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EUA e Cuba: luzes e sombras de uma aproximação

 

Ao cumprir-se nesta quinta-feira (17) um ano do histórico anúncio do início do processo para restabelecer relações entre Estados Unidos e Cuba, constata-se que foi proveitoso em se apostar no diálogo, embora subsistam obstáculos como o bloqueio econômico.

 

 

Raúl Castro e Barack ObamaRaúl Castro e Barack Obama

Sucessivas rodadas de conversação confirmaram a vontade expressa dos presidentes Barack Obama e Raúl Castro, que em pronunciamentos quase simultâneos no dia 17 de dezembro de 2014, coincidiram na vontade de recompor os vínculos interrompidos durante 54 anos, depois da ruptura de relações por parte de Washington.

A decisão, além de valentia política, traz embutida a oportunidade de demolir o muro entre os dois países, afirmaram analistas.

Não é fácil, reconheceu o presidente estadunidense. “A mudança é dura, em nossas próprias vidas e nas vidas das nações. E ainda mais quando levamos o peso da história em nossos ombros”, sustentou. O governante cubano insistiu que “devemos aprender a arte de conviver, de forma civilizada, com nossas diferenças”.

Como parte da aproximação, em ambas capitais foram abertas oficialmente embaixadas no dia 20 de julho, fato conceituado como o primeiro passo de um longo e complexo caminho para a normalização das relações diplomáticas.

Previamente, em abril, os presidentes de ambos países, pela primeira vez em mais de meio século, conversaram frente a frente durante a 7ª Cúpula das Américas que aconteceu no Panamá.

Pouco depois, a administração democrata excluiu a maior das Antilhas da unilateral lista de supostos Estados patrocinadores do terrorismo, na qual, segundo as autoridades da ilha, nunca deveria estar.

Outro ponto importante foi a criação, em agosto, de uma Comissão bilateral com o objetivo de analisar e avançar em diferentes âmbitos onde é possível a cooperação.

Até o momento, foram conseguidos acordos significativos sobre temas como combate ao narcotráfico e ao tráfico de pessoas, proteção de ecossistemas marinhos e reabertura do correio postal.

Este ano, várias delegações de congressistas, senadores e homens de negócios viajaram a Havana para explorar novas oportunidades de comércio, sobretudo no âmbito da agricultura.

Além disso, no Congresso estadunidense foram apresentadas diversas iniciativas dirigidas a modificar a aplicação do bloqueio e minimizar a proibição de viagens de cidadãos estadunidenses a Cuba.

Na opinião do governo cubano, o cerco econômico, comercial e financeiro imposto por Washington em 1962 constitui o principal obstáculo para a completa normalização dos vínculos.

Ainda que a administração democrata tenha anunciado em janeiro algumas medidas para aumentar as viagens e o comércio com a ilha, as disposições são ainda limitadas, enquanto permanece intacta a base jurídica que só pode ser alterada pelo Congresso para eliminar o bloqueio.

Desde o discurso sobre o Estado da União, em 20 de janeiro, Obama chamou várias vezes o Congresso a acabar com ditas sanções.

No dia 11 de setembro, o governante norte-americano renovou por mais um ano a chamada Lei de Comércio com o Inimigo, que sustenta o embargo econômico imposto a Cuba.

Não obstante, com esta ação o chefe da Casa Branca manteve sua autoridade executiva para relaxar as sanções.

Servidores públicos da chancelaria cubana têm reiterado que o chefe da Casa Branca dispõe de amplas faculdades para esvaziar aspectos vitais do bloqueio.

Para o futuro, permanecem pendentes temas bem mais complexos, alguns conceituados nocivos para a soberania do país caribenho, os quais devem ser resolvidos face à aspiração de atingir vínculos normais.

Neste sentido, figura a reivindicação pela anulação da denominada Lei de Ajuste Cubano e da política de pés secos-pés molhados, que dificulta o clima migratório entre os dois países.

De igual forma, ficam como assuntos álgidos a devolução do território ocupado pela Base Naval de Guantânamo, a eliminação das transmissões ilegais de rádio e televisão, bem como a cancelamento dos programas dirigidos a socavar o sistema e ordenamento político cubano.

Representantes de Cuba e dos Estados Unidos mostraram no dia 8 de dezembro disposição em continuar o diálogo sobre bens nacionalizados de cidadãos estadunidenses na ilha desde de 1959 e sobre os danos provocados aos cubanos pelo bloqueio econômico.

A reunião informativa em Havana sobre as compensações mútuas pendentes de solução entre ambos Estados demonstrou que é possível a negociação e o entendimento sobre a base do respeito à igualdade soberana.

Fonte: Prensa Latina

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Cuba sintetiza o anseio de soberania da América Latina

A hostilidade econômica e as sabotagens armadas não fizeram os cubanos se curvarem, ou repensarem seu vigor latino-americanista.


