O namorado eterno de Havana

Eusebio Leal Spengler, historiador da capital cubana, conversa sobre a cidade que mereceu sua lealdade perene

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SEGUNDO diria o escritor argentino Jorge Luis Borges da sua própria, Eusebio Leal Spengler acredita que sua vida se iguala em pobreza e em riqueza à de Deus e à de todos os homens. Encarna um dos seres humanos mais brilhantes que pariu Cuba e diz que é filho de seu tempo e como filho de seu tempo, guarda uma montanha de lembranças.

As mesmas lembranças que fazem com que lembrar seja «talvez o maior privilégio de nossa espécie». Os que lembram como ele chegou a ser doutor em Ciências Históricas da Universidade de Havana. Os que explicam sua formação autodidata e todos os títulos honoríficos que lhe deram depois de completar 60 anos. «Minha última atividade escolar foi na última série do primário. Como tive uma adolescência e juventude incertas, fui bacharel e universitário através de exames», rememora o também especialista em Arqueologia.

As lembranças que impedem que esqueça que quanto teve foi bem havido. Os que gravaram sua pós-graduação na Itália, seu mestrado em Estudos sobre a América Latina, o Caribe e Cuba e suas responsabilidades como deputado do Parlamento cubano, embaixador de Boa Vontade da Organização das Nações Unidas ou diretor do Museu da Cidade de Havana.

As lembranças que o viram assumir as obras de restauração do antigo Palácio dos Capitães-Generais, o Governo da Cidade, a Fortaleza de San Carlos de La Cabaña e o Castelo dos Três Reis do Morro. Os que permitiram que as antigas muralhas e o sistema de fortificações para a defesa de Havana foram inscritos no índice do Patrimônio Mundial da Humanidade.

As lembranças que o converteram em historiador de Havana, responsável pela rede de Gabinetes do Historiador e Conservador das cidades patrimoniais de Cuba e presidente de Honra da Sociedade Econômica de Amigos do País. Os que o viram escrever uma dúzia de livros, ensaios, prólogos e artigos sobre história, arte, restauração e outros temas. Os que fizeram com que tivesse excelentes relações com importantes personalidades, organizações e instituições educacionais, culturais e científicas do planeta.

Ao se referir ao desenvolvimento do turismo como fenômeno não somente econômico, mas também cultural — que sempre fala como um pai fala a um filho, com voz clara e pausada —, afirma que quando um povo perde a memória, perde tudo. Daí, a importância da restauração, de não omitir que apenas com decisão pode conseguir-se algo, de entender que em um hotel, «desde o camareiro até a balconista, projetam para fora uma imagem que não é apenas sua imagem, mas a do país».

De acordo com o historiador: «Nenhum processo de desenvolvimento que prescinda da cultura pode prosperar. O que mais me impressiona da Ilha, particularmente de Havana e seu Centro Histórico, e da rede de cidades patrimoniais, é o caudal acumulado de patrimônio de memória e de pedras, tradições, que são um dos elementos mais interessantes para a opção Cuba na área turística».

Falado de outra maneira, o mais significativo é «esse movimento humano que vem de toda parte para escolher não somente paraísos circunstanciais, areias preciosas, lugares da natureza que ver e preservar, mas também um diálogo direto com os cubanos e com sua criação, especialmente com Havana, que um grande jornalista norte-americano chamou de Roma Americana».

Visto que, em 2019, Havana completará 500 anos de fundada, indica o discípulo de Emilio Roig, seu meio milênio a coloca entre as primeiras cidades fundadas pelos europeus no Novo Mundo e em Cuba somente precedida por cidades como a Assunción de Baracoa ou San Salvador del Bayamo, que são patrimônios nacionais. Também, sucede às fundadas na Hispaniola, onde o próprio Cristóvão Colombo, de maneira simbólica, construiu o primeiro assentamento hispânico nas Antilhas com as ruínas de sua nau.

Embora adore falar do que se faz pelo cuidado de Cienfuegos, Sancti Spíritus, Camaguey, Bayamo, Santiago de Cuba e Baracoa, o sábio Leal, sobretudo, pensa em Havana, nos anos que se precisam para demonstrar que o mais valioso, atraente da Ilha, junto à natureza, são suas belas cidades e particularmente «a misteriosa, proibida, às vezes, por muito tempo, inacessível, Havana, que todo aquele que a descobre fica apaixonado por ela, não apenas por seu conjunto arquitetônico, mas porque é um estado de ânimo».

