Arquivo da categoria: História

Evo coleciona elogios em passagem por Brasília

Às vésperas de referendo sobre quarto mandato, presidente boliviano coleciona elogios em passagem por Brasília
Por André Barrocal

Evo Morales acaba de completar uma década como presidente da Bolívia. No dia 21, os bolivianos vão decidir em um referendo se aprovam o direito do líder indígena de disputar um quarto mandato, na eleição de 2019. Com a economia do país e seu ibope pessoal em alta, Morales tem razões para otimismo com o resultado das urnas. E mais ainda após a recente visita oficial a Dilma Rousseff.

Na passagem de Morales por Brasília na terça-feira 2, Dilma foi uma anfitriã generosa nas palavras e no trato. Chamou-o em público de “querido amigo” e apontou-o como responsável pelos “imensos avanços sociais e os grandes avanços econômicos pelos quais a Bolívia tem passado”. O visitante, segundo testemunhas brasileiras das conversas reservadas, ficou emocionado com a recepção.

Às vésperas do referendo, previsto na mudança constitucional sobre o quarto mandato aprovada pelos parlamentares em 2015, as declarações de Dilma são úteis a Morales. O líder socialista poderá usá-las para mostrar aos dez milhões de bolivianos o prestígio desfrutado perante a potência da América do Sul. Não foi coincidência, aliás, sua visita ao Brasil ter sido programada de parte a parte para ocorrer perto do referendo.

Não que Morales estivesse em apuros políticos e precisasse de apoio. Ao contrário. Mesmo após tanto tempo no cargo, é um dos presidentes sul-americanos campeões de popularidade. Seu governo tem taxas de aprovação na casa dos 70%, mesmo patamar de Tabaré Vázquez, do Uruguai, de volta ao cargo desde 2015. Já Dilma deve estar na rabeira no continente, com cerca de 10%.

O ibope alto tem explicações. Na era Morales, a economia da Bolívia cresceu em média 5% ao ano, e o governo promete manter este ritmo até o fim do atual mandato, em 2019. Os planos de investimento somam 45 bilhões de dólares, cerca de um PIB e meio. Graças às exportações de gás, as reservas de dólares do país estão entre as maiores do mundo, quando tomadas como proporção do PIB, cerca de 40%.

Primeiro indígena no cargo, Morales faz uma gestão aberta aos movimentos sociais. Ao comemorar dez anos no cargo, em 22 de janeiro, disse em discurso já ter mantido 5.546 audiências com representantes populares. Nos vinte anos anteriores, de gestões neoliberais, teriam sido 59, segundo ele. Para visitar os 339 municípios do país, só faltam cinco, o que ele planeja liquidar em 2016.

Dilma Rousseff e Evo Morales
Evo Morales conseguiu apoio importante de Dilma Rousseff antes de votação decisiva no fim do mês.

É “uma revolução democrática e pacífica, e além disso com resultados na parte social, na parte cultural e na parte econômica”, disse Morales na declaração à imprensa feita ao lado de Dilma Rousseff no Palácio do Planalto.

O encontro foi também uma tentativa de encerrar de vez os tremores na relação desencadeados pelo asilo de um adversário político de Morales, o senador direitista Roger Pinto Molina, na embaixada brasileira em La Paz em 2012.

Por tudo o que se viu e ouviu durante a visita de Morales a Brasília, uma tentativa bem sucedida.

(Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil)

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A educação cubana após a revolução, vista por um consultor do Banco Mundial

 


Por Roberto Bitencourt da Silva

No primeiro dia do ano, Cuba celebrou o 57º aniversário da sua revolução popular, nacionalista, anti-imperialista e socialista. Em que pesem limitações e problemas de natureza política e econômica, inegavelmente o povo cubano tem muito o que celebrar, especialmente em relação à educação proporcionada pelo Estado.

Recente e esclarecedor estudo produzido por Aviva Chomsky (“História da revolução cubana”, editora Veneta, 2015) destaca os esforços de erradicação do analfabetismo, imediatamente após a ascensão dos revolucionários, liderados por Fidel Castro, ao poder.

Sob o slogan “O caminho para sair do subdesenvolvimento é a educação”, a revolução promoveu imensuráveis esforços para superar o analfabetismo, democratizar o ensino e promover níveis elevados de escolarização.

Um dos frutos legados pela prioridade concedida à educação, conforme a historiadora, é que “em termos de aproveitamento escolar e oportunidade profissional, a desigualdade entre raças diminuiu ou desapareceu em Cuba, ao passo que ainda parece intransponível nos Estados Unidos e no Brasil”.

Ademais, qualquer pessoa que simpatize com algumas iniciativas sociais desenvolvidas pela revolução cubana, ou que seja minimamente iniciada em sociologia, sabe, ou ao menos intui, que ações de caráter distributivo e de bem-estar social – fatores externos à escola – guardam forte e positiva incidência sobre a qualidade do ensino e a aprendizagem na escola.

Como raras são as análises empíricas disponíveis em nosso país, a respeito do caso cubano, não deixa de ser bastante interessante um estudo realizado, há poucos anos, por um prestigioso consultor do Banco Mundial, o economista Martin Carnoy ( “A vantagem acadêmica de Cuba”, editora Ediouro/Fundação Lemann, 2009).

Diga-se, Banco Mundial, uma das principais instituições que regulam os processos decisórios em escala internacional, sob a bandeira da “superioridade do mercado na oferta dos bens e insumos públicos”. Organismo multilateral que conforma um dos eixos do poder norte-americano, dos bancos e das corporações multinacionais sobre o mundo.

Comparando o modelo abertamente privatista do Chile e semiprivatista do Brasil – ambos modelos assentados em grotescas desigualdades sociais – com o padrão estatista e igualitário cubano, Carnoy chega à conclusão de que o “capital social” – isto é, qualidade de vida e rede estatal, comunitária e familiar de suporte aos/às alunos/as – consiste em variável principal para a boa aprendizagem das crianças cubanas.

Questionando o que entende configurar embaraços ao exercício das liberdades individuais e políticas dos adultos, não deixa, contudo, de frisar a prevalência do respeito aos direitos humanos das crianças e dos jovens em Cuba, em comparação com demais sociedades americanas (EUA e América Latina).

Baixa relação quantitativa professor/aluno (15 alunos por turma no primeiro segmento do ensino fundamental e 20 no segundo segmento); alto prestígio profissional dos/as professores/as na sociedade cubana – e remuneratório, para os padrões do país; mães, pais e responsáveis escolarizados/as e que valorizam a educação, eis alguns dos “segredos” cubanos para o sucesso, de acordo com o economista do Banco Mundial.

Desempenho superior em linguagem e matemática, menores índices de brigas escolares e hábito mais recorrente de leitura em casa, estes são alguns resultados da pesquisa empreendida por Carnoy, ao comparar a educação cubana com a de Argentina, Brasil, Colômbia e México.

É sempre bom frisar, apesar do silêncio natural de Carnoy a respeito: tratam-se de números e realidades sociais alcançadas sob severo e duradouro embargo econômico imposto pelos EUA. Adicionalmente, Cuba sofreu com ações militares, no passado remoto, diretas/indiretas e sabotagens norte-americanas.

Em período mais recente, também com atentados terroristas financiados por grupos mafiosos instalados no “grande irmão”. É o que oportunamente chamam a atenção Aviva Chomsky e Fernando Morais (“Os últimos soldados da guerra fria”, editora Companhia das Letras, 2011).

Convenhamos, não é pouca coisa. O povo cubano tem muito o que comemorar e com que se orgulhar.

Roberto Bitencourt da Silva – historiador e cientista político.

 

Rennan Martins – Jornalista e Editor do Blog dos Desenvolvimentistas

Cuba ainda espera fim de embargo, diz frei Betto

Havana e Washington anunciaram retomada de relações há 1 ano


De forma inesperada, os governos de Cuba e Estados Unidos anunciaram a retomada de relações bilaterais há cerca de um ano, em 17 de dezembro de 2014. Muitas coisas mudaram desde então, muito passos históricos foram tomados na direção da reaproximação. Uma das principais mudanças ainda não foi feita, no entanto, o fim do embargo econômico. A medida é uma das bandeiras do presidente norte-americano Barack Obama, mas depende do Congresso — que tem maioria republicana – para ser aprovada.

Consultado pela ANSA, o brasileiro frei Betto, amigo de Fidel Castro e autor do livro “Paraíso perdido – viagens ao mundo socialista”, compartilhou suas impressões sobre as mudanças em curso na ilha. ANSA – O senhor sentiu alguma mudança em Cuba desde 17 de dezembro do ano passado? Frei Betto – Após dezembro de 2014 estive em Cuba quatro vezes, uma delas por ocasião da visita do papa Francisco [em setembro].

De mudanças, a bandeira dos EUA erguida no Malecon [bairro turístico de Havana] e a expectativa dos cubanos quanto aos efeitos do reatamento com o país vizinho. Há mais cidadãos norte-americanos visitando Cuba, embora ainda perdure o bloqueio e as restrições de viagens por parte da Casa Branca aos cidadãos dos EUA. Este exemplo diz tudo: um casal dos EUA que queira fazer turismo na Coreia do Norte ou no Irã não encontrará nenhuma dificuldade ao buscar uma agência de viagens em Nova York. Porém, se o destino for Cuba, tudo é difícil, devido ao bloqueio. Essa é uma situação no mínimo esdrúxula.

ANSA- Fidel comentou algo com o senhor sobre o processo da retomada? FB- Sim, que Obama mudou seus métodos mas ainda precisa deixar claro que mudou também seus objetivos. Cuba espera que os EUA suspendam o bloqueio e devolvam a base naval de Guantánamo, bem como repare financeiramente os danos causados à ilha por décadas de bloqueio.

ANSA – Quais são suas impressões sobre o futuro de Cuba? Como o senhor acredita que o processo de retomada deve afetar a ilha? FB – Penso que, suspenso o bloqueio e liberadas as viagens, será o encontro do tsunami consumista com a austeridade cubana. Cuba se prepara para evitar que esse choque desvirtue o socialismo e as conquistas da Revolução [de 1959]. Nem os bispos católicos de Cuba têm, hoje, interesse que o país volte ao capitalismo.Não querem para o futuro de Cuba o presente de Honduras ou do Panamá.

Avanços – Desde a retomada de relações, diversas restrições vêm sendo estudadas e muitos passos têm sido dados em direção a uma reaproximação. Em julho deste ano, as respectivas embaixadas foram reabertas. O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, visitou a ilha no mês seguinte, sendo o primeiro líder diplomático do país a viajar a Cuba desde 1945. Na semana passada, Cuba e Estados Unidos anunciaram a retomada de trocas postais após um hiato de 52 anos e ontem os países informaram que chegaram a um acordo para restaurar voos comerciais, sem anunciar data que em rota será restabelecida. Em outras questões, no entanto, como o status dos dissidentes e o respeito aos direitos humanos em Cuba, as negociações continuam travadas.

 

Agência ANSA

http://www.jb.com.br/internacional/noticias/2015/12/18/cuba-ainda-espera-fim-de-embargo-diz-frei-betto/

Argentina: da unidade latino-americana ao alinhamento com os Estados Unidos

Diversos fatores se conjugaram para que, pela primeira vez na história argentina, um representante explícito da direita chegasse ao poder pelo voto.