Por: Darío Pignotti

Quando Francisco, um papa que toma mate e fala sobre o “Che”, visitou Fidel Castro há duas semanas, e conversou com o único líder que protagonizou vários dos momentos mais intensos da região durante a segunda metade do Século XX, a América Latina viveu um desses acontecimentos destinados a entrar para a História. O encontro de Fidel com o papa Jorge Bergoglio, no contexto da reaproximação entre Havana e Washington, foi um episódio comparável com a Cúpula das Américas de 2005, quando Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez e Néstor Kirchner acabaram com a utopia regressiva da ALCA, a proposta de George W. Bush e seus capangas, o mexicano Vicente Fox e o colombiano Álvaro Uribe.

Ambos os acontecimentos indicam o fracasso das políticas hemisféricas da Casa Branca e mostram, na prática, o potencial político de uma região com os anseios se soberania não alcançados. Épica e complexa, a Revolução Cubana pode ser vista por diferentes ângulos, como o da construção de um sistema político original, e imperfeito, baseado no poder popular. Ou desde a perspectiva das mudanças estruturais, como a nacionalização dos bens de produção ou as políticas que garantiram direitos educativos e sanitários para toda a população.

Mas o aspecto mais interessantes para a análise é o de compreender a Revolução a partir de sua identidade nacional e latino-americana.

América Latina

Desde os Anos 60, a soberania intransigente da ilha foi castigada pelos Estados Unidos, inclusive antes de o bloqueio ser formalizado, durante o governo de John Kennedy, em 1962.

Um memorando de 1960, desclassificado nos Anos 90, indica a estratégia de atacar a população para minar a adesão ao governo.

“A maioria dos cubanos apoia Castro, não existe oposição política efetiva, a única forma de reunir o apoio necessário é através do desencanto surgido das dificuldades econômicas da população, para conseguir esse objetivo, deve-se usar qualquer meio”, recomenda o texto apresentado por Dwigth Eisenhower.

Desde então, a estratégia de “contenção do comunismo” e a luta dentro das “fronteiras ideológicas”, ditada por Washington contra o hemisfério foi justificada pelo argumento de evitar que surgissem outras Cubas na América Latina. Esse fantasma foi invocado pelos generais que derrubaram João Goulart no Brasil em 1964, e Salvador Allende, em 1973, um ano depois que de Fidel se hospedar no país durante quase um mês.

Cuba, o modelo de socialismo tipicamente latino-americano, como definiu o herói Ramón Labañino Salazar em entrevista à Carta Maior, foi um tema onipresente no debate latino-americano dos Anos 60 e 70.

O pretexto da Guerra Fria e o combate ideológico caíram junto com o Muro de Berlim, em 1989. Mas, em vez disso atenuar o bloqueio, o tornou mais feroz, através das leis Torricelli, de 1992, no governo republicano de George Bush, e a lei Helms Burton, de 1996, promulgada pelo democrata Bill Clinton. A hostilidade norte-americana era uma política de Estado, independente do partido que governava.

Washington e (principalmente) a ultradireita de Miami estavam eufóricos, imaginando que o colapso da Revolução era iminente, assim como a restauração de um regime neocolonial, no mesmo estilo do que imperava durante a ditadura de Fulgêncio Batista, época em que os mafiosos ítalo-americanos controlavam hotéis e cabarés na capital cubana.

Posteriormente, nos Anos 90 os ataques terroristas e a guerra desinformativa, orquestradas na Flórida com o aparato de propaganda centrado no Miami Herald, se fizeram mais agressivas.

Um jornalista desse diário, Andres Hoppenheimer, chegou a publicar, com ar profético, um livro que se transformou em um grande “faz me rir”, devido ao título “A última hora de Castro”. Em setembro deste ano, o mesmo colunista do Herald e da CNN criticou Francisco por ter cumprimentado Fidel.

A hostilidade econômica e as sabotagens armadas não fizeram os cubanos se curvarem, ou repensarem seu vigor latino-americanista.

Em 1990, Fidel e Lula criaram o Foro de São Paulo para rebater os cantos da sereia sobre o fim das ideologias e da esquerda.

Visionário, Fidel Castro foi pessoalmente até o aeroporto da capital cubana, em dezembro de 1994, para receber o então ainda coronel Hugo Chávez, recém saído da prisão após liderar um levante contra o governo neoliberal de Carlos Andrés Pérez, o presidente venezuelano que protagonizou a ofensiva privatizadora em seu país, assim como Fernando Henrique Cardoso no Brasil, Carlos Menem na Argentina e Carlos Salinas no México.

CELAC

Na primeira década do Século XXI, a diplomacia subserviente acabou, graças à guinada dada pelo Mercosul reinventado por Lula e Kirchner, e também pela criação da Unasul. Para os governos progressistas, acabar com o isolamento cubano e revogar a expulsão do país – medida adotada nos Anos 60 – foi uma das prioridades.

Um passo decisivo para isso dado por Lula, em 2008, quando organizou um encontro de presidentes latino-americanos, com a presença de Raúl Castro, numa cúpula na qual foi criada a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (CELAC), uma espécie de OEA, mas sem a presença dos Estados Unidos e do Canadá.

A construção do Porto de Mariel, com financiamento do BNDES e inaugurado em 2014 pela presidenta Dilma, foi outro movimento brasileiro contra o isolamento de Cuba. Certamente, Washington não aprovou a aproximação concreta entre Brasília e Havana.

