antigas propostas de Sarkozy e Marine Le Pen. Satisfez uma opinião pública chocada com os atentados e tirou o tapete dos adversários.

Na quinta-feira, dia 19, a Assembleia Legislativa prolongou por mais três meses o estado de emergência e as pesquisas de opinião mostraram que 73% dos franceses pensam que o presidente esteve à altura dos acontecimentos dramáticos.

Em pouco tempo de existência, o Estado Islâmico, formado em sua origem por antigos militares e quadros próximos de Saddam Hussein ligados ao salafismo, já reivindicou muitos atentados. Os últimos atingiram em apenas 15 dias um avião russo, mataram dezenas de pessoas ligadas ao Hezbollah, em Beirute, e semearam o terror em Paris.

Alguns jornalistas franceses se dedicaram a cotejar o discurso de Bush após o 11 de setembro com o de Hollande depois dos atentados. Encontraram a mesma retórica. Hollande disse solene : « Fomos atacados por um exército jihadista que nos combate porque a França é um país de liberdade, porque somos o país dos direitos humanos ». Bush garantira que o terrorismo atacou os Estados Unidos « porque somos a casa e os defensores da liberdade ».

Nas redes sociais, muitos franceses preferiram repetir essa ideia de que são atacados por suas qualidades, não pelos efeitos deletérios de guerras em que o país se engajou e de uma diplomacia em que a venda de armas a países como o Egito e a Arábia Saudita é uma lógica que prima sobre a defesa dos direitos humanos.

A França está em guerra?

Por enxergar na declaração de guerra uma situação inédita e mesmo paradoxal, o jornal Libération deu espaço ao filósofo Etienne Balibar e ao cientista político Bertrand Badie para responderem à pergunta  « A França está em guerra ? ». O primeiro responde que sim e o segundo que não.

Etienne Balibar  afirma « nós estamos na guerra ». A guerra atual é, segundo ele, o fruto das invasões e intervenções feitas no Oriente Médio após o 11 de setembro, das rivalidades regionais, das minorias oprimidas, das fronteiras traçadas abitrariamente desde o fim do império otomano em 1924, dos recursos naturais expropriados e dos contratos de armamentos.

O filósofo assinala a barbárie instalada pelo Estado Islâmico mas não deixa de lembrar que outras barbáries « aparentemente mais racionais proliferam também, como a guerra dos drones do presidente Obama ». Ele diz estar provado que para cada terrorista assassinado pelos drones, nove civis são mortos.

« Nessa guerra nômade, indefinida, polimorfa, dissimétrica, as populações das duas margens do Mediterrâneo são reféns. Tanto as vítimas do atentados de Paris, quanto as dos atentados de Madri, Londres, Moscou, Tunis, Ankara e Beirute são reféns. Os refugiados que procuram a Europa em busca de asilo, morrendo muitas vezes no mar, também são reféns. Os kurdos metralhados pelo exército turco são reféns. Todos os cidadãos dos países árabes são reféns, presos entre o terror de Estado, o jihadismo fanático e os bombardeios estrangeiros ».

Para Bertrand Badie, a França não deveria se envolver numa história regional, fruto da desagregação de Estados do Oriente Médio, Síria e Iraque. Deste último, invado por uma coalizão ocidental em 2003, da qual a França se recusou a fazer parte, os Estados Unidos se retiraram militarmente em 2011. Mas com a volta da França à Otan, em 2009, o país começou a impor nova imagem também naquela região e, segundo Badie, hoje se tornou um alvo mais simbólico que os EUA.

Paris alia-se a Putin

Depois de acusar claramente os russos de bombardearem apenas o « Exército sírio livre » que combate Al Assad e não os objetivos do Estado Islâmico, a diplomacia francesa encontrou esta semana um terreno de entendimento com Putin. Essa aproximação se deu ao mesmo tempo em que o presidente russo reconheceu que o avião que caiu no Sinai foi vítima de uma bomba e anunciou que vai perseguir sem trégua os autores do atentado.