Mabel Thwaites Rey

Lula Marques / Agência PT

O surpreendente triunfo de Mauricio Macri nas eleições presidenciais de 22 de novembro produziu um enorme abalo político na Argentina e em toda a região. Porque os alinhamentos internos e externos do mandatário eleito prefiguram um panorama inquietante para as expectativas de transformação econômica, social e política que se abriram na América Latina no começo do Século XXI. Abundam, nestes últimos dias, as análises e interpretações sobre as razões que explicam tal mutação política na Argentina, e sobre suas consequências. Por isso, deve-se destacar duas das múltiplas causas que confluíram na configuração do atual cenário, e um dos aspectos nos quais resultará especialmente distintiva a gestão do novo governo: o alinhamento com os Estados Unidos e a dissolução da perspectiva latino-americanista.


Os pró do PRO e os contras do kirchnerismo


Diversos fatores se conjugaram para que, pela primeira vez na história argentina, um representante explícito e genuíno da direita social e política chegasse ao poder pela via eleitoral, e dois deles têm incidência direta no plano político e se vinculam às lideranças em disputa. Um é a evidente capacidade demostrada pelo PRO para se conformar como força política bem sintonizada com o momento pós-crise de 2001 e a impugnação do neoliberalismo explícito que se abriu então. O PRO entendeu o sentimento antipolítico que se manifestou como consequência da profunda crise de representação e se voltou para a imagem de canal de participação política para certo espírito empreendedor e de voluntariado caritativo de núcleos juvenis de setores acomodados, mas que sentem ter vocação de poder. Sua conquista mais importante é ter superado os limites sociais que, até a pouco, pareciam fechar as portas a qualquer opção eleitoral conservadora, que não venha vestida com as clássicas siglas do peronismo ou do radicalismo – o excelente livro Mundo PRO: Anatomia de um partido fabricado para ganhar, explica com profundidade as características da Proposta Republicana (PRO), uma agrupação política criada em 2005 e que, assim como o kirchnerismo, é filha da crise de 2001. Macri conseguiu, ao menos até o momento em que ganhou as eleições, projetar os interesses do núcleo duro da direita social, ao revesti-los eficazmente como beneficiosos para o conjunto da sociedade.

O que não se conseguiu com a rebelião do campo em 2008, terminou sendo o germe de uma nova hegemonia sob a égide dos núcleos agroexportadores, aumentando as possibilidades do triunfo do PRO nas recentes eleições presidenciais.

A omissão midiática dos aspectos mais obscuros da figura e da gestão de Macri como prefeito de Buenos Aires teve também um papel relevante para que o dirigente pudesse se projetar em todo o país e vencer as barreiras que enfrentava por ser um protótipo da elite portenha. Aproveitando essa proteção, Macri foi aglutinando à sua candidatura os setores que o kirchnerismo ia expulsando do emaranhado hegemônico consagrado nas eleições de 2011. Enquanto a inflação minava a renda e os salários da população, a restrição à compra de dólares como refúgio de valor, a negativa em modificar a escala do imposto de renda – que afeta uma proporção crescente de assalariados e seus núcleos familiares, o que levou à ruptura com sindicatos outrora aliados –, e a congestão orçamentária para as províncias opositoras (como Córdoba), foram gestando novos rancores entre as classes média e baixa, especialmente dos centros urbanos da região central do país. Em meio a isso, surgiram as consignas que pediram o fim das confrontações e a recuperação da cultura do trabalho, o que levou à percepção de que havia uma extração abusiva dos recursos obtidos legitimamente mediante o esforço do trabalhador, para entregá-los via subsídios a setores pauperizados e estigmatizados como vagabundos e massa de manobra clientelar de um oficialismo minado por denúncias de corrupção. O PRO alimentou ativamente essa visão, e soube tirar proveito dela quando foi estendida e amplificada midiaticamente – através do incentivo a posturas menos solidárias ou francamente reacionárias –, assim como da convicção de que para vencer o kirchnerismo era necessário aglutinar forças em torno a uma única candidatura, que se apresentasse como aberta ao diálogo que interpretasse a demanda de uma mudança de rumo e das regras do jogo, mas que, ao mesmo tempo, mostrasse firmeza e capacidade de derrotar um adversário que conservava altos níveis de aceitação social.

O outro fator relevante tem a ver com a própria estratégia do kirchnerismo diante da conclusão do ciclo conduzido por seus máximos exponentes e criadores, diante de um cenário econômico internacional adverso. Durante o segundo mandato de Cristina Kirchner se acumularam problemas econômicos que foram manejados com o propósito central de não afetar de modo significativo os níveis de consumo e emprego consistentes com as linhas gerais do projeto político aberto em 2003. A derrota nas eleições legislativas de 2013 foi seguida de medidas que não foram capazes de desativar o descontamento, e que tampouco puderam incorporar novos direitos e reivindicações sociais insatisfeitas, como foi feito em 2009, quando também houve uma derrota legislativa importante, e logo depois se criou a Contribuição Universal por Filho – AUH, em sua sigla em espanhol, espécie de Bolsa-Família argentino. O repertório de opções dentro da lógica sistêmica não apresentava muitas variações e a tentativa de voltar a obter empréstimos do mercado financeiro para relançar a atividade econômica foi abortada pela decisão do juiz Thomas Griesa, de Nova York, de aceitar a bilionária demanda dos fundos abutre. O empréstimo outorgado pela China aliviou uma situação que parecia de catástrofe inevitável e a condução econômica se concentrou em procurar que o último ano do mandato presidencial transcorresse de modo relativamente calmo, sem afetar os elevados níveis de popularidade da mandatária. Não entregar um país em chamas, como sucedeu em 1989 e em 2001, foi uma decisão importante que Cristina Kirchner conseguiu impor.

Mas a maior complicação foi a incapacidade para resolver a sucessão presidencial e a formação de uma candidatura que expressasse cabalmente o projeto político governante. Isso levou o kirchnerismo à tardia, forçada e pouco entusiasta aceitação de Daniel Scioli como continuidade provisória e praticamente assegurada, mas com a preocupação sobre como se reequilibrariam as forças internas uma vez que a nova administração assumisse. O cálculo de limitar o candidato dentro da própria campanha para condicionar seu futuro, e de se entrincheirar no território da Província de Buenos Aires, como uma figura resistida porém leal e confiável para a continuidade da estrutura kirchnerista, empurrou a um desgaste irrecuperável, que pavimentou a derrota. Longe de projetar sua visão particular como interesse geral, incorporando demandas e aspirações que foram além das próprias, e com porta-vozes que fossem convincentes, o oficialismo se fechou sobre si mesmo, e apostou no potencial da liderança especial exercida por Cristina Kirchner. A imprevista vitória de María Eugenia Vidal na Província de Buenos Aires, contra o polêmico Aníbal Fernández, sacudiu profundamente o tabuleiro político, e deixou em evidência os limites reais que o esquema governante enfrentava. O esforço desmedido de uma militância inorgânica e espontânea, que decidiu enfrentar a opção macrista com criatividade e convicção, impediu que a vitória do candidato conservador fossem mais contundente.

Finalmente, as eleições se definiram por somente 600 mil votos a favor do líder da direita conservadora. Se subtraímos dessa vantagem os votos em branco e os anulados, Macri vence por apenas 60 mil votos e o país fica dividido por metades bastante equivalentes e numa tensão cuja evolução e desfecho são incertos.


Atendido por seus gerentes


O que farão efetivamente Macri e o PRO no comando do governo nacional, da cidade e da Província de Buenos Aires, e com o forte respaldo de Córdoba e da rica região central, é a grande incógnita que será elucidada com o correr dos próximos dias. No cenário que se abre, pesam fortemente a vontade, as preferências e os suportes políticos e sociais do novo mandatário, para encarar uma rota consolide – ou dilapide – sua atual e ajustada supremacia, mas que também terá relevância a capacidade de resistência e articulação que terão os setores que confrontarão as políticas que ele pretende impulsar. Porque, apesar do seu discurso difuso de cooperação e boa vontade, que cativou eleitores com a promessa de “mudanças”, as decisões que tome gerarão beneficiários e afetados, que certamente não aceitarão sua sorte de modo passivo, o que significa que terá que encarar conflitos mais duros e tangíveis que a mera questão de posturas republicanas ou não.

Como empresário próspero, Macri defende os valores do livre mercado e da iniciativa privada, e não se cansa de dizer que é preciso restaurar a confiança do polo do capital para atrair os investimentos que o país necessita para crescer. A escolha do seu gabinete, com um peso central de figuras provenientes de multinacionais e de universidades privadas, expressa com clareza suas orientações e preferências. O fato da União Cívica Radical, aliado eleitoral estratégico, ter ficado de fora dos ministérios mais importantes, mostra que o macrismo não pretende fazer um governo de coalizão – o que implicaria negociações e concessões – e sim impor a firme expressão do seu núcleo ideológico, político e social mais genuíno, com certa capacidade de interação com o resto das forças que decidiram se posicionar ao seu lado com o único intuito de vencer o adversário kirchnerista. A conformação de elencos governamentais homogêneos em sua procedência social e política, com perfis gerenciais e formados em universidades privadas, projetam a imagem de que o país finalmente será atendido diretamente por seus próprios donos, sem mediações constrangedoras. Isso não significa, porém, que se esteja planteando uma retorno puro e simples à doutrina dos Anos 90, como a exumação de certas figuras emblemáticas parecia indicar.

Em primeiro lugar, porque depois daquela década explicitamente neoliberal, se abriu na América Latina uma etapa de impugnação do Consenso de Washington, e foi essa impugnação a que trouxe um saldo de crescimento econômico e conquistas sociais que mudaram as bases de sustentação para os projetos políticos com pretensão hegemônica. Se, por um lado, as políticas pró-mercado e antipopulares se ergueram sobre a terra arrasada da derrota do campo popular, infligida pela ditadura a sangue e fogo, o processo que surge após a crise de 2001 é filho das lutas populares de resistência. Esse ciclo de auge da mobilização e participação ativa teve seu declínio e reabsorção por mediações institucionais, mas conseguiu se materializar nas conquistas sociais que constituíram um piso fundamental, tanto em termos materiais quanto simbólicos, muito diferente do momento de derrota defensiva noventista. Além disso, os setores populares acumularam experiência e formatos organizativos nos quais podem se apoiar para ativar a resistência contra medidas regressivas, o que conforma um cenário bastante diferente ao inaugurado com a hiperinflação, no final dos Anos 80.

Claramente, a chegada de Macri ao governo não é fruto de uma derrota inapelável do campo popular, e aí reside uma diferença fundamental com relação ao ciclo de Carlos Menem.

Em segundo lugar, existia nos Anos 90 uma receita neoliberal uniforme, que deixava a “chave nas mãos” dos organismos financeiros internacionais, os que outorgavam homogeneidade, apoio e coerência lógica para implantar medidas de ajuste estrutural e abertura econômica previamente desenhados e abençoados pelo saber técnico hegemônico. As classes proprietárias confiavam nesse molde, ainda quando, na prática, ele não fosse proveitoso, inclusive para os seus interesses imediatos. Disciplinar as classes subalternas era seu ponto de unidade, e por trás desse objetivo, os conflitos internos eram adiados. Hoje, o Consenso de Washington foi desbancado pela dinâmica de um mundo em crise e que enfrenta a mutação das hegemonias, flagelado por uma guerra contra o islamismo radicalizado de contornos difusos e mudanças bruscas e inesperadas, e que inviabiliza a proposição de um formulário articulado de medidas inquestionáveis, capazes de ser a bússola que defina para onde navegar entre as incertas águas da acumulação de capital a escala nacional.