Um ano depois, Dilma e vários colegas latino-americanos anunciaram que não participariam novamente da Cúpula das Américas se os Estados Unidos deixassem de fora o líder cubano Raúl Castro – encontro que finalmente aconteceu na cúpula de abril deste ano, no Panamá.

Tradução: Victor Farinelli

Cuba é o melhor país da América Latina para ser mãe, diz estudo

Cuba é o melhor país da América Latina para a maternidade e o 33º do mundo, segundo um índice da organização britânica Save the Children.

País caribenho está à frente de Argentina, Costa Rica e México em índice sobre maternidade.

A ONG, cuja sede fica em Londres, leva em conta fatores como bem-estar, saúde, educação e situação econômica das mães, assim como a taxa de mortalidade infantil e materna, para definir a tabela.
Levando em conta somente a América Latina e Caribe, Cuba está à frente da Argentina (36), Costa Rica (41), México (49) e Chile (51). O Haiti está no 164º lugar. Também em postos relativamente baixos estão Honduras (111), Paraguai (114) e Guatemala (128). A Venezuela está em 66º.

“Apesar de a América Latina ter conseguido enormes avanços, podemos fazer mais para salvar e melhorar a vida de milhões de mães e bebês recém-nascidos que se encontram na maior situação de pobreza”, afirmou o diretor da Save the Children para a América Latina, Beat Rohr. Ele disse que os maiores avanços foram registrados no Brasil, Peru, México e Nicarágua.

O Índice de Risco do Dia do Parto, elaborado pela primeira vez, revela que 18 % de todas as mortes de crianças menores de 5 anos na América Latina ocorrem durante o dia de nascimento. As principais causas são nascimentos prematuros, infecções graves e complicações durante o parto.

Contudo, a mortalidade neonatal na região diminuiu 58 % nas últimas duas décadas, apesar de ainda existir uma grande diferença na atenção dada às pessoas ricas e às com menos recursos, ressalta o estudo. A Save the Children estima que, a nível mundial, mais de um milhão de recém-nascidos poderiam ser salvos todos os anos caso o acesso à saúde fosse universal.

“Quando as mulheres têm educação, representação política e uma atenção materna e infantil de qualidade, elas e seus bebês têm muito mais probabilidades de sibreviver e prosperar, assim como a sociedade na qual vivem”, sublinhou Rohr.

con informaáo do Opera Mundi

Colômbia, mercado para os carros brasileiros

Roberto Stuckert Filho/PR: <p>Brasília - DF, 19/08/2015. Presidenta Dilma Rousseff durante reunião com empresários brasileiros. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR.</p>

Autor: Tereza Cruvinel

Um dos principais acordos que a presidente Dilma deve assinar na viagem que começa hoje à Colômbia será sobre o setor automotivo. Nos últimos dias o ministro da Indústria e Comércio, Armando Monteiro Filho, o Itamaraty e a Fazenda, além de representantes das montadoras, negociaram arduamente uma nova cota de isenção para que o Brasil comece a recuperar a posição de exportador que ali perdeu.

Os carros importados do Brasil já representaram 20% do mercado colombiano, diz o ministro Armando Monteiro. Por uma série de razões, entretanto, hoje a participação brasileira está reduzida a 3%. A Colômbia, diz ele, tem um mercado não desprezível de 400 mil carros/ano. O Brasil, que exportava de 60 a 80 mil carros anualmente para o vizinho, hoje vende no máximo 10 mil por ano. “Vamos firmar um acordo inicial que será o primeiro passo para a recuperação”, diz ele.

O acordo que será assinado preverá o aumento gradual das exportações com tarifa zero, permitindo que já no ano que vem o volume atual de exportações possa duplicar ou triplicar. Mais exportações para o Brasil num momento de recessão significam crescimento e emprego. Mas todo cuidado é pouco. No futuro poderão dizer que Armando e Dilma fizeram lobby para a Anfavea.

Tereza Cruvinel é uma das mais respeitadas jornalistas políticas do PaísColunista do 247,

Obama em Havana? Especialista cubano não descarta essa possibilidade

Darío Pignotti, direto de Havana

 Após a visita de Francisco a Cuba, há duas semanas, o tema que está na boca de todos é o segundo encontro de Raúl Castro com seu colega Barack Obama em Nova York, o segundo em seis meses, depois de 56 anos de conflito diplomático imposto por Washington. Durante esse meio século sem relações, os dois países mantiveram seus escritórios de representação de interesses funcionando.

O doutor Néstor García Iturbe é um dos poucos cubanos com vasta experiência diplomática nos Estados Unidos, já que trabalhou em representação do seu país durante a Guerra Fria.

Nesta entrevista exclusiva com Carta Maior, García Iturbe analisa o encontro entre Raúl e Obama, as consequências do descongelamento, uma possível viagem de Obama a Havana, o eixo diplomático entre Cuba e o Vaticano e a obsessão estadunidense por acabar com a Revolução.

Cubadebate
– Qual é o seu balanço do encontro entre Raúl e Obama em Nova York?