Nas palavras do especialista, «a cultura cubana mostrou um sentido precursor muito elevado. Houve precursores e precursoras que lutaram para conseguir inscrever o patrimônio nacional cubano no universal. É impressionante que uma Ilha tão pequena tenha tantos locais do Patrimônio Mundial sob proteção. Aí se encontra Havana, que é uma espécie de plataforma que se projeta no porto, um lugar belo que se abre como um canal ou um saco».

Não há coisa mais bela, assegura o decano do Colégio de São Jerônimo, que ver que as pessoas podem praticamente dialogar com aqueles que estão na coberta de um cruzeiro quando chega a Havana, como em uma espécie de entrada a Istambul; ou que, como «Cuba é uma Ilha, que flutua no mar como um navio, se sairmos de noite ao beira-mar (Malecón) veremos os cubanos de frente para o mar, sentados no maior sofá que jamais foi construído, em um divã onde cantam, falam, bebem, porque tudo sempre veio do mar, os indígenas, os espanhóis, etc.».

Mas, como surgiu a ideia de repensar Havana para melhorá-la?

«Tenho que dizer, com franqueza, que quando começamos a trabalhar poucas pessoas acreditavam no que queríamos fazer. Eu era um guia do Ministério do Turismo e chamavam-me e me diziam: «vai chegar um navio com um grupo de aposentados alemães; outro dia, um importante visitante que se hospedará em tal hotel e é necessário que o senhor os guie». Preparei-me para falar a cada quem e tentar conquistar-lhe o coração, que é o que deve fazer um guia. Em nome disso, trabalhei com todos os guias, que formaram a escola, estabelecidos em um hotel precioso que está no coração de Havana Velha, o Sevilla. Dali, saíamos para percorrer esse vale de interessantes ruínas que é a parte antiga de Havana. Eu via, como muitos deles viam também que, colocando as mãos em tudo aquilo, poderia ser mudado».

«Compreendi que não era possível em uma cidade habitada realizar um processo de transformação sem fazer, ao mesmo tempo, um projeto social. Assim nasceram escolas de ofícios; nasceram infinitos postos de trabalho. Existiam então apenas alguns hotéis muito prestigiosos, como o Inglaterra, o mais antigo de Havana, que eram como faìscas viventes de atração, que se consideravam passadas».

«Contudo, havia que ter uma fé quase religiosa e eu a tenho, para conseguir que a restauração fosse possível, sem que tudo fossem hotéis. Se o encargo feito tivesse sido fazer de Havana a Disneylandia, teria sido fácil. Fazer um pequeno povoado latino-americano urbano, teria sido fácil. O difícil era integrar a escola, a casa, a comunidade; trazer de novo as pessoas à árvore sob a qual foi fundada a cidade e dizer-lhes: «mais uma vez, daqui, surgirá o renascimento da cidade».

«Hoje nos abrimos passagem perante uma imensa multidão de pessoas de todo o mundo que vêm a Havana. Os 90% dos que viajam a Cuba querem conhecer a capital e quando chegam percebem que o mais interessante da cidade, além de seus prédios, é seu pessoal. Podem entrar e sair a qualquer hora da noite, ir e vir, sem que isto não seja a visão lírica de uma cidade vivente».

«Quando a gente vai a Havana Velha, vê um monte de guindastes levantando os antigos hotéis onde moraram artistas, escritores, boxeadores, cineastas, romancistas, poetas, de todos os tempos. Vê um monte de novas obras e, junto a elas, as pessoas vão desenvolvendo também um projeto bem interessante de vida, que foi resultado de um processo muito complicado. Fazer com que concordassem muitas pessoas sempre é tremendo. Muitos fundam, mas poucos perseveram. O importante é perseverar. Essa foi nossa doutrina salvadora e assim conseguimos que os hotéis convivam com o teatro, a escola, a casa».

Quando começou a se concretizar profundamente a restauração de Havana?

«Em 1995, Fidel, sempre lembrado com gratidão por mim, convidou-me a acompa-nhá-lo a Cartagena de Índias, uma bela e irmã cidade de Havana, que fez parte também de um mar espanhol, absolutamente resguardado pelos grandes engenheiros militares italianos que, a serviço da Coroa espanhola, fortificaram Veracruz, Portobello, Cartagena, Havana».

«Enquanto sobrevoávamos o território colombiano, o Comandante-em-chefe me perguntou que podíamos fazer por Havana, onde em 1967 tinham iniciado os trabalhos na Praça de Armas. Eu lhe disse: «Consolide o princípio de autoridade e elabore um plano diretor, que permita prever o que está acontecendo hoje, o que acontecerá ama-nhã, o dia depois e além de nós. Não permita que isto se converta em lei morta, mas em consciência pública».