Embora os determinantes estruturais do ciclo neoliberal não tenham sido removidos durante estes últimos anos “impugnadores”, o rumo atual não é tão claro, e apresenta matizes para a disputa intraburguesa. Hoje, a palavra mágica parece ser “desenvolvimentismo”, como outrora foi o ajuste estrutural, porém baseado na ideia de crescer através dos investimentos e da oferta, incentivando a inovação e as exportações, apresentando o consumo interno como motor privilegiado do crescimento. Isso supõe fortes contradições com os setores capitalistas ligados à atividade interna e, necessariamente, com as classes populares. Porque ainda que usem eufemismos para eludir definições que poderiam ter resultado em menos votos e apoios eleitorais, na visão triunfante, o significado do crescimento via investimento equivale à redução do poder adquisitivo dos assalariados. Para beneficiar esses interesses, pela primeira vez, a direta pró-patronal e pró-mercado impulsou um líder próprio e genuíno – ainda que camuflado eleitoralmente com o slogan optimista de que podemos “ganhar todos” –, e agora tem em suas mãos a condução direta do Estado. Mais cedo que tarde, esse núcleo terá que enfrentar as dificuldades bem concretas de manejar as agências públicas, que são muito diferentes das empresas privadas dirigidas por seus técnicos, e a uma realidade na que o choque de interesses tornará inevitável o conflito, a disputa e as lutas. A harmonia proposta por Macri será posta à prova diante da primeira decisão que afete direitos e expectativas populares, especialmente as que provocarem protestos capazes de ativar os reflexos repressivos que alimentam o âmago direitista.

Uma das áreas decisivas onde se verão mudanças importantes é na política exterior, onde se planteiam imensos desafios para a integração latino-americana. O triunfo de Macri foi um momento marcante do ciclo de desestabilização dos governos de matriz popular na América Latina, provavelmente o início de um processo de realinhamento com a política estadunidense, que se visualiza para a região. Uma das poucas precisões que o candidato deu durante os debates contra Scioli foi que acionaria a cláusula democrática para excluir a Venezuela do Mercosul em solidariedade com a prisão do líder opositor Leopoldo López. Independente da inviabilidade dessa norma, que só pode se ativada em casos de interrupção da ordem democrática, Macri quis dar um sinal claro do que ele pretende promover na região. A grande derrota do chavismo para a coalizão opositora, nas eleições legislativas deste 6 de dezembro, e a abertura do processo de impeachment contra mandatária brasileira Dilma Rousseff, configuram um contexto sombrio a respeito das possibilidades de integração regional com sentido progressivo e autônomo em relação à potência do norte. A presidência de Macri impulsará uma mudança contrária às da etapa que culmina, e é previsível que se desativem ou esmoreçam os acordos regionais que suponham vias de distanciamento da supremacia estadunidense na região. As dinâmicas da CELAC, da Unasul e do próprio Mercosul certamente mudarão de forma importante, e cederão espaço aos acordos bilaterais com as potências centrais, retomando as velhas estratégias competitivas entre as burguesias interiores de cada estado nacional por obter os favores dos Estados Unidos e da Europa. A proposta de integração à Aliança do Pacífico, as negociações com a União Europeia, e também a pressão dos grandes grupos econômicos para que sejam assinados os tratados de livre comércio transpacífico (TPP, por sua sigla em inglês) e do acordo sobre o comércio de serviços (TISA, também sigla em inglês), que entregam as corporações direitos inusitados contra os estados nacionais, ocuparão um peso relevante na nova gestão, e enfrentá-las requer uma articulação de amplos processos de luta.

Aceita o alinhamento com os Estados Unidos, seguindo com dócil entusiasmo as diretrizes econômicas e geopolíticas impostas, está na matriz dos projetos das direitas sociais e políticas latino-americanas, que estão mais cômodas e seguras em seu papel de vice-reis que dedicadas a caminhos que busquem uma maior autonomia. Por isso, apelam à “desideologização” e o pragmatismo nas relações internacionais do novo governo argentino, que admite a submissão ao desenho da casa matriz do norte, com o risco de que se dá num tempo de guerras mundiais, que poderia arrastá-lo à subordinação e a estratégias bélicas injustas e ruinosas para o país e toda a região.

Em suma, as mudanças pretendidas pelo projeto do novo governo da direita, que assume com pouco mais de 50% de apoio eleitoral, dependerão muito da capacidade de articulação popular para defender conquistas e evitar que cobrem do povo os custos de uma reconfiguração social regressiva.


(*) Mabel Thwaites Rey é doutora em Direito Político e Teoria do Estado (UBA). Professora, Investigadora e Diretora do Instituto de Estudos sobre a América Latina e o Caribe (IEALC) da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires. Coordenadora do grupo de trabalho do CLACSO “O Estado na América Latina: conquistas e fadigas dos processos políticos do novo século”.

Tradução: Victor Farinelli

Créditos da foto: Lula Marques / Agência PT

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O Brasil está na mira de Wall Street

Ao comentar a situação político-econômica do Brasil, Moniz Bandeira afirma que ‘Wall Street está por trás da crise brasileira’.


Sputnik Brasil

wikipedia

De acordo com o cientista político Moniz Bandeira, professor aposentado da Universidade de Brasília e que há mais de 20 anos vive em Heidelberg, na Alemanha, “o objetivo das ações externas contra o Brasil é quebrar a economia e comprar as empresas estatais a preço de banana”.

Em entrevista exclusiva à Sputnik Brasil, Moniz Bandeira fala das ameaças imperialistas e também das questões de ordem política relacionadas à possível instauração de um processo de impeachment contra a Presidenta Dilma Rousseff. Para ele, está em curso um golpe no Brasil “que deve ser contido para não produzir graves consequências para a História do país”.

“É difícil precisar quais são os interesses”, diz o cientista político de Heidelberg. “Mas são interesses estrangeiros, eu creio, em grande parte, de Wall Street e através de outras entidades como The National Endowment for Democracy, USAID e outros que estão incentivando esse golpe no Brasil, aliados às forças internas da direita.”

Sputnik: O objetivo seria quebrar a economia e comprar as empresas brasileiras a preço de banana?

Moniz Bandeira: Exatamente, isso é verdade. Eles querem quebrar a economia brasileira – e é aí que eu vejo mais a ação de Wall Street – e comprar as empresas, como estão fazendo, a preço de nada, com o real desvalorizado a esse ponto.

S: Nós podemos acreditar, então, que o Brasil está na mira de Wall Street?

MB: Está na mira, claro, porque a questão não é só o Brasil, é internacional, é a luta contra a Rússia e a China, mas eles não podem muito contra a China. E querem derrubar a Rússia através da Síria e da Ucrânia. São duas frentes que os Estados Unidos abriram, porque a luta na Síria não é tanto por democracia, isso é bobagem, os EUA não estão se importando com isso. Eles querem mudar o regime para tirar a Base Naval de Tartus e também um ponto em Latakia, ambos da Rússia.

S: Voltando ao Brasil. O senhor entende que o país voltará a sofrer assaltos especulativos?

MB: É muito complicada a situação aí. Eu não estou certo de nada a respeito do Brasil, é muito difícil. Porque é muito difícil também dar um golpe – um golpe civil como eles querem. As Forças Armadas estão contra o golpe. Elas são um fator de resistência nacionalista no Brasil, assim como o Itamaraty.

S: O senhor disse que há órgãos no exterior financiando a grande mídia no Brasil. A mídia, ao pregar o golpe, facilita a entrada das grandes corporações internacionais em prejuízo das empresas brasileiras?

MB: Claro, sobretudo no setor de construção, que tem sido alvo principal desse inquérito, que, aliás, é inconstitucional, é tudo ilegal. O objetivo é destruir as grandes empresas brasileiras, as construtoras que são fatores de expansão mundial do Brasil, e permitir que entrem no mercado brasileiro as multinacionais americanas.

S: O senhor entende que as agências de inteligência dos EUA continuam a espionar a Presidenta Dilma Rousseff e as grandes empresas estatais do país?

MB: Claro, nunca deixaram de espionar. Espionam no Brasil e em todos os países. Se você ler meu livro “Formação do Império Americano”, publicado há dez anos, você verá como eu mostro isso documentado. Já no tempo de Clinton faziam isso. Não há novidade nenhuma na atuação dos EUA. Eu estudo essa questão dos EUA há muitos anos. Acompanhei de perto toda a problemática de Cuba. Estou com 80 anos, desde os meus 20 anos eu assisto a isso que eles fazem na América Latina.

S: O senhor fala em golpe em curso no Brasil. Qual a sua impressão, esse golpe pode ir avante?

MB: Tanto pode como não pode. As possibilidades são muitas. Ontem mesmo o Supremo Tribunal Federal tomou uma medida constitucionalmente correta, que foi anular essa comissão constituída na Câmara por meio de manobras. O que existe é uma luta de ratos e ladrões, um bando, uma gangue, montada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, contra uma mulher honrada e honesta como a Presidenta Dilma Rousseff, com todos os erros que ela possa ter cometido. Não há motivo legal nem constitucional para o impeachment.

S: A Presidenta Dilma Rousseff conseguirá superar todas essas dificuldades políticas e concluir o seu mandato em 31 de dezembro de 2018?

MB: É muito difícil avaliar a evolução da situação, porque ela é ruim internacionalmente. A situação internacional é muito ruim. Eu disse, em 2009, quando recebi o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia, que uma potência é muito mais perigosa quando está em decadência do que quando conquista o seu império, e os EUA são uma potência em decadência. São muito mais perigosos do que antes.

Créditos da foto: wikipedia

MANIFESTO PELA DEMOCRACIA

O impeachment não pode jamais ser utilizado para ameaçar a democracia ou enfraquecê-la, sob pena de incomensurável retrocesso político e institucional.


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reprodução

Clique aqui para assinar o manifesto

Nós, professores universitários abaixo assinados, vimos a público para reafirmar que o impeachment, instituto reservado para circunstâncias extremas, é um instrumento criado para proteger a democracia. Por isso, ele não pode jamais ser utilizado para ameaçá-la ou enfraquecê-la, sob pena de incomensurável retrocesso político e institucional.

Por julgar que o processo de impeachment iniciado na semana passada pelo presidente da Câmara dos Deputados serviria a propósitos ilegítimos, em outras ocasiões muitos de nós nos pronunciamos contrariamente à sua deflagração.

Com ele em curso, defendemos que o processo não pode ser ainda mais maculado por ações ou gestos oportunistas por parte de quaisquer atores políticos envolvidos. Papéis institucionais não podem, nem por um instante, ser confundidos com interesses políticos pessoais, nem com agendas partidárias de ocasião que desprezem o interesse da sociedade como um todo.