– Considero que ambos cumpriram os seus propósitos. No caso de Obama, mostrar que o processo com Cuba está avançando e fortalecer uma melhor imagem na América Latina, apesar de tudo o que está fazendo, principalmente contra Venezuela, Bolívia e Equador. No caso de Raúl, aproveitar a oportunidade para reforçar que agora começa o processo de normalização, e apresentar novamente o que Cuba exige como condição: a suspensão do bloqueio, a devolução do território ocupado em Guantánamo, ainda que isso faça com que esse processo dure alguns anos mais.

– Você considera que o pronunciamento de Obama contra o bloqueio foi sincero?

– Segundo o meu critério, Obama foi bem claro no que disse, mas foi tergiversado e mal interpretado por muitas agências de notícias, eu diria que quase todas. Obama disse que “na medida em que esses contatos promovam progresso, o Congresso (dos Estados Unidos) inevitavelmente perceberá que deve levantar o embargo, que não pode continuar”. Eu considero que esse é um dos diferentes cantos de sereia, dos quais já fomos advertidos pelo próprio Raúl. Nesse discurso, algumas coisas foram claras, outras ficaram à mercê da interpretação de cada um. Dizer que o bloqueio não funcionava significa que agora estão provando outra forma de conseguir os seus propósitos, que não mudaram. A meta é destruir a Revolução Cubana. Obama quer dar a entender que a política na qual insistiram nos últimos cinquenta anos pretendia melhorar a vida do povo cubano. Alguém acredita nisso? Bloqueio, agressão militar na Praia Girón, queima de canaviais, destruição de fábricas, escolas, armazéns e outros centros, introdução de pragas e doenças no país… Ninguém pode considerar que isso tudo foi pensado para melhorar a vida do povo cubano.

– O fim do bloqueio e o fechamento da prisão de Guantánamo poderiam acontecer antes do fim do mandato de Obama?

– A possibilidade é muito remota, mas existe. Tudo dependerá das eleições e dos interesses das grandes corporações, sobretudo no caso do bloqueio. Com relação a Guantánamo, também há chances, mas é uma questão que está se desenvolvendo de forma muito mais lenta, se ele quer fechar a prisão antes de terminar o mandato, terá que acelerar o processo.

– Quem tem mais pressa em avançar, Obama ou Raúl? Cuba pode esperar mais 50 anos?

– Eu acho que são eles que estão cinquenta anos atrasados. A Revolução Cubana, com dificuldades, muitas delas criadas pelos Estados Unidos, continua viva e avança. Há cada dia mais países querendo estabelecer relações comerciais com Cuba, comprar nosso tabaco, nosso rum, nosso açúcar, nosso níquel, ir aos nossos hotéis. Os homens de negócios dos Estados Unidos sabem que se não correm não vão ter nada mais o que negociar, somente aquilo que sobrar, que é sempre o pior. A pressa é deles, não nossa.


Obama em Cuba?


– Depois da reunião com Raúl, é possível que Obama viaje a Cuba?

– Isso será determinado, em parte, pelas eleições, e por outro lado, pela pressa de Obama em consolidar o que já obteve. Também poderíamos peguntar se seria possível uma visita oficial de Raúl Castro aos Estados Unidos. Eu acho que seria, mas depende de Obama querer correr esse risco. Se o Congresso levantar o bloqueio tenho certeza que ele viajará.

– Por que Obama apostou na aproximação?

– Porque percebeu o fracasso do que fizeram nos últimos cinquenta anos, e agora precisa de uma nova fórmula capaz de derrotar a Revolução Cubana. Em vez de isolar Cuba, os Estados Unidos acabou isolando a si mesmo na América Latina. Se conseguirem domar Cuba, eles tentarão fazer com que isso influa em outros países da região, onde pretendem entrar em melhores condições.


Francisco


– Quão importante foi a mediação do Papa? O diálogo teria prosperado se Bergoglio não tivesse facilitado?

– Evidentemente que a mediação do Papa ajudou e foi importante. Ofereceu confiança às duas partes, algo importante para poder negociar e avançar. Sem a mediação do Papa, o diálogo se estabeleceria, mas não teria resultados em tão pouco tempo.

– Quando se vê Raúl e Francisco falando, parece haver uma certa intimidade. Uma confiança política. Os laços entre Cuba e o Vaticano são suficientemente sólidos como para suportar eventuais crises no diálogo entre Cuba e os Estados Unidos?

– Acho que são sim. Nossas relações com o Vaticano não estão determinadas pelas relações com os Estados Unidos.


A CIA voltará a espionar Cuba?


– Quais são os grupos de interesse estadunidenses mais comprometidos com a aproximação?

– Há muitos grupos interessados, todos querem chegar o antes possível, para não perder a sua fatia. Eles sabem que os espanhóis, os chineses, os russos, os mexicanos, os italianos, os japoneses e muitos outros países estão viajando à Cuba, e cada um deles controla um pedaço, em muitos casos de coisas que os norte-americanos queriam. Os agricultores estão fazendo muita força, também, os que trabalham com turismo, com petróleo, com o açúcar, os da indústria eletrônica e os do setor de entretenimento, especialmente os da música.