Até então russos e franceses estavam profundamente divididos sobre o apoio a Assad, protegido de Moscou, visto por Paris como carrasco de seu povo, sem condições de continuar à frente de um Estado que deve ser totalmente reconstruído depois da vitória contra Daech.

Com a aproximação franco-russa, o Estado Islâmico vê o cerco se fechar contra ele. Estados Unidos, Rússia, Irã, Hezbollah, França, Síria e Turquia ficaram surpreendentemente do mesmo lado contra o inimigo comum, que na véspera dos atentados de Paris atacou com kamikazes um dos bairros de Beirute em que o Hezbollah tem mais influência, cerca de 40 mortos. Apesar da carnificina, o ataque ocupou pequeno espaço na mídia mundial. « Por acaso uma vítima árabe vale menos que uma vítima francesa ? », perguntava à TV francesa uma jornalista libanesa defensora dos direitos humanos.

Vai ser difícil para o Estado Islâmico vencer aliados desse calibre, apontados pelo discurso djihadista como uma a nova cruzada contra o Islã. Mas antes de ser derrotado, ele tem condições de preparar atentados que sobem sempre uma escala na capacidade de destruição.

Herança colonial da França

Essa guerra assimétrica em que os franceses combatem um inimigo estruturado de forma totalmente nova remete imediatamente à herança colonial do país, como lembrou o poeta sírio Adonis. Ele pensa que esses jovens que se entregam a esse ódio contra a França são parte da « memória da colonização, das feridas argelinas ».

Basta conhecer um pouco a história da guerra da Argélia para entender a alusão a um conflito em que a França perdeu um território colonial mas também perdeu sua alma ao ceder à tentação da tortura e das execuções sumárias a fim de vencer os independentistas argelinos. Depois dos atentados de janeiro, o primeiro-ministro chegou a reconhecer uma forma de apartheid vivida por algumas populações na sociedade francesa.

Esses jovens tentados hoje pelo djihad são fruto de rancores identitários que se juntam a uma visão simplista e binária do mundo. Aderem a uma ideologia que lhes promete existir, dando sentido a existências fraturadas psicológica e socialmente.

Em entrevista ao jornal Le Monde, o psicanalista Fehti Benslama, que utiliza a psicanálise para entender o mundo islâmico, apontou o que sustenta o fenômeno do mártir do atentado suicida :

« Ele quer sobreviver ao desaparecer. Para o candidato ao martírio, não é um suicídio mas um autosacrifício, uma transferência pelo ideal absoluto para a imortalidade”.

* Leneide Duarte-Plon é jornalista, trabalha em Paris e é co-autora, com Clarisse Meireles, da biografia de frei Tito de Alencar, Um homem torturado-Nos passos de frei Tito de Alencar.

Créditos da foto: Ministère de La Défense

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Barack Obama – Bloqueio- Cuba

Barack Obama – Bloqueio- Cuba

13 nov

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Sign of Credit Agricole Bank, is seen in Nice, southeastern France, Wednesday, Sept. 14, 2011. Moody's on Wednesday downgraded the credit ratings of French banks Societe Generale and Credit Agricole following a period of huge volatility in the markets as investors fretted about their potential exposure to the debts of Greece. (AP Photo/Lionel Cironneau )
A pesar de las últimas medidas, el gobierno estadounidense continúa la persecución financiera contra Cuba, como demuestra la última multa al banco francés Crédit Agricole. Foto: AFP

El 28 de septiembre del 2015, en su discurso en la Asamblea General de las Naciones Unidas, el presidente Obama hizo una constatación lúcida sobre la política exterior de Estados Unidos hacia Cuba:

“Durante 50 años, Estados Unidos aplicó una política hacia Cuba que fracasó en mejorar la vida del pueblo cubano. Hemos optado por un cambio. Todavía tenemos diferencias con el Gobierno cubano. Seguiremos defendiendo los derechos humanos. Pero abordamos ahora es­tas cuestiones mediante relaciones diplomáticas, un comercio en alza y lazos entre los pueblos. Mientras estos contactos se fortalecen día a día, estoy convencido de que nuestro Congreso levantará inevitablemente un embargo que ya no debería existir”.