O processo de impeachment tampouco pode tramitar sem que o procedimento a ser seguido seja inteiramente conhecido pela sociedade brasileira, passo a passo. Um novo teste para a democracia consistirá, assim, em protegê-lo de lances obscuros ou de manobras duvidosas, cabendo ao Supremo Tribunal Federal aclarar e acompanhar, em respeito à Constituição, todas as etapas e minúcias envolvidas.

É inegável que vivemos uma profunda crise, mas acreditamos que a melhor forma de enfrentá-la é com o aprofundamento da democracia e da transparência, com respeito irrestrito à legalidade. Somente assim poderemos extrair algo de positivo deste episódio. Manobras, chicanas e chantagens ao longo do caminho só agravarão a dramática situação atual.

O que está em jogo agora são a democracia, o Estado de Direito e a República, nada menos. Acompanharemos tudo com olhos vigilantes e esperamos que, ao final do processo, a presidente da República possa terminar seu mandato.

Assinam:

1. Antonio Candido de Mello e Souza – Letras/USP
2. Dalmo de Abreu Dallari – Direito/USP
3. Emilia Viotti da Costa – História/USP
4. Ennio Candotti – Física/UFAM
5. Fábio Konder Comparato – Direito/USP
6. Francisco de Oliveira – Sociologia/USP
7. Luiz Carlos Bresser-Pereira – Economia/FGV
8. Luiz Felipe Alencastro – Economia/FGV
9. Luiz Gonzaga Belluzzo – Economia/UNICAMP
10. Maria da Conceição Tavares – Economia/UFRJ
11. Maria Vitoria Benevides – Educação/USP
12. Marilena Chauí – Filosofia/USP
13. Otávio Velho – Antropologia/Museu Nacional
14. Paul Singer – Economia/USP
15. Paulo Sergio Pinheiro – Ciência Política/USP
16. Roberto Schwarz – Letras/UNICAMP
17. Walnice Nogueira Galvão – Letras/USP
18. Adalberto Cardoso – Sociologia/IESP/UERJ
19. Adalmir Marquetti – Economia/PUC-RS
20. Adrian Gurza Lavalle – Ciência Política/USP
21. Adriano de Freixo – História/UFF
22. Adriano H. R. Biava – FEA/USP
23. Afranio Mendes Catani – PROLAM/USP
24. Alamiro Velludo Salvador Netto – Direito/USP
25. Aldaíza Sposati – PUC-SP
26. Alessandro André Leme – Sociologia/UFF
27. Alessandro Constantino Gamo – Cinema/UFSCAR
28. Alexandre de Freitas Barbosa – IEB/USP
29. Alexandre Jeronimo de Freitas – Economia/UFRJ
30. Alexandre Macchione Saes – Economia/USP
31. Alexandre Werneck – Sociologia/UFRJ
32. Alexandro Dantas Trindade – Sociologia/UFPR
33. Alfredo Alejandro Gugliano – PPGPol/UFRGS
34. Álvaro de Vita – Ciência Política/USP
35. Alvaro Puntoni – FAU/USP
36. Alysson Mascaro – Direito/USP
37. Amélia Cohn – Saúde Pública/USP
38. Ana Castro – FAU/USP
39. Ana Claudia Marques – Antropologia/USP
40. Ana Fernandes – FAU/UFBA
41. Ana Flávia Pires Lucas D’Oliveira – Medicina/USP
42. Ana Jordânia de Oliveira – UFRuralRJ
43. Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer – Antropologia/ USP
44. Ana Luiza Nobre – Arquitetura/PUC Rio
45. Ana Maria Nusdeo – Direito/USP
46. Ana Rosa Ribeiro de Mendonça – Economia/UNICAMP
47. André Botelho – Sociologia/UFRJ
48. Andre de Melo Modenesi – Economia/UFRJ
49. André Luís Cabral de Lourenço – Economia/UFRN
50. André Martins Biancarelli – Economia/UNICAMP
51. André Medina Carone – Filosofia/UNIFESP
52. André Nassif – Economia/UFF
53. André Pires – PUC
54. André Ramos Tavares – Direito/USP
55. André Singer – Ciência Política/USP
56. Andréa Freitas – Ciência Política/UNICAMP
57. Andreia Galvão – UNICAMP
58. Andrés Vivas Frontanta – FECAP
59. Angela Alonso – FFLCH/USP
60. Angela Araújo – Ciência Política/UNICAMP.
61. Angela Prysthon – CAC/UFPE
62. Antônio Brasil – Sociologia/UFRJ
63. Antonio Carlos Dias Júnior – Educação/UNICAMP
64. Antonio Carlos Macedo e Silva – Economia/UNICAMP
65. Antonio Corrêa de Lacerda – Economia/PUC-SP
66. Antonio David Cattani – Sociologia/UFRGS
67. Antônio Herculano Lopes – História/Fundação Casa de Rui Barbosa
68. Antônio J. Escobar Brussi – Ciência Política/UNB
69. Antonio José Alves Junior – Economia/UFRuralRJ
70. Antônio José Costa Cardoso – UFSB
71. Antonio Sérgio Alfredo Guimarães – Sociologia/USP
72. Antônio Sérgio Carvalho Rocha – Ciências Sociais/UNIFESP
73. Arílson Favareto – UFABC
74. Ary Cesar Minella – Sociologia/UFSC
75. Armando Boito Jr. – Ciência Política/UNICAMP
76. Bárbara Gomes Lupetti Baptista – Direito/ UFF
77. Beatriz Heredia – Antropologia/UFRJ
78. Bento Antunes de Andrade Maia – Economia/FACAMP
79. Bernardo Medeiros Ferreira da Silva – Ciências Sociais/UERJ
80. Bernardo Ricupero – Ciência Política/USP
81. Betânia Amoroso – IEL/UNICAMP
82. Breno Bingel – Sociologia/IESP/UERJ
83. Brunno Vinicius Gonçalves Vieira – Linguísitca/UNESP
84. Bruno Konder Comparato – Ciências Sociais/Unifesp
85. Bruno Thiago Tomio – Economia/FURB
86. Camila Caldeira Nunes Dias – UFABC
87. Carla Regina Mota Alonso Diéguez – FESPSP
88. Carlos Eduardo Jordão Machado – UNESP
89. Carlos Enrique Ruiz Ferreira – RI/UEPB
90. Carlos Frederico Rocha – Economia/UFRJ
91. Carlos Henrique Aguiar Serra – UFF
92. Carlos R. S. Milani – IESP/UERJ
93. Carmem Feijó – Economia/UFF
94. Carmen Sylvia Vidigal Moraes – Educação/USP
95. Carole Gubernikoff – UNIRIO
96. Carolina Troncoso Baltar – Economia/UNICAMP
97. Caroline Cotta de Mello Freitas – FESPSP
98. Cecilia Fernanda Saraiva de Oliveira – UNIRIO
99. Célia Maria Magalhães – Linguística/UFMG
100. Celso Amorim – Instituto Rio Branco/UnB/USP
101. Celso Pinto de Melo – Física/UFPE
102. Cesar Sabino – Unirio
103. Cezar Augusto Miranda Guedes – UFRuralRJ
104. Charles Pessanha – Ciência Política/UFRJ
105. Christian Lynch – UERJ/ Casa Rui Barbosa
106. Christianne Rochebois – UFSB
107. Christy G. G. Pato – UFFS
108. Cibele Rizek – FFLCH/USP
109. Cicero Araujo – Ciência Política/USP
110. Cilane Alves Cunha – Letras/USP
111. Claudia Amigo Pinto- Letras/USP
112. Conrado Hubner Mendes – Direito/USP
113. Corival Alves do Carmo – UFS
114. Cristian Borges – ECA/USP
115. Cristiane Batista – Unirio
116. Cristiane Kerches da Silva Leite – EACH/USP
117. Cristina Fróes de Borja Reis – Economia/UFABC
118. Cristina Meneguello – História/UNICAMP
119. Cynthia Andersen Sarti – Ciências Sociais/UNIFESP
120. Daniel Tourinho Peres – Filosofia/UFBA
121. Daniela Prates – Economia/UNICAMP
122. Danilo Tavares da Silva – Direito/Mackenzie
123. Débora Alves Maciel – Ciências Sociais/Unifesp
124. Debora Messenberg – Antropologia/UnB
125. Débora Morato Pinto – UFSCar
126. Deisy Ventura – IRI/USP
127. Denilson Luis Werle – Filosofia /UFSC
128. Diana Junkes Bueno Martha – Letras/UFSCAR
129. Diogo R. Coutinho – Direito/USP
130. Edison Ricardo Bertoncelo – Sociologia/USP
131. Edson Ferreira Liberal – Medicina/UNIRIO
132. Eduardo Ferioli Gomes – Matemática/UFF
133. Eduardo Marques – FFLCH/USP
134. Eduardo Natalino – História/USP
135. Eduardo Strachman – Economia/UNESP
136. Elaini C. G. da Silva – Direito/PUC-SP
137. Eliana de Freitas Dutra – UFMG
138. Eliana Povoas Britto – UFSB
139. Elide Rugai Bastos – Sociologia/UNICAMP
140. Elina Pessanha – Sociologia/UFRJ
141. Elizabeth Harkot de La Taille – FFLCH/USP
142. Emília Pietrafesa de Godoi – Antropologia/UNICAMP
143. Erminia Maricato – FAU/USP
144. Ester Gammardella Rizzi – Direito/Cásper Líbero e MACKENZIE
145. Esther Solano – RI/ UNIFESP
146. Euclides Ayres de Castilho – Medicina/USP
147. Eunice Ostrensky – Ciência Política/USP
148. Evergton Sales Souza – História/UFBA
149. Fabiano Abranches Silva Dalto – Economia/UFPR
150. Fabiano Santos – Ciência Política IESP/UERJ
151. Fabio Contel – Geografia/USP
152. Fábio Simas – Matemática/UNIRIO
153. Fabrício Maciel – Ciências Sociais/UFF
154. Fabrício Neves – UnB
155. Fabrício Pereira da Silva – Unirio
156. Fabrício Pitombo Leite – Economia/UFRN
157. Feliciano de Sá Guimarães – IRI/USP
158. Felipe Borba – UNIRIO
159. Felipe Gonçalves Silva – Filosofia/UFRGS
160. Fernanda Areas Peixoto – Antropologia/USP
161. Fernanda Bruno – UFRJ
162. Fernanda Graziella Cardoso – Economia/UFABC
163. Fernando Antonio Lourenço – Sociologia/UNICAMP
164. Fernando Costa Mattos – Filosofia/UFABC
165. Fernando Coutinho Cotanda – Sociologia/UFRGS
166. Fernando Limongi – Ciência Política/USP
167. Fernando Nogueira da Costa – Economia/UNICAMP
168. Fernando Rugitsky – Economia/USP
169. Flávia Biroli – Ciência Política/UnB
170. Flavia Brito – FAU/USP
171. Flavio Azevedo Marques de Saes – Economia/USP
172. Francisco Luiz Lopreato – Economia/UNICAMP
173. Frederico Mazzucchelli – Economia/UNICAMP
174. Gabriel Cohn – Ciência Política/USP
175. Gabriel Feltran – Sociologia/UFSCAR
176. Gabriela Lotta – UFABC
177. Gentil Corazza – UFRGS
178. Geraldo Miniuci – Direito/USP
179. Gilberto Bercovici – Direito/USP
180. Gilberto Hochman – Ciência Política/FIOCRUZ
181. Gilson Schwartz – ECA/USP
182. Giorgio Romano Schutte – RI e Economia/UFABC
183. Glaucia Villas Boas – Sociologia/ UFRJ
184. Glauco Peres da Silva – Ciência Política/USP
185. Guilherme Flynn Paciornik – Gestão Pública /Metodista de São Paulo
186. Guilherme Leite Gonçalves – Direito/UERJ
187. Guilherme Simões Reis – Ciência Política/UNIRIO
188. Guilherme Wisnik – FAU/USP
189. Heleno Taveira Torres – Direito/USP
190. Helga da Cunha Gayhva – Sociologia/ UFRJ
191. Heloisa Meireles Gesteira – História/MAST/PUC-Rio
192. Heloisa Starling – História/UFMG
193. Henrique Pavan Beiro de Souza – Economia/FMU
194. Homero Santiago – Filosofia/USP
195. Horacio Gutierrez – História/USP
196. Iagê Zendron Miola – Direito/São Judas Tadeu
197. Igor Fuser – Relações Internacionais/UFABC
198. Ileno Izídio da Costa – Psicologia/UnB
199. Iram Jácome Rodrigues – Economia/USP
200. Isabel Loureiro – Filosofia/UNESP
201. Isabel Lustosa – Fundação Casa de Rui Barbosa
202. Itania Gomes – Comunicação/UFBA
203. Jaime Fernando Villas da Rocha – Biociências/UNIRIO
204. Jaime Rodrigues – História/UNIFESP
205. Jalcione Almeida – Sociologia/UFRGS
206. Jean Tible – Ciência Política/USP
207. Jean-Paul Veiga da Rocha – Direito/USP
208. Jessé Souza – Ciência Política/UFF
209. Joana Domingues Vargas – Sociologia/UFRJ
210. Joana Luz Guimarães – UFSB
211. Joana Mello de Carvalho e Silva – FAU/ USP
212. João Furtado – Poli/USP
213. João Marcelo Ehlert Maia – Sociologia/CPDOC
214. João Marcos de Almeida Lopes – IAU/USP
215. John Cowart Dawsey – Antropologia/USP
216. Jorge Grespan – História/USP
217. Jorge Luiz Souto Maior – Direito/USP
218. Jorge Mattoso – Economia/UNICAMP
219. José Arbex Júnior – PUC-SP
220. José Augusto Fontoura Costa – Direito/USP
221. José Carlos Braga – UNICAMP
222. José Carlos Vaz – Políticas Públicas/EACH
223. José Dari Krein – UNICAMP
224. José Eduardo de Salles Roselino Júnior – UFSCar
225. José Geraldo Silveira Bueno – PUC-SP
226. José Guilherme C. Magnani – Antropologia/USP