– A inteligência estadunidense apoia a reaproximação?

– O mais provável é que sim. Agora que abriram a embaixada em Havana, a inteligência vai ter uma estação da CIA e vai aumentar o seu trabalho com os planos de subversão política e ideológica em Cuba. É algo que haviam perdido em 1961, com o fechamento da embaixada. Agora eles poderão contatar diretamente os seus agentes e colaboradores, não como antes, quando o faziam por meio de outras embaixadas que colaboravam com eles. A CIA tem mais recordações da contrainteligência cubana, mas ainda assim vão insistir nesse trabalho.

– Os grupos vinculados ao complexo industrial militar apoiarão o fechamento de Guantánamo?

– Esses grupos do Complexo Militar Industrial desejam a guerra, isso é o que lhes permite ganhar dinheiro. O Pentágono tem dado declarações apontando que estão de acordo com fechar a prisão mas não em entregar a base, porque é vital para eles, em seu domínio do Caribe.


Frei Betto e a chegada dos comunistas


– Frei Betto disse, no dia em que o Papa chegou em Havana, que Cuba é um país especial. Três papas já visitaram a ilha em apenas 17 anos, apesar de sua pequena superfície e de que somente 30% da população é católica. Mas apesar da sua grandeza política, a ilha deve se preparar para um ataque cultural agressivo direcionado aos jovens. É possível frear essa estratégia de sedução consumista sobre os adolescentes que não vivenciaram a Revolução?

– Esse é um problema sério no qual estamos trabalhando. É necessário que a produção de Cuba aumente e as possibilidades internas para os jovens e também para os mais velhos sejam maiores, o que poderia conter um pouco essa onda de consumo. Porém, lembre-se que Lenin disse: “o homem pensa como vive” e se a revolução pode melhorar as condições de vida da população, também melhorará a forma de pensar da mesma.


Miami e as “narco invasões”


– Nos próximos dias, uma missão negociadora dos Estados Unidos aterrizará em Havana. Quais serão os apontamentos cubanos?

– Esta é uma pergunta múltipla. A Secretaria de Comércio seguramente virá para tentar fazer com que Cuba compre mais alimentos dos Estados Unidos, o que é possível por uma licença dada por Clinton, que nos permite comprar até 800 milhões de dólares anuais – atualmente, compramos pouco menos de 400 milhões. Para o reinício dos voos regulares, se está negociando agora uma abertura somente para os voos charter. A ideia é que a linha aérea Cubana de Aviación voe aos Estados Unidos, para que nós também possamos receber os benefícios econômicos desses voos. É preciso ver como fica isso, devido ao bloqueio. Além disso, os investimentos podem começar a vir amanhã de manhã, já que a lei cubana assim o permite – a que não permite é a lei do bloqueio. As remessas de dinheiro também, não há nada em Cuba contra essa possibilidade. Claro que nós, como qualquer país, temos impostos ao dinheiro que entra, e também vamos ser cuidadosos em verificar a origem desse dinheiro, que não provenha das drogas e outros negócios ilícitos, como os que movimentam milhões em Miami.


Eleições nos Estados Unidos em 2016


– Como o tema de Cuba impactará na campanha eleitoral norte-americana?

– Não acho que seja um tema de impacto nacional na campanha eleitoral. Existem outros problemas mais importantes para o estadunidense que o que acontece com Cuba. Claro que na Flórida e em Nova Jersey os candidatos falam de Cuba, mas em outros estados isso é pouco provável. Em cada estado, o discurso do candidato é diferente, segundo o que interessa nesse estado.

– Uma vitória de Bush poderia anular todos os avanços?

– Não creio, já são muitos os interesses. Esse argumento se baseia apenas nas reações de algumas pessoas na Flórida, que precisam desse tipo de rumor, porque não estão gostando de muitas das coisas que acontecem. Os negócios com Cuba estão começando agora, e vão crescer, e quando isso acontecer, nem Bush nem nenhum outro poderá se opor. Lembremos que ele seria somente o presidente, como Obama agora. Ele terá que fazer o que os grandes interesses lhe ordenem, e esses interesses querem tirar o maior proveito possível das relações com Cuba, incluindo acabar com a Revolução Cubana.


Guerra Fria e Kissinger


– Em que época você trabalhou no escritório de interesses cubanos nos Estados Unidos e o que poderia contar sobre esse momento da relação bilateral?

– Fui conselheiro da Missão de Cuba nas Nações Unidas de 1974 a 1988 (14 anos). Durante esse tempo participei das conversas secretas entre Cuba e Estados Unidos, promovidas por Henry Kissinger, durante o governo de Ford – o relato completo desses encontros está no meu livro “Diplomacia sem sombra”. A relação bilateral durante todos esses anos foi inexistente: o governo da vez sempre se mostrava hostil com Cuba, e tratava por todos os meios de incrementar todas as medidas que pudessem prejudicas os nossos interesses financeiros, comerciais, econômicos e políticos. Eu participei dos acordos entre os dois países para a abertura dos escritórios de interesses, a partir de 1977.