Estas palabras del Presidente de Estados Unidos fueron saludadas calurosamente con nutridos aplausos en las Naciones Unidas. En efecto, las medidas hostiles impuestas a la Isla desde hace más de medio siglo son anacrónicas, crueles e ineficaces. Afectan a las categorías más vulnerables de la población y constituyen el principal obstáculo al desarrollo del país. Del mismo modo, la brutalidad de las sanciones ha aislado a Washington en la escena internacional donde hasta sus más fieles aliados exigen desde hace varias décadas el levantamiento de este estado de sitio.

No obstante, las declaraciones de buena voluntad del presidente Obama, oficialmente favorable a la supresión de las sanciones económicas, no van seguidas de actos. Peor aún, la Casa Blanca sigue aplicando con una absoluta severidad su política hostil, incluso en sus aspectos extraterritoriales, mofándose de las reglas elementales del derecho internacional.

Así, Crédit Agricole (CA), un banco francés, acaba de ser condenado a una multa de 694 millones de euros en Estados Unidos por realizar, entre otros, transacciones en dólares con Cuba. Se trata de la cuarta multa más importante impuesta a una institución financiera por Washington. CA está acusado de violar la Inter­national Emergency Economic Powers Act, ley federal estadounidense de 1977 que permite al presidente limitar los intercambios con algunas naciones. Frente a las amenazas de cerrar todas sus actividades en territorio estadounidense, el banco francés no tuvo más remedio que aceptar la sanción.

En el 2014, BNP Paribas tuvo que pagar la suma astronómica de 6 500 millones de euros a Washington por mantener relaciones financieras con La Habana. No obstante, Crédit Agricole y BNP Paribas respetaron escrupulosamente la legislación francesa, el derecho europeo y el derecho internacional.

Estas entidades no co­metieron ninguna ilegalidad en absoluto. Am­bas fueron víctimas, como otras muchas empresas mundiales, de la aplicación extraterritorial —y por consiguiente ilegal— de las sanciones económicas de Estados Unidos contra Cuba. En efecto, una ley nacional no puede aplicarse fuera del territorio del país. Así, otra vez, Washington ataca de modo arbitrario los intereses franceses.

Es importante subrayar que es el presidente Obama y no el Congreso quien tomó esa decisión, en singular contradicción con el discurso ante las Naciones Unidas de optar por un enfoque basado en el diálogo, el entendimiento cordial y el respeto del derecho internacional.
No es la única contradicción del inquilino de la Casa Blanca. En efecto, como jefe del poder ejecutivo, Barack Obama dispone de todas las prerrogativas necesarias para desmantelar la casi totalidad de la red de sanciones económicas, sin necesitar el acuerdo del Congreso. Así, el presidente de Estados Unidos puede perfectamente autorizar el comercio bilateral entre am­bas naciones. Puede también autorizar a Cuba a usar el dólar en sus transacciones internacionales y permitir que la Isla adquiera en el mercado mundial productos con más del 10 % de componentes estadounidenses. Obama puede también legalizar la importación de productos fabricados en todo el mundo a partir de materias primas cubanas y consentir la venta a crédito de productos no alimenticios a la Isla.

Solo hay tres aspectos que Barack Obama no puede tocar sin la autorización del Congreso. No puede autorizar el turismo ordinario a Cuba. Tampoco puede permitir que Cuba adquiera materias primas alimenticias en el mercado estadounidense a crédito. Finalmente, el presidente no puede autorizar que las filiales de las empresas estadounidenses ubicadas en el exterior mantengan relaciones comerciales con la Isla.