227. José Henrique Artigas de Godoy – Ciências Sociais/UFPB
228. José Henrique Bortoluci – Direito/FGV
229. José Lira – FAU/USP
230. José Maurício Domingues – Sociologia/IESP/UERJ
231. José Paulo Martins Junior – Unirio
232. José Renato de Campos Araújo – EACH/USP
233. José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres – Medicina/USP
234. José Ricardo Ramalho – Sociologia/UFRJ
235. José Rodrigo Rodriguez – Direito/UNISINOS
236. José Sérgio Leite Lopes – Antropologia/Museu Nacional
237. Josianne Cerasoli – História/UNICAMP
238. Juarez Lopes de Carvalho Filho – Sociologia/UFMA
239. Juarez Melgaço Valadares – UFMG
240. Julia de Medeiros Braga – Economia/UFF
241. Julio Casarin Barroso Silva – Ciências Sociais/ Unifesp
242. Júlio César Vellozo – Direito/Mackenzie
243. Karl Monsma – Sociologia/UFRGS
244. Kátia Gerab Baggio – História/UFMG
245. Klarissa Silva – Direito/UFF
246. Laura Carvalho – Economia/USP
247. Laura Mello e Souza – História/USP
248. Laura Moutinho – Antropologia/USP
249. Laurindo Dias Minhoto – Sociologia/USP
250. Laymert Garcia dos Santos – Sociologia/UNICAMP
251. Leandro di Bartolo – Observatório Nacional
252. Leda Paulani – Economia/USP
253. Lena Lavinas – Economia/UFRJ
254. Lenina Pomeranz – Economia/USP
255. Leonardo Avritzer – Ciência Política/UFMG
256. Leonilde Servolo de Medeiros – CPDA/UFRuralRJ
257. Leopoldo Waizbort – Socilogia/USP
258. Liana Carleial – IPARDES
259. Liana de Paula – Ciências Sociais/UNIFESP
260. Lidiane S. Rodrigues – UFSCar
261. Lígia Bahia – UFRJ
262. Ligia Chiappini – Letras/USP
263. Ligia Dabul – Sociologia/UFF
264. Lígia Fabris Campos – Direito/ FGV-RJ
265. Lilia Blima Schraiber – Medicina/USP
266. Lincoln Secco – História/USP
267. Lorelai Brilhante Kury – História/Fiocruz e UERJ
268. Luciana de Oliveira Royer – FAU/USP
269. Luciana Nicolau Ferrara – Planejamento Territorial/UFABC
270. Luciana Royer – FAU/USP
271. Luciane Patrício – Direito/UFF
272. Luciano Fedozzi – Sociologia / UFRGS
273. Lucio Gregori – Poli/USP
274. Luís Juracy Rangel Lemos – UFT
275. Luís César Oliva – Filosofia/USP
276. Luis Claudio Krajevski – Economia/UFFS
277. Luis Felipe Miguel – Ciência Política/UnB
278. Luís Fernando Massonetto – Direito/USP
279. Luis Roberto de Paula – UFABC
280. Luiz Antonio Domakosky – Economia/UFPR
281. Luiz Antônio Silva Araujo –UFSB
282. Luiz Bernardo Pericás – História/USP
283. Luiz Carlos Jackson – Sociologia/USP
284. Luiz Carlos Vilalta – História/UFMG
285. Luiz Fernando de Paula – Economia/UERJ
286. Luiz Recaman FAU/USP
287. Luiz Repa – Filosofia/USP
288. Luziene Dantas de Macedo – Economia/UFRN
289. Magda Lucio – Gestão Publica – UnB
290. Malvina Tania Tuttman – Educação/UNIRIO
291. Manuel Ramon Souza Luz – Economia/UFABC
292. Manuela Lavinas Picq – San Francisco de Quito.
293. Marcelo Arend – Economia e RI/UFSC
294. Marcelo Kunrath Silva – Sociologia/UFRGS
295. Marcelo Ridenti – Sociologia/UNICAMP
296. Marcelo Sampaio Carneiro – Sociologia/UFMA
297. Marcelo Weishaupt Proni – Economia/Unicamp.
298. Marcia Cristina Consolim – Ciências Sociais/UNIFESP
299. Márcia Maria dos Santos de Moraes – UFSB
300. Marcia Ribeiro Dias – UNIRIO
301. Marcia Tosta Dias – Ciências Sociais/UNIFESP
302. Márcio Bobik – FEA-RP/USP
303. Marcio Florentino – UFSB
304. Marco Aurélio Santana – IFCS/UFRJ
305. Marcos Barbosa de Oliveira – Educação/USP
306. Marcos Eugênio da Silva – Economia/USP
307. Marcos Jayme Novelli – UFSCar
308. Marcos Nobre – Filosofia/UNICAMP
309. Marcus Vinícius Peinado Gomes – EAESP/FGV
310. Margareth Rago – IFCH/UNICAMP
311. Maria Emília Xavier Guimarães Lopes – Física/UFF
312. Maria Aparecida Azevedo Abreu – IPPUR/UFRJ
313. Maria Aparecida Leite Soares – UNIFESP
314. Maria Aparecida Mello – Pedagogia/UFSCar
315. Maria Caramez Carlotto – RI/UFABC.
316. Maria Chaves Jardim – Sociologia/UNESP
317. Maria Cristina da Silva Leme – FAU/USP
318. Maria de Fátima Alves da Silva – Física/UERJ
319. Maria Helena Oliva Augusto – Sociologia/USP
320. Maria de Lourdes Ortiz Gandini Baldan – UNESP
321. Maria de Lourdes Rollember Mollo – UnB
322. Maria de Lourdes Zuquim – FAU/USP
323. Maria do Carmo Ferreira – UNIRIO
324. Maria Eloisa Martin – Sociologia/PUC-RJ
325. Maria Fernanda Fernandes Lombardi – Ciências Sociais/UNIFESP
326. Maria Helena Rodriguez – PUC/RJ
327. Maria Lucia Refinetti Martins – FAU/USP
328. Maria Paula Dallari Bucci – Direito/USP
329. Maria Ribeiro do Valle – Sociologia/UNESP
330. Maria Rita Loureiro – FGV-SP
331. Maria Rosilene Alvim – Antropologia/UFRJ
332. Maria Stella Bresciani – História/UNICAMP
333. Maria Tereza Serrano Barbosa – UNIRIO
334. Mariana Fix – UNICAMP
335. Marilde Loiola de Menezes – Ciência Política/UnB
336. Marina Cordeiro – Sociologia/UFRuralRJ
337. Marina Mello e Souza – História/USP
338. Mário Augusto Medeiros da Silva – Sociologia/UNICAMP
339. Mario Schapiro – Direito/FGV-SP
340. Mário Duayer – UFF
341. Marisa Midori Deaecto – ECA/USP
342. Maristela de Paula Andrade – Sociologia/UFMA
343. Marta Amoroso – Antropologia/USP
344. Marta Arretche – Ciência Política/USP
345. Marta Rodriguez de Assis Machado – Direito/FGV
346. Mary Garcia Castro – UCSAL
347. Mauro Almeida – Antropologia/UNICAMP
348. Mauro Koury – Antropologia/UFPB
349. Mauro Zilbovicius – Poli/USP
350. Michel Misse – Sociologia/UFRJ
351. Michelle Ratton Sanchez Badin – Direito/FGV-SP
352. Milton Braga – FAU/USP
353. Milton Martins – Medicina/USP
354. Moacir Palmeira – Antropologia/Museu Nacional
355. Moisés Goldbaum – Medicina/USP
356. Monica Arroio – Geografia/USP
357. Monica Herz – Relações Internacionais/PUC-RJ
358. Muryatan Santana Barbosa – RI/UFABC
359. Nabil Bonduki – FAU/USP
360. Nadya Araújo Guimarães – Sociologia/USP
361. Natacha Rena – Arquitetura/UFMG
362. Neide Esterci – Antropologia/UFRJ
363. Neusa Serra – UFABC
364. Newton de Menezes Albuquerque – Direito/UFC
365. Niemeyer de Almeida Filho – Economia/UFU
366. Nilce Aravecchia – FAU/USP
367. Nísia Trindade Lima – Sociologia/FIOCRUZ
368. Norma Lacerda – MDU/UFPE
369. Nuno de Azevedo Fonseca – FAU/USP
370. Otilia Beatriz Fiori Arantes – FFLCH/USP
371. Patrícia Junqueira – EACH/USP
372. Patricia Rodrigues Samora – Arquitetura e Urbanismo/PUC-Campinas
373. Patricio Tierno – Ciência Política/USP
374. Paula Marcelino – Sociologia/USP
375. Paulo A. Maia Neto – Física/ UFRJ
376. Paulo Feldman – FEA/USP
377. Paulo Fontes – História/CPDOC-FGV
378. Paulo Gustavo Correa Pelegrini – UNIFAP
379. Paulo José dos Reis Pereira – RI/PUC-SP
380. Paulo Nakatani – UFES
381. Pedro Cesar Dutra Fonseca – UFRGS
382. Pedro Chadarevian – UNIFESP
383. Pedro Garcia Duarte – Economia/USP
384. Pedro Luis Dias Peres – Engenharia/UNICAMP
385. Pedro Meira Monteiro – Espanhol e Português/Princeton University
386. Pedro Paulo Zahluth Bastos – Economia/UNICAMP
387. Peter Pal Pelbart – Psicologia Clínica/PUC-SP
388. Priscila Figueiredo – Letras/USP
389. Rafael Evangelista – Jornalismo/UNICAMP
390. Rafael Villa – Ciência Política/USP
391. Ramón G. V. Fernández – Economia/UFABC
392. Raphael Jonathas da Costa Lima – Sociologia/UFF
393. Raquel Imanishi – Filosofia/UNB
394. Raquel Weiss – Sociologia/UFRGS
395. Rebecca Abers – Ciência Política/UnB
396. Reginaldo Nasser – RI/PUC-SP
397. Rejane Cristina Rocha – UFSCar
398. Renato Anelli – IAU/USP
399. Renato Cymbalista – FAU/USP
400. Renato da Silva Queiroz – FFLCH/USP
401. Renato Glauco de Souza Rodrigues – UFSB
402. Renato Sztutman – FFLCH/USP
403. Ricardo de Araújo Kalid – UFSB
404. Ricardo Musse – Sociologia/USP
405. Ricardo Rodrigues Teixeira – Medicina/USP
406. Ricardo Terra – Filosofia/USP
407. Rita Paiva – Filosofia/UNIFESP
408. Rocío Elizabeth Chávez Alvarez/UFSB
409. Rodnei Nescimento – Filosofia/UNIFESP
410. Rodrigo Alves Teixeira – Economia/PUC-SP
411. Rodrigo Cazes Costa – Produção Cultural/UFF
412. Rodrigo Sales Pereira dos Santos – Sociologia/UFRJ
413. Rogério Arantes – Ciência Política/USP
414. Rogério Schlegel – Ciências Sociais/UNIFESP
415. Ronaldo Campos e Silva – Direito/IBMEC e UFF
416. Rosa Gabriella de Castro Gonçalves – UFBA
417. Rosa Maria Marques – PUC-SP
418. Rosana Curzel – UFRuralRJ
419. Rosângela Ballini – Economia/UNICAMP
420. Rosemary Segurado – PUC-SP e FESPSP
421. Rossana Rocha Reis – Ciência Política/USP
422. Rubem Leão Rego – Sociologia/Unicamp
423. Rubens Alves da Silva – Ciência da Informação/UFMG
424. Rudinei Toneto Júnior – FEA-RP/USP
425. Rúrion Melo – Ciência Política/USP
426. Ruy Braga – Sociologia/USP
427. Sabine Gorovitz – UnB
428. Sabrina Parracho – Sociologia/UFRuralRJ
429. Salete de Almeida Cara – FFLCH/USP
430. Samuel de Jesus – Artes/UFGO
431. Samuel Rodrigues Barbosa – Direito/USP
432. Sarah Feldman – IAU/USP
433. Sávio Cavalcante – Sociologia/UNICAMP
434. Sávio Cavalcanti – UNICAMP
435. Sebastião Velasco e Cruz – Ciência Política/UNICAMP
436. Sérgio Amadeu da Silveira – UFABC
437. Sérgio Costa – Universidade Livre de Berlim
438. Sergio Rezende – Física/UFPE
439. Sérgio Salomão Shecaira – Direito/USP
440. Sérgio Schneider – Sociologia/UFRGS
441. Silvana Rubino – História/UNICAMP
442. Silvia Lorenz Martins – UFRJ
443. Simone Kropf – História/Fiocruz
444. Simone Meucci – Sociologia/UFPR
445. Sônia Salzstein – ECA/USP
446. Stella Senra – Comunicação/PUC-SP
447. Steven Dutt Ross – UNIRIO
448. Sueli Gandolfi Dallari – Direito/USP
449. Suely Rolnik – Psicologia Clínica/PUC-SP
450. Suhayla Khalil – FESPSP
451. Syd Lourenço – FFP/ PPGHS/UERJ
452. Sylvia Caiuby Novaes – Antropologia/USP
453. Sylvia Helena Telarolli de Almeida Leite – UNESP
454. Tânia Bessone da Cruz Ferreira – UERJ
455. Tatiana Berringer – UFABC
456. Tatiana Savoia Landini – Ciências Sociais/UNIFESP
457. Thiago Ferreira – Comunicação/UFBA
458. Tiago Mesquita – Escola da Cidade
459. Tomás Rotta – University of Greenwich
460. Túlio Batista Franco – Saúde Coletiva/UFF
461. Ursula Peres – Políticas Públicas/USP
462. Valdemir Pires – Administração Pública/UNESP
463. Valéria de Marco – Letras/USP
464. Valter Pomar – Relações Internacionais/UFABC
465. Vanessa Petrelli Correia – Economia/UFU
466. Vera da Silva Telles – Sociologia/USP
467. Vera Alves Cepêda – Ciência Política/UFSCar
468. Vera Pallamin – FAU/USP
469. Victor Giraldo – Matemática/UFRJ
470. Vivian Paes – Sociologia/UFF
471. Wagner de Melo Romão – Ciência Política/UNICAMP
472. Wagner Pralon Mancuso – EACH/USP
473. Waldir Quadros – Economia/UNICAMP
474. Walquiria Leão Rego – Ciência Política/UNICAMP
475. Wellington Cyro de Almeida Leite – UNESP
476. William Nozaki – FESPSP
477. Wilma Peres Costa – História/UNIFESP
478. Wilson Reis de Souza Neto – Matemática/PUC-RJ
479. Wilson Vieira – Economia/UFRJ
480. Yara Frateschi – Filosofia/UNICAMP