– Você negociou secretamente com Kissinger uma espécie de descongelamento. Porém, em 1976, surgiu o rumor de que os Estados Unidos atacariam Cuba – segundo livro de Peter Kornbluh. Imagina que o ex-secretário de Estado, um realista clássico, aprova a aproximação atual entre Havana e Washington?

– Eu acho que ele está de acordo, devido aos benefícios econômicos e políticos que isso oferece aos Estados Unidos. As conversas em 1976 foram suspendidas devido à presença de tropas cubanas em Angola. Agora, nós estamos em Angola, mas eles também, e tudo vai muito bem.

Tradução: Victor Farinelli

CUBAVsBloqueio

A estratégia dos Estados Unidos para a América Latina Documentos do Wikileaks revelam um plano detalhado para derrubar os governos eleitos dos países latino-americanos e até mesmo o assassinato de Evo Morales.

Russia Times

Enzo de Luca

No recém terminado verão europeu, o mundo viu como a Grécia tentou se opor às chantagens das instituições internacionais que obrigaram o país a aceitar um pacote de novas medidas de austeridade. O endividado Estado grego não pode se negar a cumprir as ordens da Troica conformada pelos credores. Depois do referendo convocado pelo governo de Alexis Tsipras, o Banco Central Europeu privou a economia grega de liquidez, o que intensificou a recessão e transformou o resultado do voto popular numa farsa.

Uma batalha similar pela independência das nações vem sendo travada na América do Sul, durante os últimos 15 anos. Apesar das tentativas de Washington de destruir a “dissidência estatal” em vários países utilizando as mesmas técnicas empregadas contra Atenas, a fortaleza da América Latina vem suportando a pressão. Essa batalha épica vem promovida longe dos olhos dos cidadãos e foi confirmada por documentos do arquivo do Departamento de Estado norte-americano, filtrados pelo WikiLeaks. Alexander Main e Dan Beeton ofereceram uma interessante reconstrução desses acontecimentos em seu livro “WikiLeaks: o mundo segundo o Império Estadunidense”.

Os autores argumentam que o neoliberalismo se impôs na América Latina antes de Berlim e Bruxelas humilharem a democracia na Grécia. Através da coação exercida pelos Chicago Boys – jovens economistas latino-americanos que regressam aos seus países depois de estudar nos Estados Unidos –, Washington conseguiu difundir a austeridade fiscal na América do Sul, entre outros princípios ideológicos: a desregulação, o livre comércio, o sucateamento do setor público e posterior privatização, em processos realizados entre os Anos 80 e 90. O resultado foi similar ao que se viu na Grécia: o estancamento do crescimento, o aumento da pobreza, a deterioração das condições de vida de milhões de pessoas e uma série de novas oportunidades para os investidores internacionais e corporações multinacionais. Porém, como consequência disso, alguns candidatos contrários ao regime neocolonial começaram a ganhar as eleições e a oferecer resistência à política exterior dos Estados Unidos, colocando em prática suas promessas eleitorais de redistribuição social e redução da pobreza.

Entre 1999 e 2008, esses candidatos ganharam eleições na Venezuela, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia, Honduras, Equador, Nicarágua e Paraguai. Grande parte dos esforços do governo norte-americano para subverter a ordem democrática desses países e voltar a impor o regime neoliberal são agora de domínio público, graças às filtragens do WikiLeaks, que revelaram a verdade sobre o presidente George W. Bush e o começo do mandato de Obama. Washington deu apoio estratégico e material aos grupos de oposição, alguns deles claramente antidemocráticos e violentos. Os telegramas também revelaram a natureza dos emissários ideológicos estadunidenses da Guerra Fria, que atualmente elaboram estratégias neocoloniais na América do Sul. Os autores do livro afirmam também que os meios de comunicação corporativos são parte da estratégia expansionista.

O caso emblemático de Evo Morales na Bolívia 

No final de 2005, Evo Morales ganhou as eleições presidenciais com a promessa de reformar a Constituição, garantir os direitos dos indígenas e lutar contra a pobreza e o neoliberalismo. No dia 3 de janeiro de 2006, dois dias depois do seu juramento como presidente, ele recebeu o embaixador estadunidense, David N. Greenlee, que explicou a visão que a Casa Branca tinha para o futuro da Bolívia. A assistência multilateral à Bolívia, segundo o embaixador, dependia do “bom comportamento” do governo de Morales. “Ele lembrou da importância crucial das contribuições dos Estados Unidos para instituições financeiras internacionais como o Banco de Desenvolvimento Internacional (BID), o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI)”, dos quais a Bolívia dependia. “Quando pensar no BID, você deve lembrar dos Estados Unidos”, disse o embaixador. “Isto não é uma chantagem, é a simples realidade”, comentou.

Contudo, Morales manteve suas promessas eleitorais em matéria de regulação dos mercados de trabalho, nacionalização do gás e do petróleo e a cooperação com Hugo Chávez. Em resposta a essas ações de Morales, Greenlee sugeriu um “menu de opções” para tentar obrigar a Bolívia a se curvar diante da vontade do governo dos Estados Unidos. Algumas dessas medidas eram: vetar todos os empréstimos multilaterais em dólares, postergar o plano de alívio da dívida multilateral, diminuir o financiamento da Corporação do Desafio do Milênio (que pretende acabar com a pobreza extrema) e cortar o “apoio material” às forças de segurança da Bolívia.