En cuanto al primer aspecto, la respuesta es simple. El presidente Obama puede evitar el obstáculo legislativo ampliando la definición de las categorías de ciudadanos estadounidenses autorizados a viajar a Cuba. Hay actualmente 12 e incluyen entre otros los viajes académicos, culturales, científicos, periodísticos, profesionales, educativos, etc. Así, Barack Obama podría perfectamente ampliar la definición de viaje cultural a Cuba y decidir, por ejemplo, que todo ciudadano que se comprometiera a visitar un museo durante su estancia en la Isla sería incluido en esta categoría. En cuanto al segundo tema, si el poder ejecutivo no puede autorizar la venta a crédito de alimentos a Cuba, Obama puede permitir que Cuba compre a crédito en el mercado estadounidense todo producto no alimenticio. El tercer punto no tiene ningún efecto pues si el presidente Obama autoriza que las empresas estadounidenses instaladas en el territorio nacional tengan relaciones comerciales con Cuba, no sería necesario recurrir a las filiales.

Barack Obama es el presidente estadounidense que ha tomado las decisiones más avanzadas en el proceso de acercamiento con Cuba al restablecer las relaciones diplomáticas y consulares y al adoptar algunas medidas limitadas que flexibilizan las sanciones. También es quien ha tenido el discurso más lúcido sobre la política exterior de Washington hacia La Habana, reconociendo el fracaso de un enfoque basado en la hostilidad. No obstante, sus acciones castigadoras hacia empresas internacionales, así como su reserva en tomar las medidas necesarias para desmantelar el estado de sitio económico contradicen sus declaraciones de principios y suscitan la incomprensión de la comunidad internacional.

(Tomado de Al Mayadeen)

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Rússia reforça defesa nuclear e antimíssil frente aos EUA

Rússia reforça defesa nuclear e antimíssil frente aos EUA

12 nov

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Imagen activaPor: Prensa Latina

O presidente Vladimir Putin assegurou que diante das atuais ameaças dos Estados Unidos, Rússia avança hoje no fortalecimento de seu potencial nuclear e no desenvolvimento de sistemas de ataque capazes de superar qualquer defesa antimísseis.

Ao intervir a véspera na continuação de uma tradicional série de reuniões sobre assuntos da defesa, iniciada na segunda-feira última, o mandatário advertiu que a estabilidade global está ameaçada pelo avanço do sistema de defesa antimísseis (DAM) de Washington na Europa.

Em resposta, as empresas militares russas criaram e ensaiaram com êxito os armamentos capazes de superar ao DAM norte-americano, sublinhou.

Realçou o estadista que no último trimestre a indústria militar do Kremlin desenvolveu e provou com sucesso uma série de sistemas de armas para o que denominou “o Exército do futuro”.

Esclareceu que esta tecnologia de combate pode cumprir qualquer missão ante adversários que possuam complexos armados escalonados.

Informou o mandatário que em 2015 as tropas russas já começaram a receber esta técnica avançada.

Durante o encontro com os mais altos cargos das posições de Defesa, Putin propôs analisar como melhorar as características técnicas deste equipamento de ponta.

Ao ampliar sobre reptos e ameaças, o líder russo recordou que Washington e seus aliados seguem despregando o DAM sem fazer caso “a nossas preocupações e propostas de colaboração”.

Opinou que ações deste tipo têm como objetivo socavar a paridade na esfera dos mísseis e as armas nucleares, “isto é, desequilibrar todo o sistema da estabilidade global e regional”.

Qualificou de “desculpas para os planos verdadeiros dos Estados Unidos” supostas ameaças nucleares de Irã e Coreia do Norte.

Seu objetivo real é neutralizar o potencial estratégico nuclear, em primeiro lugar da Rússia e outros estados, exceto Estados Unidos e seus aliados, para obter deste modo a superioridade militar, enfatizou.

A televisão transmitiu fragmentos com imagens e sons destas reuniões na segunda-feira e na terça-feira, em que segundo Putin se revisam os progressos no fortalecimento da segurança nacional.

Em declarações aos jornalistas, o assessor de imprensa presidencial, Dmitri Peskov, recordou que por indicações de Putin o complexo militar industrial da Rússia elege as opções de armamentos mais baratos, mas não menos eficazes que as de Washington.

lam/jpm/cc

Publicado em América Latina, BRICS, EUA, Rusia

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