Não derrubarão a democracia

Por Jandira Feghali

A crise política e aética que mancha a biografia do presidente da Câmara dos Deputados tenta ser jogada contra Dilma Rousseff. Como uma tentativa de Eduardo Cunha de se salvar das manchetes que expõem denúncias de corrupção contra ele, o mesmo usa o artifício do impeachment para vingar-se do Governo Federal num jogo rasteiro e nada republicano. Uma manobra. Uma chantagem.

Até então, a possibilidade de impeachment foi sendo usado como forma de pressão no Conselho de Ética da Casa que analisava o processo de perda do mandato de Cunha. O presidente da Câmara ameaçava a todo momento deferir o pedido caso não tivesse votos suficientes contra a aprovação da admissibilidade do processo. Por esses e muitos outros fatos que ele perde as condições de presidir a Câmara.

A tentativa do impeachment é, sim, um erro grotesco do presidente e de todos aqueles que se perfilam ao golpismo. O impedimento de Dilma seria um ataque à Democracia, conquistada a sangue e luta de diversos brasileiros na História, além de um arremesso covarde do país ao abismo de incertezas e crises econômicas inimagináveis.

É concreto que a prática de crime de responsabilidade da presidenta Dilma não existe. Não há investigações em curso contra ela nem provas de algo do tipo. Forçar essa via é apostar na ruptura democrática e querer apagar os 53 milhões de votos dados em 2014 ao governo eleito.

Cunha, ao pôr o impeachment à luz do debate nacional, é uma das figuras mais acusadas de corrupção e com diversas provas já divulgadas. Em meio a este lamaçal, apontar para o impedimento é sinalizar afagos e tentativas de sua sobrevivência no Conselho de Ética junto à oposição no Parlamento.

Aliás, essa é a mesma oposição que dividia almoços e jantares à paisana com Eduardo Cunha, na tentativa de avançar com o golpe. Num rápido hiato, teatralizou para a “plateia” que estavam rompidos. A oposição chegou a tomar o Conselho e proferir palavras de ordem contra o ex-atual-amigo-de-sempre. A hipocrisia é reinante na terra de tucanos, DEMocratas e integrantes do PPS.

Há que se analisar o aspecto técnico do modus operandi de Cunha. O deferimento esta semana do pedido de impeachment revelou sérios erros constitucionais, e que serão questionados por nós dentro da Câmara. Junto ao Supremo Tribunal Federal, o deputado maranhense Rubens Pereira Junior, junto do próprio PCdoB, impetrou as devidas reclamações.

É preciso dizer que a decisão revanchista de Cunha não terá ressonância dentro da Câmara, nem na sociedade brasileira. Mostrarão que esse comportamento pueril, destemperado e de desestruturação emocional se revela como seu desespero e comportamento político conservador. Um perfil que comandou as pautas mais retrógradas no último ano.

Na próxima terça-feira (8) deverá ser instalada a Comissão que analisará o impeachment e estarei no front como titular pelo Partido Comunista do Brasil. Será uma honra representar os milhões de cidadãos brasileiros que se indignam contra o golpismo em curso. Se eles acham que vai ser fácil derrubar a democracia, é porque não conhecem de fato o poder do povo. Estaremos juntos, no país inteiro, mostrando que Dilma ficará e que o golpe não será concretizado.

Janeiro Feghali é Médica, deputada federal (RJ) e líder do PCdoB

Guerra nas redes e nas ruas

Luciano Siqueira *

Logo cedo, ouço no rádio uma bateria de “analistas” e personalidades várias (incluindo o próprio advogado Miguel Reale Junior, um dos subscritores do pedido de impeachment), todos em trincheiras da ultra-direita, cuidando do “clima” que desejam favorável ao golpe.

Sinais da dimensão da guerra agora instaurada, pondo em causa a preservação da democracia e a continuidade das transformações operadas no País desde 2003.

Guerra é a expressão mais adequada para traduzir o novo patamar do conflito político, envolvendo interesses de classe bem definidos.

Guerra de muitas trincheiras: no Judiciário, no Parlamento e nas ruas.

Nas ruas e nas redes. Nunca foi tão preciso esse chamamento à militância e a todos os que se batem pela democracia e pelo progresso: lutemos nas ruas e nas redes!

Que cada um ocupe seu posto.

Que se peleje nas redes sociais com argumentos consistentes, em linguagem clara e compreensível, evitando provocações. Para convencer, mobilizar.

Ataques devem ser rechaçados com firmeza; provocações devem ser postas de lado, na lata do lixo.

A trincheira das redes sociais há de se conectar com as ruas.

O atual Congresso Nacional, de maioria conservadora – sobretudo a Câmara – e pusilânime, mostra-se muito vulnerável à pressão da mídia hegemônica reacionária e à algazarra da direita.

Tal como em batalhas marcantes de nossa história recente, a pressão popular há que tomar as ruas mediante pequenas, médias e grandes manifestações. Todas as formas são válidas.

O deputado Eduardo Cunha dá provimento ao pedido de impeachment num instante em que se vê desmoralizado pelo charco de corrupção em que é pilhado. Reage em desespero contra o risco da perda do mandato e de ir para a cadeia.