Poucas semanas depois de assumir o cargo, Morales anunciou o rompimento de contratos de empréstimo com o FMI. Anos mais tarde, Morales aconselhou a Grécia e outros países europeus endividados a seguir o exemplo da Bolívia e “se livrar economicamente dos caprichos do Fundo Monetário Internacional”. O Departamento de Estado norte-americano reagiu financiando a oposição boliviana. As forças políticas opositoras da região da Meia Lua começaram a receber mais ajuda. Segundo uma mensagem enviada em abril de 2007, a chancelaria dos Estados Unidos considerava que a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) “deveria fortalecer os governos regionais, como forma de combater o governo central”.

O informe de 2007 da USAID menciona 101 remessas de dinheiro, com um total de 4,06 milhões de dólares, “para ajudar os governos das províncias a operar estrategicamente”. O dinheiro da Casa Branca também foi destinado aos grupos indígenas locais que fossem “contra a visão das comunidades indígenas defendida por Evo Morales”. Um ano depois, os departamentos da Meia Lua estavam em aberta rebelião contra o governo de Morales e promoviam um referendo sobre a autonomia, num contexto de protestos violentos que acabaram com a vida de ao menos vinte partidários do governo.

Esta tentativa de golpe de Estado fracassou graças à pressão dos presidentes da América do Sul, que emitiram uma declaração conjunta de apoio ao governo constitucional da Bolívia. Mas os Estados Unidos não se deram por vencidos e continuaram em comunicação constante com os líderes do movimento separatista da oposição. Segundo Alexander Main e Dan Beeton, durante os acontecimentos de agosto e setembro de 2008, diferente do que mostravam em sua postura oficial, o Departamento de Estado norte-americano levou a sério a possibilidade de um golpe de Estado na Bolívia, ou até mesmo de assassinato do presidente Evo Morales. “O Comitê de Ação de Emergência, junto com o Comando Sul dos Estados Unidos, desenvolveu um plano de resposta imediata para o caso de uma emergência repentina, que inclui uma tentativa de golpe de Estado e uma operação para matar o presidente Morales”, diz a mensagem da Embaixada dos Estados Unidos em La Paz.

Promoção da democracia

Posteriormente, alguns dos métodos de ingerência implantados na Bolívia se aplicaram em outros países, com governos de esquerda ou forte participação dos movimentos sociais. Por exemplo, depois da volta dos sandinistas ao poder na Nicarágua, em 2007, a embaixada dos Estados Unidos em Manágua lançou um programa de apoio intensivo à Aliança Liberal Nicaraguense (ALN), principal partido da direita opositora.

Ameaça bolivariana

Durante a Guerra Fria, a suposta ameaça da União Soviética e a expansão do comunismo cubano serviram para justificar um grande número de intervenções políticas dos Estados Unidos com o objetivo de eliminar governos de esquerda e implantar regimes militares de direitas. Da mesma forma, as filtragens do WikiLeaks mostram como “o fantasma do bolivarianismo” venezuelano foi utilizado na década passada para justificar a intromissão em temas internos de governos encabeçados por líderes antineoliberais. Assim, Washington se dedicou a uma batalha oculta contra os governos da Bolívia, “que caiu nos braços da Venezuela” e do Equador, que realizava a função de “porta-voz de Chávez”.

Tradução: Victor Farinelli

Encontro entre presidentes Raùl e Obama na #ONU

Raúl en Nueva York

En el aeropuerto John F. Kennedy fue recibido por el embajador José Ramón Cabañas Rodríguez y el representante permanente de Cuba ante Naciones Unidas, Rodolfo Reyes Rodríguez.

Durante su primera visita oficial a este país, Raúl cumplirá una intensa agenda de trabajo que incluye también su intervención en la Reunión de Líderes Mundiales sobre Equidad de Género y Empoderamiento de la Mujer, encuentros con varios mandatarios, congresistas, personalidades y cubanos residentes aquí.

Igualmente, en estas jornadas en Nueva York están previstas las ceremonias de establecimiento de relaciones diplomáticas con Islas Marshall y Palau.

La delegación oficial que asiste a todas estas actividades está compuesta también por el canciller Bruno Rodríguez Parrilla; Abelardo Moreno Fernández, viceministro de Relaciones Exteriores; además del representante cubano ante las Naciones Unidas.

Para la mañana de este viernes se espera la intervención del Papa Francisco ante el plenario de la Asamblea General, momento en el que también estará presente el presidente cubano.

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‘O Papa é um revolucionário’

Quem afirma é o Capitão Monteagudo Arteaga, que lutou junto com Che Guevara, e hoje fala sobre seus anos na guerrilha e sobre seu respeito por Francisco

Darío Pignotti, enviado especial a Havana

Ismael Francisco / CUbadebate

“Combati ao lado do Che, há muitos anos atrás, e agora estou falando contigo aqui, onde você me está vendo, na missa deste papa revolucionário”.