«Houve que tomar decisões ousadas. O hotel Gran Manzana, por exemplo, recém-aberto, levanta-se acima do lugar onde apareceu a Muralha, tal qual a arqueologia o determinou. Na entrada da Praça da Catedral está também enterrada a Muralha e ao lado, o Palácio do Arcebispo. Quando houve que desbaratar essa rua se deixou um caminho próximo aberto para que o arcebispo pudesse entrar a sua residência. Aquele subúrbio ruinoso se converteu, de repente, na cidade bela e o mais belo é que está habitada por famílias inteiras. Essas mesmas famílias se integraram ao nosso projeto de desenvolvimento, esforçaram-se e produziu-se um movimento que torna Havana um melhor lugar».

«A Praça Velha, por exemplo, era um estacionamento de carros e teve que ser destruído para poder reconstruir-se. Mas havia uma escola, com 500 estudantes do ensino primário, que não podiam suportar o ruído feito durante a execução da obra. O previsto foi fazer uma implosão em um só dia, mas isso teria prejudicado as casas dos moradores. Houve que fazê-lo à mão e isso provocou mais ruído. Naquele momento propus à diretora da escola colocar uma sala de aulas em cada prédio restaurado, enquanto se arranjava a Praça. O ruído monstruoso foi o que fez com que surgissem esse tipo de salas de aulas, que ainda hoje se mantém. Daí que cada turista que passa pode ver as crianças em suas salas de aulas, dizer-lhes: «oi, tudo bem?», e continuar caminhando».

Que o manteve por tanto tempo diante dessa extensa obra?

«O amor. Tem que apaixonar-se. Eu digo que tenho uma namorada perene, que se chama Havana. Francamente não me faltaram outras — sorri —, mas meu casamento real é com Cuba e com Havana. Esse casamento é perpétuo. Dediquei-lhe a vida inteira. Construí um personagem, que usa uma espécie de uniforme, de camisa azul, os sete dias da semana».

«Algo que sempre me cativou é minha relação com as pessoas. Vou pela rua e uma senhora me diz um segredinho, outra me expressa: «obrigada pelo que você fez pela cidade», e outro que vem encharcado e me dá um abraço. A partir desse diálogo permanente é que é possível caminhar tranquilamente e ver como as coisas florescem e se levantam».

«Contudo, se Napoleão dizia que para ganhar uma guerra era necessário dinheiro, dinheiro e mais dinheiro, também é preciso liderança, decisão e perseverança. Isso me custou caro porque o personagem do qual falei não me deixa viver. Não me deixa vida privada. Não me deixa tempo livre. Um dia resolvi pedir perdão aos meus quatro filhos, que estão dispersos pelo mundo, porque lhes dediquei pouco tempo. Uma paixão me tirou o tempo da vida. Mas me perdoaram e retornam sempre buscando seu pai».

«Não levo agenda porque se corre o risco de perder tudo quanto se escreva nela. Cada sexta-feira me entregam, à tarde, um papel que é como um controle de rotas, com minhas obrigações e protesto por isso. Tento buscar momentos no dia onde possa fazer o que eu quero, mas é muito difícil, quase impossível».

«É muito bom poder ser Eusebio Leal na manhã, o diretor ao meio-dia, o historiador à tarde e o pai a alguma hora do dia. A pior parte é quando me dizem avô e entendo que o tempo passou e passou, como dizia José Martí. O certo é que me tornei velho e essa é uma tragédia insofrível, sobretudo quando a alma é jovem. Há homens ovelha, que estão acostumados ao cajado do pastor, mas eu não, eu tive sempre dentro de mim um jovem rebelde, um homem leal a Havana».

«Para mim a utopia é o sonho de fazer as coisas mais belas para todos, uma torre de marfim que deve levantar-se em uma base econômica, para não converter-se em fantasia. Realizar um projeto turístico, um projeto que mova as pessoas a conhecer Cuba deve sempre convidar a conhecer Havana profundamente, ir além dos ambientes acadêmicos, dos mercados, dos cemitérios, para ver como as pessoas agem, como se movem, como pensam. Havana completará 500 anos e nesse dia, se ainda estou ao pé da árvore, também eu os completarei. Eu represento uma multidão. Eusebio Leal é o pseudônimo de uma loucura que se chama Cuba».

Granma

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Publicado em 03/06/2017, em Cuba, Eusebio Leal Spengler. Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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