Age quando o governo conquista importante vitória na votação das metas fiscais.

Agora terá novamente a seu lado a oposição que recentemente passara a execrá-lo.

Tudo isso é verdade e pode ser corretamente explorado por nossas forças.

Mas há dois pontos a considerar, desde já. A verborréia direitista já insinua que a queda dupla de Cunha e Dilma poderia ser a fórmula da “pacificação” nacional. Veneno puro. Inaceitável!

O outro ponto: os que até agora não haviam se unido, poderão se unificar em torno da resistência ao impeachment: partidos, lideranças políticas, movimentos sociais, personalidades, religiosos, empresários progressistas.

A resistência terá êxito se plasmada através de uma frente a mais ampla possível. Para repercutir a voz das ruas e pressionar o Parlamento.

Uma frente que dialogue com o governo em torno de propostas pós-ajuste fiscal e, assim, pactue a agenda do desenvolvimento.

Leia mais sobre temas da atualidade: http://migre.me/kMGFD

* Médico, vice-prefeito do Recife, membro do Comitê Central do PCdoB

‘O Império passou a jogar mais duro’

Através da televisão e da internet, os Estados Unidos colocam em prática uma contraofensiva ante as lutas sociais e as articulações no campo ideológico.


ALAI

Wikimedia Commons

ALAI AMLATINA – Assumindo que depois da derrota da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), o momento político colocava no centro das definições o tema da integração popular, um conjunto de organizações sociais concordaram com a necessidade de construir um espaço integracionista tendo como referência a ALBA (Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América), enquanto projeto essencialmente político que se remete ao ideal de Pátria Grande, promovido desde as guerras de independência.  
Esse processo se iniciou em julho de 2008, com a elaboração da Carta dos Movimentos Sociais das Américas que, depois de diversos debates nos diferentes países e no Fórum Social das Américas realizado na Guatemala (2008), foi aprovada na Assembleia dos Movimentos Sociais da ALBA, durante o Fórum Social Mundial de 2009, em Belém do Pará, Brasil. Como o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) do Brasil teve um rol muito ativo na impulsão desta iniciativa, estabelecemos um intercâmbio com João Pedro Stédile, membro da Coordenação Nacional desta organização, cuja reflexões apresentamos na continuação.  
 – Quais fatores e atores foram agravantes para a derrota da ALCA?

Em essência, com a ALCA se buscou armar um aparato jurídico para proteger as operações das empresas estadunidenses orientadas a tomar o controle do mercado das Américas. E para isso, se necessitava liberdade total do comércio, anulando qualquer medida soberana dos governos nacionais. E a implantação da moeda estadunidense ea proteção jurídica plena a seus investimentos.  

Porém, para que se concretizasse esse projeto, era necessário o apoio de todos os governos da região. Mas resulta que, a partir de Hugo Chávez, em diversos países foram eleitos governos anti-neoliberais, reconfigurando um cenário que terminou por obstaculizar o avanço da ALCA.
Por outro lado, o governo dos Estados Unidos já estava fragilizado em suas propostas neoliberais, ao mesmo tempo em que perdia terreno com as derrotas político-militares no Oriente Médio.
E esse quadro se completa com a resistência popular em diversos países do continente. Em alguns, a resistência se organiza em forma de campanha explicitamente contra a ALCA. Em outros, se apresenta como mobilizações populares, localizadas, contra o neoliberalismo, o qual significava estar contra o livre comércio e a subordinação aos Estados Unidos.
Ademais, em alguns países é evidente que também agravou, com peso relativo, a postura de alguns setores empresariais locais, que não se sentiam cômodos com a subordinação total aos interesses dos Estados Unidos, já que implicava uma perda de parte de sua taxa de lucro para benefício das empresas estadunidenses.
 
– Quais são as principais lições que você extrai dessas jornadas? 
São muitas lições e aprendizagens desse período. Difícil nomear a todos ou estabelecer critérios por importância. Porém, cabe destacar a realização de referendos populares, de consultas ao povo, e também a realização de assembleias populares massivas, pois contribuíram para que se implemente uma significativa pedagogia de massas, que ajudou que o povo entendesse o que estava em jogo, ao politizar o debate, e a que participasse, ainda que de maneira simples: com o voto em contra.
Também foi importante a unidade entre a maioria dos movimentos populares de cada país contra a ALCA, já que era a principal bandeira de luta contra o neoliberalismo. Isso ajudou a superar os protagonismos, o sectarismo e outras práticas comuns entre nossos movimentos. 
 
– Especificamente, o que significou nesse momento o nascimento da ALBA? 
Nesse contexto, foi agravante a visão estratégica e continental do presidente Hugo Chávez com a proposta da ALBA, sob as premissas de que: a) não é suficiente criticar aos Estados Unidos e a integração do capital, assumindo que é preciso apresentar outra proposta de integração, alternativa, uma integração que precisa ir além dos governos para adquirir um caráter popular; b) utilizou toda sua experiência e carisma para articular governantes anti-neoliberais e progressistas em torno da proposta da ALBA. E tanto assim que anuncia esta perspectiva no ato da derrota da ALCA, em Mar del Plata – Argentina -, durante o famoso rali popular em um estádio de futebol com milhares de militantes argentinos e das Américas; c) o seguinte passo, com sentido político, foi que não poderia ser só uma articulação dos Estados ou governos, mas também deveria envolver as forças populares que atuam de maneira independente dos espaços institucionais.
 
– No novo cenário após a derrota da ALCA, na agenda oficial se fortalece a perspectiva de uma integração soberana que, ademais da ALBA, se traduz na conformação da UNASUL e, posteriormente, da CELAC, assim como repercute em uma redefinição de outros projetos de integração, como o Mercosul, nos quais se abrem espaços para a participação de movimentos sociais. Como entender que essa abertura tenha ficado no plano formal? Qual a responsabilidade dos próprios movimentos para isso seja assim? 
Em primeiro lugar, desde um ponto de vista institucional depois da derrota da ALCA e do surgimento da ALBA, não se conseguiu aglutinar a maioria dos governos. Assim, desde o ponto de vista governamental, este se limitou a sete ou oito países, e de economias não muito representativas para o continente. Sabendo que, em realidade, a economia se move com o peso de México, Colômbia, Brasil e Argentina.
Ante essas circunstâncias, o presidente Chávez acertou ao mover-se para criar outros espaços que não eram tão populares como alternativas, mas representavam a possibilidade de uma unidade do continente contra o governo dos Estados Unidos e Canadá. E daí surgiu a proposta da UNASUL, na América do Sul, e da CELAC a nível continental. As duas iniciativas tiveram êxito, aglutinaram a todos os países, sem Estados Unidos, e na prática enterraram a hegemonia que os Estados Unidos tinham com a OEA.
O Mercosul, que nunca foi um mecanismo de integração verdadeira, foi somente um acordo comercial entre os países do sul. E creio que já tem seus dias contados, já que necessita migrar para um acordo de toda a América do Sul, no marco da UNASUL. Assim como está, já não serve para nada.
O problema é que alguns dos países governados pelos partidos neoliberais na América do Sul estariam colocando resistências, e prefeririam realinhar-se com os Estados Unidos através a Aliança do Pacífico, e agora o TPP, que abarca também parte da Ásia.
Desde o ponto de vista institucional, a crise internacional do capitalismo, as dificuldades com o preço do petróleo, produto que, para a Venezuela, é sua principal fonte de financiamento para os projetos econômicos estratégicos para o continente, tem uma influência negativa.
Em relação aos movimentos populares, que nos articulamos dentro dos parâmetros conceituais da ALBA, nós estamos nos movendo lentamente porque escolhemos caminhar com as nossas próprias pernas, tendo autonomia frente aos governo e Estado, inclusive progressistas ou de esquerda.
 
– Nesse novo cenário, outro aspecto que se destaca é que se dilui a articulação alcançada continentalmente pelos movimentos, e, ainda mais, praticamente se produz um refluxo desses avanços. Qual é a sua explicação sobre isso? 
Não vejo como um refluxo. Eu vejo como uma lentidão natural, porém pedagógica, de que só conseguiremos ir para frente se tivermos maior capacidade de articular forças populares em cada um de nossos países.
E, por desgraça, na maioria dos países, ainda que todos nos declaremos anti-neoliberais e anti-imperialistas, não conseguimos construir espaços nacionais unitários, que sejam a base de um movimento continental da ALBA. Então, se as forças populares não têm a maturidade para articular-se em seus países, não podem e não devem sair nas articulações internacionais, como porta-vozes da unidade. Falando em nome de quem?
Por outro lado, se imaginava que a recente conjuntura ajudaria aos movimentos populares de todo o continente para que avançassem mais rapidamente em uma re-ascensão do movimento de massas. Porém, lamentavelmente, isso não aconteceu. No momento, somente na Bolívia se mantém em ascensão o movimento de massas, que ainda que se sinta participante do governo, também o pressiona, e está em constante mobilização.
Na Venezuela, há uma vinculação muito grande entre os movimentos populares e os processos eleitorais, que se realizam a cada dois anos, e terminam monopolizando os interesses das forças populares em luta permanente contra os golpes da direita.
E, por último, o império passou a jogar mais duro, colocando em prática uma contraofensiva ante as lutas sociais e as articulações no campo ideológico, avançando com suas armas, que são os meios de comunicação, especialmente a televisão e a Internet. Nesse campo, o capital e os Estados Unidos são absolutamente hegemônicos, e tem uma grande força.
Ou seja, os poucos avanços não foram só debilidades nossas, que são muitas, mas também houve um relançamento das iniciativas ideológicas impulsionadas pelos Estados Unidos com as forças conservadoras em nossos países. E em todos os países estamos assistindo a uma confrontação cada vez maior dessas forças com as forças populares.
E as forças populares com pouca possibilidade de atuar na televisão, nos meios de comunicação massivos e na Internet. Inclusive na Internet, que se considerava que era um espaço mais livre e democrático, as revelações de Assange e Snowden deixaram claro, por exemplo, que o Google não passa de uma ferramenta à serviço e sob o controle dos serviços de inteligência do governo dos Estados Unidos.
 
– Hoje estamos diante de um novo cenário, tanto pela dinâmica global do capitalismo como pelas limitações registradas pelos governos de mudança, o qual deu espaço para que, inclusive entre os opositores de esquerda, se fale do fim do ciclo progressista. Desde a perspectiva dos movimentos, como encarar essa situação, sendo que existem tentativas desestabilizadoras? 
Não considero que seja o melhor caminho permanecer prognosticando o fim do ciclo progressista, ou o recomeço dos setores conservadores. Isso não é dialético. A luta de classes é permanente em cada um de nossos países, e muito dinâmica. Não podemos generalizar como uma situação em cada país. E inclusive nos países em que existe uma completa hegemonia da direita nos governos, como México e Colômbia, há uma maior intensidade da luta social, e a disposição de luta do povo.
Creio que nos encontramos em condições difíceis, devido à dependência econômica de nosso continente em relação ao capitalismo internacional. Mais do que nunca devemos recuperar as teorias da dependência (sistematizadas na década de 70) para explicar a situação de nossas economias, para não cair no simplismo de que tão somente porque os governos vão mal, ou a economia está em crise, que isso significa o fim de ciclos de governo.
Estamos no meio da luta de classes, em cada um de nossos países e no continente. E esta, cada dia, pode e tem desdobramentos diferenciados com diferentes consequências.
Nesse sentido, os movimentos populares e as forças de esquerda precisam estudar mais, conhecer melhor suas realidades e ter mais claro, nas disputas eleitorais, ideológicas e políticas, quem são nossos inimigos principais, quem são nossos aliados temporais, e quem são as forças realmente populares, que podem acumular para alcançar as transformações estruturais de nossas sociedades. E pelo pouco que li e escutei de companheiros/as em nossos encontros, existe uma confusão generalizada na maioria dos países sobre esta identificação necessária, para posicionar-se melhor nas táticas, na luta de classes.
 