Estamos na Praça da Revolução junto com o ex-combatente Luis Monteagudo Arteaga enquanto Francisco celebra sua primeira missa em Cuba, diante de milhares de fiéis, numa manhã piedosa, porque o sol agrediu menos que nos dias anteriores, quando a temperatura chegou aos 36 graus.

São 8h54 horas. Bergoglio começou a realizar seu ofício religioso, seis minutos antes do horário previsto no programa oficial, repetindo a pontualidade jesuíta do sábado, quando o avião que o trouxe de Roma aterrizou dez minutos antes do que foi estabelecido. E concluiu a missa antes das 11h, pedindo aos cubanos “rezem por mim”, também mais cedo do que o esperado.

Talvez o papa tenha agilizado a missa, para terminá-la a tempo de cumprir com uma agenda carregada de compromissos, entre eles o encontro que com o comandante Fidel Castro, o presidente Raúl Castro e a mandatária argentina Cristina Fernández de Kirchner.

“O Papa e o comandante Castro se entenderam bem, falando o mesmo idioma” disse o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, para um enxame de repórteres que o rodeavam. Lombardi é um padre jesuíta, a mesma ordem à qual pertence o sumo pontífice Jorge Mario Bergoglio.

Durante os 40 minutos do encontro com Fidel, o papa lhe presenteou com livros e CDs sobre o padre Armando Llorente, que foi professor de Fidel quando ele era aluno de uma escola jesuíta em Havana.

Por sua parte, Fidel entregou ao sacerdote argentino o livro “Fidel e a Religião”, de Frei Betto, uma obra de referência, pois aprofundou o diálogo entre a Revolução e os católicos da Teologia da Libertação.

O combatente internacionalista

Voltemos à Revolução. Ou melhor, à Praça da Revolução.

Retomemos a entrevista concedida hoje por Luis Monteagudo Arteaga, capitão retirado das Forças Armadas Revolucionárias, o exército regular de Cuba, que falou exclusivamente com Carta Maior.

Este homem de quase 80 anos, delgado e vital como um junco, é um dos últimos companheiros de Guevara que ainda está com vida.

“Depois de lutar com o Che na Sierra Maestra, em 1958, me chamaram para ir com ele numa missão secreta no Congo. Me escolheram porque eu era militar, era jovem e era negro, e podia entrar dissimuladamente na África”.

“Aceitei ir ao Congo como voluntário, a gente não sabia se ia voltar, ninguém da minha família soube que eu fui. Mantive isso em segredo durante vinte anos”.

O relato do capitão Monteaguro Arteaga é interrompido, vez ou outra, pelos cânticos dos fiéis que participam da missa.

“O Che nunca nos falou de religião. Eu não tenho religião e estou vendo este papa fazendo missa na frente da figura do Che. Me vem à cabeça que o Che está se identificando com este papa. Para mim, ele é um comunista, porque é como Cristo, e Cristo foi o primeiro comunista que existiu na terra”.

“Os anos passaram, já não sou um jovem atirador que lutava com o Che Guevara. Minha memória às vezes me trai. Não recordo tudo com claridade. O que tenho bem claro em minha memória é que o Che era um combatente que não se alterava diante do perigo, era muito arrojado, e isso transmitia uma força de espírito a todos nós”.

“E sempre levo comigo as palavras do Che nas Nações Unidas, quando disse ‘me sinto tão revolucionário como o primeiro revolucionário, tão latino-americano quanto o primeiro latino-americano, e estou disposto a dar minha vida por qualquer país do nosso continente´”.

Católicos e não católicos

A praça está lotada, havia cubanos de Havana e outros vindos do interior do país. Havia também fiéis que chegaram de outros países, a maioria hispanoparlantes e com sotaque centro-americano ou do Caribe. Vários cardeais estão presentes, dos Estados Unidos, da América Latina e da Espanha.

São 11h em Havana. A multidão começa a se desconcentrar ordenadamente. São milhares, mas é possível que não chegue ao meio milhão de pessoas que alguns meios internacionais noticiaram.

Uma parte do público seguia os rituais da missa de perto, outros observavam com respeito, provavelmente por pertencer a outras religiões, ou por não seguir nenhuma: menos de 30 % dos 11,5 milhões de cubanos são católicos.

A cerimônia de Francisco não se referiu a temas políticos, o bloqueio norte-americano, nem mesmo a recomposição das relações entre Cuba e os Estados Unidos, situação com a qual ele contribuiu, com seus bons ofícios diplomáticos.

“Nós gostamos de escutar o papa, porque as coisas que ele diz são universais” comentam duas senhoras que se apresentam como “não católicas”.

As duas mulheres estão próximas à Ponchera los Paraguitas, uma borracharia, na Avenida Salvador Allende, a cinco quadras da Praça da Revolução e a poucos metros de um cartaz de mais de 10 metros, com o lema “Bloqueio, o genocídio mais longo da história”. Um lema que se repete em outros cartazes disseminados por vários pontos da cidade.

Tradução: Victor Farinelli

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