– Na atual disputa geopolítica, o imperialismo trata de impedir que se avance na direção do multilateralismo no ordenamento internacional.  Para isso, além de seu poderio militar, tem colocado o pé no acelerador para chegar a acordos de livre comercio em diversas frentes. Na região, com a Aliança do Pacífico, globalmente com o TPP, o TTIP, TISA, entre outros. Frente a esta realidade, o que fazer a partir dos movimentos sociais? 
Temos que debater esses temas com profundidade em cada um de nossos países, pois os desafios podem apresentar-se de forma diferenciada. O primeiro passo é compreender que de fato o imperialismo do capital dos Estados Unidos é nosso principal inimigo, que se apresenta não só através das ações do governo desse país, como também, e sobretudo, com as iniciativas de empresas, corporações transnacionais, meios de comunicação e acordos internacionais.
Segundo, precisamos seguir com o trabalho de base, para conscientizaras nossas bases, a respeito dessa realidade e do contexto da luta de classes em nossos países, que está cada vez mais internacionalizado. Ou seja, a correlação de forças no plano local não somente está determinada pelo comportamento das burguesias locais, como também pelo comportamento de forças do capital internacional.
Terceiro, temos que reimpulsionar o trabalho de formação política de nossa militância… e ter, de fato, uma estratégia de unidade política e de disputa do poder político na sociedade, no sentido elaborado por Gramsci, de que todos os espaços coletivos da sociedade, são espaços de luta política. Creio que a maioria dos partidos de esquerda se perdeu em esquemas puramente eleitorais e abandonaram a formação política de sua militância. E logo caíram no pragmatismo total, que sempre repercute em oportunismo pessoal ou de grupos.
Quarto, colocar energias na construção de meios de comunicação de massas.
Quinto, estimular as lutas de massas, somente elas podem, de fato, alterar a correlação de forças, e ser um contraponto à força do capital imperialista, a que me referi anteriormente.
 
 Entre outros temas agravantes, ressaltam os relativos às crises ambiental e alimentaria. Que alternativas se estão formulando? 
O capital internacional, frente a crise de acumulação cíclica que estamos vivendo, migrou com maior intensidade em direção à América Latina, para apoderar-se e tornar-se proprietário privado de nossas riquezas naturais, particularmente dos minerais (petróleo, ferro, bauxita, etc.) e da energia elétrica, eólica, e das commodities agrícolas.
Esta avalanche de capital, explorando/extraindo os bens naturais, está causando essa destruição do meio ambiente em todo o continente, que traz como consequências graves a mudança climática, o desaparecimento de água, etc.
Esse tema não estava presente na luta de classes antes de 1990, aparece somente agora. E é preciso enfrentá-lo com a mesma intensidade que frente à contradição entre capital e trabalho. A destruição do meio ambiente pode colocar em risco a vida humana no Planeta.
Nesse sentido, temos dois aliados importantes: as contradições da natureza, que coloca a cada sociedade frente às consequências de sua destruição, e, portanto, pode conduzir a uma conscientização da sociedade a respeito da gravidade, pela mudança climática, da temperatura, a falta de água, as secas, etc.
E o segundo aliado é a postura política do Papa Francisco, que mais além de seus pronunciamentos, preparou a Encíclica Laudato Si’, que é uma bela análise das causas, consequências, das agressões ao meio ambiente e da necessidade de reagir.
Assim, espero que as forças populares, ao menos as que se articulam na ALBA, abracem com prioridade este tema.
 
 Sendo que a disputa política e social se deslocou ao espaço comunicacional midiático, como abordar esse objetivo? 
De muitas maneiras, começando com o impulso de uma luta sistemática contra o oligopólio que o capital nos impõe, com suas redes midiáticas, em especial a televisão e a Internet, a denúncia permanente de seu novo papel como organizador ideológico da sociedade em favor dos interesses do capital e da exploração.
Por outra parte, criar de todas as formas e em todos os espaços que podamos, nossos próprios meios de comunicação de massas, sob o controle das forças populares. E articular-nos a nível continental, também e sobretudo neste campo da informação, da luta ideológica.
Mas, ademais, lutar em nossos países para que hajam leis que democratizem e regulem os meios de comunicação, em função do interesse público.
Tradução de ALINE PAIVA.

COP21 – A última chance de salvar o planeta

A indústria do petróleo, que não tem interesse em um acordo restritivo e punitivo, passou da negação do aquecimento global às pressões sobre legisladores.


Leneide Duarte-Plon, de Paris*

Adam Cohn / Flickr

Se dependesse das grandes companhias petrolíferas não somente não se falaria de aquecimento global mas a 21a Conferência da ONU pelo Clima-COP21 não chegaria ao resultado esperado por cientistas e ecologistas. A conferência se realiza no fim do ano que viu todos os recordes de temperatura serem batidos e o nível de concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera atingir um nível inédito.

O lobby do petróleo tenta agir como fez a indústria do tabaco, que durante anos ocultou os efeitos nocivos do cigarro para a saúde. O problema é que, como se sabe, os danos do aquecimento global não são apenas sobre a saúde humana. A própria vida no planeta está ameaçada se não mudarmos de modelo energético.

A indústria do petróleo e do gás não tem interesse em um acordo restritivo e punitivo. As companhias de petróleo passaram da negação pura e simples do aquecimento global às pressões sobre os legisladores em diversas instâncias mundiais.

Nos Estados Unidos, principal poluidor do planeta per capita, a indústria petrolífera gastou, em 2014, 141 milhões de dólares em lobby, segundo a ONG Center for Responsive Politics, que só leva em conta as despesas realizadas em nível federal. Num relatório da companhia americana Chevron, o aquecimento global é visto até como algo positivo “pois vai permitir a exploração do petróleo no Ártico com custos de 25% a 50% mais baixos”. Entenda-se: o degelo acelerado tem suas vantagens para a Chevron, o resto do mundo que exploda.

O carvão, o petróleo e o gás asseguram hoje 80% da produção mundial de energia primária e são responsáveis por 80% das emissões de gases responsáveis pelo efeito estufa. Passar a energias limpas e renováveis é o grande desafio do século.

Sapatos do papa

A Conferência transformou o cotidiano da capital francesa. Milhares de policiais patrulham juntamente com militares para garantir a proteção dos 150 chefes de Estado, 3 mil jornalistas e milhares de participantes vindos de 195 países. O risco de novos ataques terroristas não pode ser afastado.

Na abertura da Conferência,  cada um dos 150 chefes de Estado ou de governo presentes ao Le Bourget teve três minutos de fala. Citando o poeta Victor Hugo, o presidente chinês, Xi Jinping clamou: « Diante de situações extremas é preciso encontrar soluções extremas ». Maior poluidor do planeta em termos absolutos, a China é responsável por 23,2% dos gases que provocam o efeito estufa. Os telejornais mostraram que naquele mesmo dia, em Pequim, o ar era irrespirável e a poluição formava uma névoa pesada.

Evo Morales afirmou de forma contundente: “Se continuarmos no modelo capitalista atual, a humanidade está condenada a desaparecer”. O anfitrião François Hollande ousou uma alusão às futuras guerras pela água, recurso natural ameaçado com o avanço das temperaturas: “O aquecimento global traz os conflitos como a nuvem traz a tempestade”. Ele acrescentou que os bons sentimentos e as declarações de intenção não serão suficientes. O ministro das relações exteriores Laurent Fabius, que preside a reunião de Paris, foi categórico: “As gerações futuras julgarão nossas ações”.

A presidente Dilma Rousseff denunciou em seu discurso “a ação irresponsável de uma empresa que provocou recentemente o maior desastre ambiental da história do Brasil na grande bacia hidrográfica do rio Doce”. Ela defendeu um documento final sobre o clima de cumprimento obrigatório, com revisão a cada cinco anos.

Na IVa Cúpula da Terra, em Johannesburgo, em 2002, o presidente Jacques Chirac pronunciou um discurso que até hoje é citado. « Nossa casa está pegando fogo e nós estamos olhando para outro lado », disse para denunciar a indiferença das grandes potências quanto à urgência das transformações climáticas.

O papa mais ecologista da história da Igreja – que não por acaso escolheu o nome de Francisco para homenagear o poverello de Assis – não pôde vir a Paris para a marcha pelo clima mas, da África onde se encontrava, mandou seus sapatos.

Impedidos de marchar, devido ao estado de emergência imposto depois dos atentados, os parisienses levaram seus sapatos a endereços divulgados previamente por uma ONG. Mais de 15 mil pares foram expostos na Place de la République toda a manhã de domingo, 29 de novembro, véspera da abertura da COP-21. O papa enviou seu par pelo cardeal brasileiro Cláudio Hummes. As atrizes Vanessa Paradis e Marion Cotillard, também mandaram os seus. O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon e milhares de franceses anônimos atapetaram a praça com seus sapatos.

Os militantes formaram uma cadeia humana para ligar a Place de la République até a Place de la Nation. O dispositivo policial era impressionante. Além de zelar pelos manifestantes, os policiais cobriam o Boulevard Voltaire para proteger os chefes de Estado que iam e vinham a caminho do Bataclan.

Altar laico

Durante todo o dia de domingo, diversos chefes de Estado foram se recolher diante do Bataclan, onde morreu a maior parte dos 130 assassinados nos atentados da fatídica sexta-feira, 13 de novembro, no pior atentado terrorista que a capital já viu.

Vindo diretamente do aeroporto, Obama, acompanhado de François Hollande, foi depositar uma rosa no local que se tornou um verdadeiro altar laico, ponto de peregrinação de parisienses e visitantes.

No meio da tarde de domingo, manifestantes anarquistas e Black Blocks fizeram uma aparição relâmpago na Place de la République. Foram reprimidos pela polícia mas responderam aos jatos de água e bombas de gás lacrimogêneo jogando as velas e objetos que homenageiam os mortos no atentado e até hoje estão em torno da estátua que representa a república. Mais de uma centena de pessoas foram detidas.

Apesar de limitada em seus movimentos e manifestações de rua, a sociedade civil não vai ficar fora do encontro que termina dia 11 de dezembro. Haverá 227 encontros e 187 debates e colóquios à margem dos trabalhos da COP21, além de 65 projetos culturais.

Todos os países do mundo têm agora na COP21 a oportunidade de frear o ritmo do aquecimento global, que se ultrapassar 2°C em relação à temperatura do início da era industrial pode ser fatal  para a vida no planeta azul.

* Leneide Duarte-Plon é jornalista, trabalha em Paris e é co-autora, com Clarisse Meireles, da biografia de frei Tito de Alencar, Um homem torturado-Nos passos de frei Tito de Alencar.

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